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‘Se você ficar parado é atropelado’

André Henriques/DGABC  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Luiz Carlos Fernandes
Do Diário do Grande ABC

17/04/2018 | 07:00


Juarez Corrêa, ou só Juarez, 64 anos, nasceu em São Paulo, mas adotou o Grande ABC desde muito cedo, em 1960. Torcedor do Santos e apaixonado por futebol, o premiado chargista – que teve o primeiro trabalho publicado em 1969, aos 14 anos, e o primeiro prêmio ainda quando criança – é o criador das mascotes Ramalhão, do Santo André; Tigre, do São Bernardo Futebol Clube; Cachorrão, do Esporte Clube São Bernardo; e o Imperador, do Clube Atlético Diadema. É dele também a autoria do Aurelinho, em homenagem ao judoca Aurélio Miguel, então atleta que defendia São Caetano, medalha de ouro na Olimpíada de Seul, em 1988.

O senhor, além de torcedor do Santos, é fã do Santo André. Onde nasceu? E quando publicou o primeiro trabalho?
Sou paulista de fato e mineiro de direito. Nasci em São Paulo. Na identidade está Belo Horizonte. Quando nasci, minha família estava de mudança. Nasci em São Paulo e fui registrado em Minas, fiquei lá até os 6 anos, passei primeira infância em Minas Gerais. Em 1960, meus pais vieram para o Rudge Ramos (São Bernardo), depois mudaram para Santo André, e depois fui trabalhar em Londrina, na Folha de Londrina. O primeiro trabalho que publiquei tinha 14 ou 15 anos.

Sempre gostou de desenhar?
Ganhei dois prêmios de desenho quando era criança, o primeiro foi de um cartaz sobre alimentação e outro foi do Salão da Criança no Ibirapuera (Capital). Nesse eu tinha meia hora para fazer um desenho sobre qualquer coisa, o tema era livre. Na sala havia um quadro do Monteiro Lobato que me inspirou, acabei fazendo o Lobato e ganhei o concurso. Lembro que nessa época, quando era criança, cheguei a desenhar no lençol (Risos). Queria assistir a Bonanza, antiga série de TV sobre uma família de caubói, que passava tarde da noite. Meus filmes prediletos sempre foram de faroeste. Porém, minha mãe me obrigava a ir para a cama cedo e não me deixava assistir. Sem sono, eu desenhava no lençol para passar o tempo. Minha mãe, lógico, não gostava, mas acabou comprando papel para eu desenhar.

Quando o senhor começou a trabalhar em jornal e a publicar charges?
O primeiro jornal que colaborei foi a Folha de São Bernardo, no fim da década de 1960, precisamente 1969. Os temas de charges eram o milésimo gol do Pelé, ida do homem à Lua e Eliminatória da Copa do Mundo. Esses eram os assuntos da época. Em paralelo fazia charges para o jornal O Dia, do Rio de Janeiro, que tinha uma sucursal aqui em Santo André. Logo depois desenhei para a TV Tupi e acabei fazendo um curso de teatro. Trabalhei com a Dercy Gonçalves e fiz algumas pontas em novelas. Nessa fase me interessei pela Barbara Bruno, filha do Paulo Goulart, que me apresentou o Claudio Correia e Castro, que dava aulas de teatro, mas o meu negócio era desenho e logo comecei a trabalhar no Diário. E graças ao trabalho no Diário e também na região ganhei o título de cidadão são-bernardense.

Quando se deu o início no Diário e o primeiro trabalho no jornal?
Comecei no Diário em 1981, quando o Santo André foi campeão da Série A-2 e subiu para a Primeira Divisão do Campeonato Paulista. O primeiro trabalho no Diário foi um pôster do time do Santo André. Em minha opinião é o melhor time da história do clube. Nesse time, por exemplo, tinha o Tonho, goleiro que jogou no Palmeiras; o Lance, que jogou no Corinthians e que ainda mora em Santo André; o lateral Zé Carlos, que jogou no Santos; e tinha também o Arnaldo, entre outros.

