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Adolescência ultrajada


Rodolfo de Souza

05/07/2018 | 07:00


Lá vai ela, menina adolescente com seu patim. Assim posso vê-la na imagem que a câmera flagrou, como é sua função flagrar. Roda com a leveza de quem desafia as leis da física e todas as demais. Desliza pela vida, indiferente aos percalços que só aos adultos compete pensar, provavelmente bobagens como boletos, impostos, política e tudo aquilo que só veio ao mundo para tornar muito chato o dia a dia de gente grande. Nem sonha, naquele momento derradeiro, que todos os seus sonhos serão ceifados pelas mãos de alguém que trama contra a sua felicidade, logo ali. Nem desconfia também que nunca terá as dores de cabeça de uma pessoa adulta.

A adolescência é mesmo incompreendida por aquele que há muito desembarcou dela para habitar paragens mais contidas desta nossa breve existência. Possivelmente tenha se esquecido do furor que tornava os dias tão belos como um eterno fim de semana ensolarado. É de fato uma idade despojada, tão leve quanto uma crônica deve ser, esta que carrega a pessoa que a câmera nos apresenta patinando pela rua.

É possível mesmo sentir esse descompromisso com as chateações cotidianas ao se olhar para a cena que mostra e mostrará a garota eternamente imobilizada, embora sugira o seu movimento de caminhar sobre rodas em direção à sombra que a aguarda. Talvez a escuridão não compreenda o sopro da vida. Fora criada para isso, afinal, para não entender a sutileza do fio que nos sustenta a todos, a ela inclusive. 

Mas o asfalto, testemunha silenciosa do destino da adolescente, segue sentindo as rodas que ganham centímetros e metros em direção ao sinistro. Com o vento no rosto, a jovem cabeça certamente caminha cheia de pensamentos que em nada condizem com a realidade que haverá de arrebatá-la logo ali adiante, revelação brutal que ela não compreenderá, que ficará aquém do seu discernimento. 

Mesmo porque, nem tempo terá para pensar a respeito.

Os técnicos dirão isso e aquilo sobre o desaparecimento da menina. Depois, reaparecerão para falar de seu corpo sem vida encontrado na estrada deserta, e do material genético retirado de suas unhas, pobres unhas que teriam lutado contra o facínora, na ânsia de continuar de posse de sua função vital de respirar, como qualquer um de nós. Era só uma criança travando batalha desesperada e solitária contra algo fora de seu controle, que se empenhara, sem que se saiba o motivo, para deter a sua jovialidade, apagar o seu sorriso e indignar as pessoas, que também logo esquecerão. 

Frustrante, pois, é a constatação de que o mundo tecnológico de fotos postadas e câmeras por toda a parte não foi capaz de evitar que morresse. Só divulgou imagens para vãs investigações. Logicamente que seu corpo fora encontrado e reconhecido. No entanto, não passava de um frio cadáver entregue, com um punhado de pesares, aos seus, gente que estava muito longe quando a vida foi usurpada. 

E o que sobra do quadro capturado pela máquina é tão somente sentimento de impotência diante da imagem de uma jovem que patina rumo ao desconhecido. 



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