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‘Ainda somos invisíveis aos olhos de muitos'

Denis Maciel/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Entrevista com Marcelo Gil, militante do movimento LGBT


Daniel Macário
Do Diário do Grande ABC

25/03/2018 | 07:00


Prestes a completar 50 anos, Marcelo Gil vê com orgulho sua luta pela mobilização da população sobre as questões de cidadania e direitos humanos do movimento LGBT. Embora reconheça, de modo geral, os avanços conquistados ao longo dos últimos anos, ele faz questão de criticar a falta de políticas públicas voltadas à classe. “Estamos hoje assistindo cenário de incompetência em todas as prefeituras do Grande ABC”. Tal fato é justificado aos constantes casos de homofobia na região que, segundo ele, podem ter fim com a conscientização por parte da população. “O Diário já nos ajudou muito a fortalecer o recado da igualdade e continua a fazer isso”.


O senhor é reconhecido regionalmente pelo seu trabalho à frente da ONG ABCD''''''''s, que tem como foco a mobilização da população sobre as questões de cidadania e direitos humanos do movimento LGBT. Como surgiu a ideia deste trabalho?

A ideia nasceu exatamente no ano de 2003, na minha formação na Faculdade de Teologia e Filosofia pela Diocese de Santo André. Foi um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) que virou realidade, na verdade, com o foco direcionado na comunidade eclesial de base, teologia da libertação, movimentos sociais e sindicatos. Naquele período me aproximei dos atos que ocorriam diretamente e indiretamente com a população da qual eu fazia parte, que ainda era chamada, à época, de grupo GLS. Me deparei com uma realidade de preconceito que inclusive eu mesmo sofria, mas ainda em silêncio, dentro do meu próprio lar, trabalho e escola. Em 2004, comecei a fazer amizades com pessoas com história semelhante à minha. Naquele mesmo ano formamos um grupo de jovens gays, lésbicas, bissexuais, travestis de várias idades do Grande ABC. Foram realizadas diversas reuniões até formarmos uma ONG em defesa da nossa população. Foi aí que surgiu a ONG ABCD''''''''s (Ação Brotar Pela Cidadania e Diversidade Sexual). Acredito e posso afirmar ser linda a minha formação de ativista e militância a uma causa com determinação e luta ao próximo.

Naquela época, você se recorda como era a cobertura do Diário em relação à divulgação de casos de homofobia?

A primeira matéria do Diário que temos registrada foi no dia 13 de novembro de 2004. Ela tratava do assassinato do estudante Rodrigo Monteiro Sakavicius, 23 anos, morto por intolerância em Paranapiacaba, em 29 de agosto daquele ano. Segundo informações da polícia, o rapaz foi assassinado por dois falsos guias turísticos porque era homossexual. Os autores, Robson Gonçalves da Silva, 22, e Fabiano Maia Eleno, 21, confessaram em depoimento que não suportaram o jeito afeminado de Sakavicius e por isso o mataram. Em entrevista ao Diário, Silva chegou a confessar a autoria do crime e a motivação. Foi inclusive o motivo de nossa primeira manifestação pela ONG em frente à Câmara Municipal de Santo André. Me recordo também das denúncias feitas pelo Diário de que gays eram espancados pela GCM (Guarda Civil Municipal) de Santo André. A reportagem fez nascer na cidade uma comissão de direitos humanos direcionada à população LGBT. Houve ainda outras denúncias de casos semelhantes.

E a primeira reportagem produzida pelo Diário com você. Quando ocorreu?

Foi na realização da primeira Parada LGBT de Santo André e do Grande ABC. Lembro que a entrevista, feita em meados de abril de 2005, foi realizada na Praça São João Batista, no Rudge Ramos. Me recordo nitidamente da foto que ao fundo aparecia a imagem da Igreja São João Batista. A reportagem fortaleceu o recado de que a igualdade prevalece em nossa região.

Desde então, você vê avanços no que diz respeito à conquista de direitos à população LGBT?

A maior vitória, que na maioria das vezes enche meus olhos de lágrimas, é poder presenciar casais de homossexuais em shoppings, no Parque Prefeito Celso Daniel, em Santo André. No meu íntimo sempre penso se eles sabem quantos de nós foram espancados, quantos perderam até a vida, quantos foram expulsos de casa para que casais homossexuais pudessem andar de mãos dadas hoje em parques e shoppings. Podemos comemorar todos nós, do Grande ABC, pela presença da Defensoria Pública, pelas conferências realizadas pelo órgão, onde todos nós, da população LGBT, temos atendimento, orientação e encaminhamentos em todos os aspectos. Outro grande avanço é que temos a implantação da comissão da OAB de Diversidade, em Santo André, coordenada pela Heleni de Paiva. Este avanço se estende para as cidades de São Bernardo e Diadema, na qual temos informações da comissão da OAB da Diversidade. Além disso, temos uma Parada do Orgulho LGBT na Avenida Dom Pedro II, em Santo André. O triste é ainda saber que empresários em geral ainda não sabem investir neste público.