Como era fazer charge ainda no período da ditadura, das greves e dos movimentos para eleições diretas, em 1983?
Era muito difícil. Havia a censura. Para nós, do Diário, não havia tanta pressão, por ser um jornal regional, mas para outros chargistas, como o Henfil, o Laerte, o Glauco, a perseguição era muito grande, eles tinham o trabalho bastante tolhido. No caso do Henfil, por exemplo, por conta do jornal O Pasquim, chegaram a queimar bancas de jornais. No meu caso, particularmente, teve até o contrário. O ministro da Economia, Delfim Netto, pediu uma charge que eu havia feito. Ele colecionava e enquadrava as charges. O presidente João Baptista Figueiredo não gostava das caricaturas que ilustravam as charges, reclamava das orelhas pontudas, para cima. Mas eu acho as do Lula piores, são para baixo, caídas (risos).

Havia oposição do Diário às charges?
O Diário não fazia muita oposição. A briga era mais regional, em cima da política da região, e na época a minha vítima era o prefeito de Santo André Lincon Grillo. Sofri muita pressão, mas nenhum processo. Depois, quando saí do Diário e fui fazer assessoria de comunicação para o William Dib, que fazia oposição ao Luiz Marinho, ganhei o título de cidadão são-bernardense. Fui totalmente tolhido, porque todas as charges que eu fazia eram de oposição ao Marinho, porém, não sofri nenhuma ameaça, mas me senti perseguido por ele.

O senhor ilustrou muitas reportagens de esportes, principalmente futebol, que é uma de suas paixões. Fale um pouco sobre o Ramalhão. E também sobre o Diarinho.
Logo depois que cheguei (ao Diário) o Binho tinha saído e a Solange Dotto, editora do Diarinho, pediu para eu ilustrar o suplemento infantil. Nessa época, o diretor Fausto Polesi me disse que fazia tempo que estava querendo publicar charge no jornal. E foi criado o espaço da charge. Fui o primeiro chargista a publicar uma charge no Diário, em 1982. Antes de mim tinha o Binho e o Mastrotti, mas não faziam charge.

O trabalho se expandiu...
E deu tão certo que abriu o leque para outras editorias. Por exemplo, comecei a fazer charge também para o caderno de Esportes, e nesse espaço criei um personagem para as charges esportivas. A cidade de Santo André estava vibrando com o time na Primeira Divisão e batizei o personagem que eu usava nas charges de ‘Ramalhão’, em homenagem a uma torcida uniformizada que tinha esse nome. Achei interessante o nome que representava o fundador da cidade, João Ramalho. O diretor do Santo André, o Turcão, entrou em contato com o jornal e pediu para que o boneco do Ramalhão que eu usava nas charges passasse a ser a mascote do time. E assim foi feito. O volume de trabalho aumentou e a equipe de ilustradores cresceu. Fernandes estava chegando. Tinha também o Adelmo, o Pathé, o Affonso e outros colaboradores, como o Pestana e Luiz Gustavo. Assim, outras páginas, como a de polícia, também eram ilustradas com charge. Era início de 1983. Havia um personagem chamado ‘Ramalhinho’ e vários desenhistas também usaram esse personagem, que denunciava os buracos, matos e lixos das sete cidades da região.

Conte-nos sobre um momento marcante do esporte em geral no Grande ABC que o senhor vivenciou no Diário e tomou parte.
Acompanhei de perto a conquista do Aurélio Miguel, atleta de São Caetano, que foi o único ouro em Seul, em 1988. Conheci o judoca medalhista pessoalmente, logo depois da conquista, e criei para ele um personagem chamado ‘Aurelinho’, só não foi publicado devido a uma briga do Aurélio com o Joaquim Mamede, presidente da Confederação Brasileira de Judô, que proibiu o projeto, que envolvia a entidade.

Como era trabalhar em preto e branco, lidar com isso, em época em que não havia computador e o desenhos eram totalmente artesanais, letra set, corretivos, PMT (Processo Mecânico de Transformação)? Como foi a transição para o colorido e para o mundo digital?.
Fiz muitas charges em preto e branco. Apenas o Diarinho era colorido, as cores eram chapadas e quem fazia as marcações de cores era a Márcia Voltollini, em papel vegetal (transparente) colado sobre o desenho. Era totalmente artesanal, dava muito trabalho, principalmente pôsteres de time de futebol. O time era campeão em um dia e no outro tinha que sair. Imagina desenhar os escudos um a um! Hoje, com o Photoshop, você desenha um e o resto é ‘ctrl C’, ‘ctrl V’. Quando foi implantado o computador, me apavorei. Achei que não ia me adaptar nunca com aquilo. Antes não tinha nem como arquivar referências. Na época a gente colava as letras (PMTs). Era um demônio! Às vezes a gente perdia a frase e quando estava em casa e ia tomar banho a frase estava ali, colada no braço (risos). O primeiro contato com o mundo digital foi quando cheguei de férias. Estava no Recife e, quando voltei e pisei na Redação, assustei com o silêncio, não havia mais aquele barulho do tec-tec das máquinas de escrever. Era silêncio total! Fiquei confuso, não sabia o que estava acontecendo.

