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'Brasil é pródigo em tabelamentos malsucedidos', diz professor da USP



22/06/2018 | 07:30


Criador do Sistema de Informações de Frete (Sifreca), que acompanha semanalmente o preço do transporte dos principais produtos agrícolas, o professor José Vicente Caixeta Filho, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-Log), da Universidade de São Paulo, acha que a tabela com preços mínimos do frete não será cumprida. Outras medidas ao alcance do governo poderiam ser adotadas para reduzir o custo do serviço. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

A tabela com preços mínimos do frete vai funcionar?

É muito simplista pensar num tabelamento, mesmo que seja em valores mínimos, que leve em consideração apenas a distância e os grandes tipos de carga. Há uma boa intenção, mas uma tabela assim não consegue trazer efetivamente o que se verifica no mercado, porque não considera outros fatores, como a condição da via, o frete de retorno, se é período de safra ou não, por exemplo. Acho improvável fazer uma tabela que leve em conta todas essas variáveis. Com certeza a tabela vigente não é suficiente. É uma tabela entre aspas.

A tabela em vigor vai ser furada?

Tenho praticamente certeza disso. Nossa história é pródiga em ilustrações de tabelamentos mal sucedidos. Essa é uma história universal, não acontece só aqui. Intervenção com preço mínimo para serviços não é salutar para a economia em qualquer lugar no mundo.

Mas então, o que fazer?

Talvez seja o caso de não se pensar tanto no valor do frete, mas atuar mais diretamente em cima de algumas dessas variáveis. Por exemplo, os preços dos combustíveis, o pedágio. E os tributos, já que alguns têm uma parcela significativa destinada à manutenção das rodovias. São variáveis importantes nas quais o agente público poderia ter uma atuação mais efetiva em termos de diminuição do frete.

Os caminhoneiros insistem na tabela porque querem garantir uma remuneração mínima por seus serviços. Dizem que são explorados pelas transportadoras. É fato?

Temos uma oferta bastante elevada de transporte rodoviário. Com o cenário macroeconômico complicado, é comum um desempregado usar seu Fundo de Garantia para comprar um caminhão e tentar puxar carga. E ele muitas vezes se sujeita a valores aviltantes pagos por embarcadores e transportadores. É legítima essa preocupação com a não exploração. Mas uma tabela com preços mínimos não vai resolver esse problema.

No entanto, o governo adotou essa medida.

Esse é um segmento que efetivamente consegue parar o País. Eles têm uma organização meio difusa, não têm uma liderança consolidada, mas a gente viu que eles conseguem. Outro aspecto é que estamos num momento político delicado e no período eleitoral. É o momento de se fazer os pleitos e se conseguir as coisas.

Isso é empurrar o problema com a barriga, não?

Os gargalos do transporte precisam se tratados com políticas de longo, médio e curto prazos. E, dada a proximidade do encerramento desse governo, as medidas são de curto prazo. A continuidade, a visão de Estado, é algo que precisa ser mais evidenciado por todos os participantes de qualquer mesa de negociação. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



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