Na sua avaliação, falta empenho de prefeitos para a criação e visibilidade de políticas públicas voltadas ao público LGBT?

Acredito ser falta de conhecimento. Na verdade os prefeitos são gestores, eles, em sua formação, acabam colocando secretários sem no mínimo uma base de conhecimento. Em sua grande maioria nem sabem ou conhecem o significado do termo LGBT. Já estive em reuniões com secretário onde tive que ouvir termos GLS, GLBT ou até mesmo homossexualismo, algo que é de doer na alma de tamanho erro, pois é uma palavra não usada há anos. Estamos hoje assistindo o cenário de incompetência em todas as prefeituras do Grande ABC. Para responder essa pergunta nem precisamos ir muito longe. Fica a pergunta: ‘Qual das prefeituras da região realizou atividades no Dia da Visibilidade Trans? No momento somente Santo André, as demais ainda estão presas, como o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, no estigma do machismo.

Há anos a ONG luta para a criação de uma coordenadoria LGBT no Grande ABC. Atualmente, como está essa discussão? Houve avanços?

Essa é uma luta que parece o filme de uma história sem fim. Acredito que no mínimo uma das prefeituras do Grande ABC deveria ter uma assessoria ou coordenadoria LGBT, composta por pessoas do movimento. Porém, essa discussão, pelo que vejo, está longe de sair do papel. No ano passado tivemos uma reunião com duas prefeituras do Grande ABC, sobre a importância da aplicação da Coordenadoria LGBT. Em ambos os casos, ouvimos que não constava registrado em cartório a proposta, por fim, aprendemos que nos próximos planos de governo de todas as prefeituras iremos primeiramente registrar em cartório nossas solicitações.

Ainda são recorrentes os casos de homofobias na região. O que pode ser feito para diminuir esses indicadores?

Sim, os casos de homofobia têm dados interessantes em seu mapeamento na região. Cada cidade tem uma característica de ocorrências. Em Santo André, persiste os casos de homofobia, a maioria em âmbito familiar, seguido por ambiente profissional, assédios, perseguição e nitidamente o preconceito. São Bernardo, por sua vez, os casos de transfobia contra travestis, mulheres transexuais e homens trans chamam atenção. Desde 2012, os casos de assassinatos de travestis é algo forte e que nos incomoda. A Polícia Civil diz que investiga para entender a situação e até hoje ninguém foi preso. Para reverter este quadro precisamos justamente da aplicação e execução de políticas públicas LGBT, campanhas, além de cursos profissionalizantes e palestras para pessoas do movimento.

Atualmente, municípios do Grande ABC não contam com delegacia especializada em crimes contra a população LGBT. Você vê uma solução para reverter esse cenário a curto prazo?

Uma luta nossa é para a implantação de uma unidade da Decredi (Delegacia de Crimes Raciais e Intolerância) na região. A solução seria mesmo continuar cobrando essa medida. Na verdade estamos em um quadro de UTI com os aparelhos quase sendo totalmente desligados sobre a realização de políticas públicas voltadas à população LGBT. Aqui se estabeleceu um forte retrocesso até de implantação. Para reverter esse quadro, a solução a curto prazo depende de ações de cada prefeitura com foco de sensibilizar, humanizar os gestores públicos. O nosso maior desafio é saber se eles querem ser humanizados.

O senhor acredita que ter um representante LGBT dentro da Câmara poderia reverter este cenário?

Acredito que pode ser um forte diferencial ter um vereador ou vereadora, primeiramente por ser uma quebra de paradigmas, estar neste espaço e representar a população LGBT. Agora, temos de entender que é necessário ainda ter atenção a qual partido ele ou ela possa ser eleito. Pois é importante que este partido tenha um estatuto no qual conste apoio à diversidade, apoio à execução de políticas públicas LGBT. É importante lembrar que temos um fato histórico na região, que foi a eleição da vereadora Heleni de Paiva, em Santo André, uma mulher heterossexual que naquela época tinha em seu histórico a cooperação e atenção à população trans, onde fez e ajudou a nascer o primeiro movimento trans do Brasil, a Tulipa.