O Diário sempre contou com grandes profissionais – o senhor, inclusive – em todas as áreas, sempre ganhando prêmios de jornalismo, fotografia, desenhos. E, modéstia à parte, temos o melhor suplemento infantil do Brasil, que é dirigido ao futuro leitor. Vendo por esse ângulo, o que o senhor acha do futuro do jornal impresso? Só os fortes sobreviverão?
O Diário sempre teve grandes profissionais. Cito alguns com os quais tive a honra de trabalhar nos dez anos em que fiquei no Diário, praticamente toda a década de 1980, na qual entrei no início e saí no fim. Artistas, fotógrafos, redatores. Entre o redatores, José Marqueiz, Reinaldo Azevedo, Teresa Monteiro, a Valdir, Ademir Medici, Edison Motta – que ganhou o Prêmio Esso juntamente com o Ademir –, fotógrafos, como o saudoso Paulão – Branca de Neve –, Colovatti, Nário, que estava começando e está até hoje no jornal, Ricardo Hernandes e outros. Quanto ao futuro, tudo tem sua época, como teve a era do rádio, dos discos de vinil. O jornal vai ser um artigo de luxo-retrô. Ouvi muito esse negócio de se reinventar. Falava-se que o rádio tinha que se reinventar, a televisão tinha que se reinventar com a entrada da TV a cabo... e estão aí se reinventando. A charge estática também, com essas evoluções da nova mídia, a multi-mídia, precisa mudar. Eu, por exemplo, ainda não sei trabalhar com charge animada. Todo mundo, em todos os setores, têm de se reinventar. Se você ficar parado, em uma zona de conforto, é atropelado pelo que vem atrás. Tem que correr, porque sempre aparece coisa nova e quando você aprende já esta obsoleto.

Durante todos esses anos trabalhando na região o senhor sentiu-se valorizado?
Sim! Até me assustava um pouco com esse tipo de coisa. Não achava meu trabalho tão importante, uma coisa simples. Depois, com o tempo, percebi que meu trabalho era valorizado e comecei a ser convidado para participar de exposições, palestras, entrevistas. Uma coisa da qual me orgulho é o fato de ser criador de várias mascotes da região: o Ramalhão, do Santo André; o Tigre, do São Bernardo Futebol Clube; o Cachorrão, do Esporte Clube São Bernardo; e o Imperador, do Clube Atlético Diadema.

Conte-nos um caso engraçado, daqueles que depois que passa a gente ri, mas que na época é terrível, tipo erro de gravação.
Lembro-me de uma foto enorme de Primeira Página. Era um congestionamento grande na Via Anchieta, com vários carros. Uma confusão. Depois de publicada, olhando atentamente, percebe-se um homem urinando na roda de um carro, que ninguém notou antes de publicar. Isso ficou estampado na capa.

O senhor ainda faz charge?
Sim. As charges hoje, digo neste ano, se voltam mais para a Copa do Mundo e faço mais esportes que política. E também, como é ano de eleição, faço muitos personagens de candidatos para as suas campanhas. Tem uma coisa interessante até agora, todos os personagens de candidatos que fiz ganharam a eleição. Tem o Orlando Morando (prefeito de São Bernardo), o doutor (William) Dib (eleito em 2004), o Gabriel Maranhão (de Rio Grande da Serra) e o Adler Kiko (Teixeira – Ribeirão Pires). Estou invicto.

Juarez Corrêa e o Diário

Juarez teve o primeiro contato com o Diário em 1981, convidado para produzir o pôster do Santo André – para ele, “o melhor time da história” –, que comemorava o acesso à Primeira Divisão do Campeonato Paulista. Logo depois Juarez passou a ilustrar o Diarinho, suplemento infantil do jornal, e a desenhar para outros cadernos. A convite de Fausto Polesi (1930-2011), um dos fundadores do Diário, Juarez foi o autor da primeira charge publicada na história do jornal, em 1982. “E deu tão certo que abriu leque para outras editorias. O volume de trabalho aumentou e a equipe de ilustradores cresceu.” 



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‘Se você ficar parado é atropelado’

Luiz Carlos Fernandes
Do Diário do Grande ABC

17/04/2018 | 07:00


Juarez Corrêa, ou só Juarez, 64 anos, nasceu em São Paulo, mas adotou o Grande ABC desde muito cedo, em 1960. Torcedor do Santos e apaixonado por futebol, o premiado chargista – que teve o primeiro trabalho publicado em 1969, aos 14 anos, e o primeiro prêmio ainda quando criança – é o criador das mascotes Ramalhão, do Santo André; Tigre, do São Bernardo Futebol Clube; Cachorrão, do Esporte Clube São Bernardo; e o Imperador, do Clube Atlético Diadema. É dele também a autoria do Aurelinho, em homenagem ao judoca Aurélio Miguel, então atleta que defendia São Caetano, medalha de ouro na Olimpíada de Seul, em 1988.

O senhor, além de torcedor do Santos, é fã do Santo André. Onde nasceu? E quando publicou o primeiro trabalho?
Sou paulista de fato e mineiro de direito. Nasci em São Paulo. Na identidade está Belo Horizonte. Quando nasci, minha família estava de mudança. Nasci em São Paulo e fui registrado em Minas, fiquei lá até os 6 anos, passei primeira infância em Minas Gerais. Em 1960, meus pais vieram para o Rudge Ramos (São Bernardo), depois mudaram para Santo André, e depois fui trabalhar em Londrina, na Folha de Londrina. O primeiro trabalho que publiquei tinha 14 ou 15 anos.

Sempre gostou de desenhar?
Ganhei dois prêmios de desenho quando era criança, o primeiro foi de um cartaz sobre alimentação e outro foi do Salão da Criança no Ibirapuera (Capital). Nesse eu tinha meia hora para fazer um desenho sobre qualquer coisa, o tema era livre. Na sala havia um quadro do Monteiro Lobato que me inspirou, acabei fazendo o Lobato e ganhei o concurso. Lembro que nessa época, quando era criança, cheguei a desenhar no lençol (Risos). Queria assistir a Bonanza, antiga série de TV sobre uma família de caubói, que passava tarde da noite. Meus filmes prediletos sempre foram de faroeste. Porém, minha mãe me obrigava a ir para a cama cedo e não me deixava assistir. Sem sono, eu desenhava no lençol para passar o tempo. Minha mãe, lógico, não gostava, mas acabou comprando papel para eu desenhar.

Quando o senhor começou a trabalhar em jornal e a publicar charges?
O primeiro jornal que colaborei foi a Folha de São Bernardo, no fim da década de 1960, precisamente 1969. Os temas de charges eram o milésimo gol do Pelé, ida do homem à Lua e Eliminatória da Copa do Mundo. Esses eram os assuntos da época. Em paralelo fazia charges para o jornal O Dia, do Rio de Janeiro, que tinha uma sucursal aqui em Santo André. Logo depois desenhei para a TV Tupi e acabei fazendo um curso de teatro. Trabalhei com a Dercy Gonçalves e fiz algumas pontas em novelas. Nessa fase me interessei pela Barbara Bruno, filha do Paulo Goulart, que me apresentou o Claudio Correia e Castro, que dava aulas de teatro, mas o meu negócio era desenho e logo comecei a trabalhar no Diário. E graças ao trabalho no Diário e também na região ganhei o título de cidadão são-bernardense.

Quando se deu o início no Diário e o primeiro trabalho no jornal?
Comecei no Diário em 1981, quando o Santo André foi campeão da Série A-2 e subiu para a Primeira Divisão do Campeonato Paulista. O primeiro trabalho no Diário foi um pôster do time do Santo André. Em minha opinião é o melhor time da história do clube. Nesse time, por exemplo, tinha o Tonho, goleiro que jogou no Palmeiras; o Lance, que jogou no Corinthians e que ainda mora em Santo André; o lateral Zé Carlos, que jogou no Santos; e tinha também o Arnaldo, entre outros.

Como era fazer charge ainda no período da ditadura, das greves e dos movimentos para eleições diretas, em 1983?
Era muito difícil. Havia a censura. Para nós, do Diário, não havia tanta pressão, por ser um jornal regional, mas para outros chargistas, como o Henfil, o Laerte, o Glauco, a perseguição era muito grande, eles tinham o trabalho bastante tolhido. No caso do Henfil, por exemplo, por conta do jornal O Pasquim, chegaram a queimar bancas de jornais. No meu caso, particularmente, teve até o contrário. O ministro da Economia, Delfim Netto, pediu uma charge que eu havia feito. Ele colecionava e enquadrava as charges. O presidente João Baptista Figueiredo não gostava das caricaturas que ilustravam as charges, reclamava das orelhas pontudas, para cima. Mas eu acho as do Lula piores, são para baixo, caídas (risos).

Havia oposição do Diário às charges?
O Diário não fazia muita oposição. A briga era mais regional, em cima da política da região, e na época a minha vítima era o prefeito de Santo André Lincon Grillo. Sofri muita pressão, mas nenhum processo. Depois, quando saí do Diário e fui fazer assessoria de comunicação para o William Dib, que fazia oposição ao Luiz Marinho, ganhei o título de cidadão são-bernardense. Fui totalmente tolhido, porque todas as charges que eu fazia eram de oposição ao Marinho, porém, não sofri nenhuma ameaça, mas me senti perseguido por ele.

O senhor ilustrou muitas reportagens de esportes, principalmente futebol, que é uma de suas paixões. Fale um pouco sobre o Ramalhão. E também sobre o Diarinho.
Logo depois que cheguei (ao Diário) o Binho tinha saído e a Solange Dotto, editora do Diarinho, pediu para eu ilustrar o suplemento infantil. Nessa época, o diretor Fausto Polesi me disse que fazia tempo que estava querendo publicar charge no jornal. E foi criado o espaço da charge. Fui o primeiro chargista a publicar uma charge no Diário, em 1982. Antes de mim tinha o Binho e o Mastrotti, mas não faziam charge.

O trabalho se expandiu...
E deu tão certo que abriu o leque para outras editorias. Por exemplo, comecei a fazer charge também para o caderno de Esportes, e nesse espaço criei um personagem para as charges esportivas. A cidade de Santo André estava vibrando com o time na Primeira Divisão e batizei o personagem que eu usava nas charges de ‘Ramalhão’, em homenagem a uma torcida uniformizada que tinha esse nome. Achei interessante o nome que representava o fundador da cidade, João Ramalho. O diretor do Santo André, o Turcão, entrou em contato com o jornal e pediu para que o boneco do Ramalhão que eu usava nas charges passasse a ser a mascote do time. E assim foi feito. O volume de trabalho aumentou e a equipe de ilustradores cresceu. Fernandes estava chegando. Tinha também o Adelmo, o Pathé, o Affonso e outros colaboradores, como o Pestana e Luiz Gustavo. Assim, outras páginas, como a de polícia, também eram ilustradas com charge. Era início de 1983. Havia um personagem chamado ‘Ramalhinho’ e vários desenhistas também usaram esse personagem, que denunciava os buracos, matos e lixos das sete cidades da região.

Conte-nos sobre um momento marcante do esporte em geral no Grande ABC que o senhor vivenciou no Diário e tomou parte.
Acompanhei de perto a conquista do Aurélio Miguel, atleta de São Caetano, que foi o único ouro em Seul, em 1988. Conheci o judoca medalhista pessoalmente, logo depois da conquista, e criei para ele um personagem chamado ‘Aurelinho’, só não foi publicado devido a uma briga do Aurélio com o Joaquim Mamede, presidente da Confederação Brasileira de Judô, que proibiu o projeto, que envolvia a entidade.

Como era trabalhar em preto e branco, lidar com isso, em época em que não havia computador e o desenhos eram totalmente artesanais, letra set, corretivos, PMT (Processo Mecânico de Transformação)? Como foi a transição para o colorido e para o mundo digital?.
Fiz muitas charges em preto e branco. Apenas o Diarinho era colorido, as cores eram chapadas e quem fazia as marcações de cores era a Márcia Voltollini, em papel vegetal (transparente) colado sobre o desenho. Era totalmente artesanal, dava muito trabalho, principalmente pôsteres de time de futebol. O time era campeão em um dia e no outro tinha que sair. Imagina desenhar os escudos um a um! Hoje, com o Photoshop, você desenha um e o resto é ‘ctrl C’, ‘ctrl V’. Quando foi implantado o computador, me apavorei. Achei que não ia me adaptar nunca com aquilo. Antes não tinha nem como arquivar referências. Na época a gente colava as letras (PMTs). Era um demônio! Às vezes a gente perdia a frase e quando estava em casa e ia tomar banho a frase estava ali, colada no braço (risos). O primeiro contato com o mundo digital foi quando cheguei de férias. Estava no Recife e, quando voltei e pisei na Redação, assustei com o silêncio, não havia mais aquele barulho do tec-tec das máquinas de escrever. Era silêncio total! Fiquei confuso, não sabia o que estava acontecendo.

O Diário sempre contou com grandes profissionais – o senhor, inclusive – em todas as áreas, sempre ganhando prêmios de jornalismo, fotografia, desenhos. E, modéstia à parte, temos o melhor suplemento infantil do Brasil, que é dirigido ao futuro leitor. Vendo por esse ângulo, o que o senhor acha do futuro do jornal impresso? Só os fortes sobreviverão?
O Diário sempre teve grandes profissionais. Cito alguns com os quais tive a honra de trabalhar nos dez anos em que fiquei no Diário, praticamente toda a década de 1980, na qual entrei no início e saí no fim. Artistas, fotógrafos, redatores. Entre o redatores, José Marqueiz, Reinaldo Azevedo, Teresa Monteiro, a Valdir, Ademir Medici, Edison Motta – que ganhou o Prêmio Esso juntamente com o Ademir –, fotógrafos, como o saudoso Paulão – Branca de Neve –, Colovatti, Nário, que estava começando e está até hoje no jornal, Ricardo Hernandes e outros. Quanto ao futuro, tudo tem sua época, como teve a era do rádio, dos discos de vinil. O jornal vai ser um artigo de luxo-retrô. Ouvi muito esse negócio de se reinventar. Falava-se que o rádio tinha que se reinventar, a televisão tinha que se reinventar com a entrada da TV a cabo... e estão aí se reinventando. A charge estática também, com essas evoluções da nova mídia, a multi-mídia, precisa mudar. Eu, por exemplo, ainda não sei trabalhar com charge animada. Todo mundo, em todos os setores, têm de se reinventar. Se você ficar parado, em uma zona de conforto, é atropelado pelo que vem atrás. Tem que correr, porque sempre aparece coisa nova e quando você aprende já esta obsoleto.

Durante todos esses anos trabalhando na região o senhor sentiu-se valorizado?
Sim! Até me assustava um pouco com esse tipo de coisa. Não achava meu trabalho tão importante, uma coisa simples. Depois, com o tempo, percebi que meu trabalho era valorizado e comecei a ser convidado para participar de exposições, palestras, entrevistas. Uma coisa da qual me orgulho é o fato de ser criador de várias mascotes da região: o Ramalhão, do Santo André; o Tigre, do São Bernardo Futebol Clube; o Cachorrão, do Esporte Clube São Bernardo; e o Imperador, do Clube Atlético Diadema.

Conte-nos um caso engraçado, daqueles que depois que passa a gente ri, mas que na época é terrível, tipo erro de gravação.
Lembro-me de uma foto enorme de Primeira Página. Era um congestionamento grande na Via Anchieta, com vários carros. Uma confusão. Depois de publicada, olhando atentamente, percebe-se um homem urinando na roda de um carro, que ninguém notou antes de publicar. Isso ficou estampado na capa.

O senhor ainda faz charge?
Sim. As charges hoje, digo neste ano, se voltam mais para a Copa do Mundo e faço mais esportes que política. E também, como é ano de eleição, faço muitos personagens de candidatos para as suas campanhas. Tem uma coisa interessante até agora, todos os personagens de candidatos que fiz ganharam a eleição. Tem o Orlando Morando (prefeito de São Bernardo), o doutor (William) Dib (eleito em 2004), o Gabriel Maranhão (de Rio Grande da Serra) e o Adler Kiko (Teixeira – Ribeirão Pires). Estou invicto.

Juarez Corrêa e o Diário

Juarez teve o primeiro contato com o Diário em 1981, convidado para produzir o pôster do Santo André – para ele, “o melhor time da história” –, que comemorava o acesso à Primeira Divisão do Campeonato Paulista. Logo depois Juarez passou a ilustrar o Diarinho, suplemento infantil do jornal, e a desenhar para outros cadernos. A convite de Fausto Polesi (1930-2011), um dos fundadores do Diário, Juarez foi o autor da primeira charge publicada na história do jornal, em 1982. “E deu tão certo que abriu leque para outras editorias. O volume de trabalho aumentou e a equipe de ilustradores cresceu.” 

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