O casamento gay no Brasil completará 5 anos de regulamentação em maio. Houve avanços neste sentido no Grande ABC?

Sim, temos muitos avanços. Houve um forte aumento em casamento, adoção, compra de imóveis pela própria população LGBT. Conheço vários casais bem sucedidos, como também vários casais que preferem viver, por opção, neutros em qualquer diálogo sobre os direitos da população LGBT.

Na sua opinião, o que mais o Diário poderia fazer para fortalecer essa mobilização pelos direitos da população LGBT?

Acredito que o Diário poderia fazer uma pesquisa direcionada para cada prefeitura do Grande ABC para saber como cada prefeito vê, enxerga e, principalmente, executa políticas públicas direcionadas à população LGBT. Saber qual a característica das pessoas desse movimento. Quantos cargos eles exercem em suas administrações. Onde estão trabalhando as travestis, mulheres transexuais e homens trans. Além disso, uma grande ação seria ver o Diário ajudar na divulgação da Parada do Orgulho LGBT de Santo André. Seria uma forte parceria levar o avanço da nossa visibilidade para muitos gestores e empresários. Ainda somos invisíveis aos olhos de muitos. Como sempre digo e repito, o maior feito está na música da nossa cantora, e diva, Gloria Gaynor, a I Will Surviver, que na tradução significa ‘Eu vou vencer’. Seja o governo que vier, seja qual Polícia Militar que viver, seja quem for, nós sobreviveremos. O projeto da população LGBT jamais vai parar.

Se pudesse realizar qualquer feito no Grande ABC, qual seria?

Seria ter hoje o reconhecimento de poder executar políticas públicas para a população LGBT, deixar as portas abertas e ver nascer o centro de referência de direitos humanos da população LGBT, para atender todos e todas de nossa região com igualdade.

Marcelo Gil e o Diário
Natural de São Caetano, Marcelo Gil tem sua história enraizada no Grande ABC. Foi aqui na região, em 2004, que ele deu o pontapé inicial ao seu trabalho de luta a favor dos direitos humanos da população LGBT. De lá para cá, foi protagonista de diversas conquistas do movimento, algumas, inclusive, com apoio do Diário. “Me recordo de denúncias feitas pelo Diário de que gays eram espancados pela GCM (Guarda Civil Municipal) de Santo André. A reportagem fez nascer na cidade uma comissão de direitos humanos direcionada à população LGBT”.



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‘Ainda somos invisíveis aos olhos de muitos'

Entrevista com Marcelo Gil, militante do movimento LGBT

Daniel Macário
Do Diário do Grande ABC

25/03/2018 | 07:00


Prestes a completar 50 anos, Marcelo Gil vê com orgulho sua luta pela mobilização da população sobre as questões de cidadania e direitos humanos do movimento LGBT. Embora reconheça, de modo geral, os avanços conquistados ao longo dos últimos anos, ele faz questão de criticar a falta de políticas públicas voltadas à classe. “Estamos hoje assistindo cenário de incompetência em todas as prefeituras do Grande ABC”. Tal fato é justificado aos constantes casos de homofobia na região que, segundo ele, podem ter fim com a conscientização por parte da população. “O Diário já nos ajudou muito a fortalecer o recado da igualdade e continua a fazer isso”.


O senhor é reconhecido regionalmente pelo seu trabalho à frente da ONG ABCD''''''''s, que tem como foco a mobilização da população sobre as questões de cidadania e direitos humanos do movimento LGBT. Como surgiu a ideia deste trabalho?

A ideia nasceu exatamente no ano de 2003, na minha formação na Faculdade de Teologia e Filosofia pela Diocese de Santo André. Foi um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) que virou realidade, na verdade, com o foco direcionado na comunidade eclesial de base, teologia da libertação, movimentos sociais e sindicatos. Naquele período me aproximei dos atos que ocorriam diretamente e indiretamente com a população da qual eu fazia parte, que ainda era chamada, à época, de grupo GLS. Me deparei com uma realidade de preconceito que inclusive eu mesmo sofria, mas ainda em silêncio, dentro do meu próprio lar, trabalho e escola. Em 2004, comecei a fazer amizades com pessoas com história semelhante à minha. Naquele mesmo ano formamos um grupo de jovens gays, lésbicas, bissexuais, travestis de várias idades do Grande ABC. Foram realizadas diversas reuniões até formarmos uma ONG em defesa da nossa população. Foi aí que surgiu a ONG ABCD''''''''s (Ação Brotar Pela Cidadania e Diversidade Sexual). Acredito e posso afirmar ser linda a minha formação de ativista e militância a uma causa com determinação e luta ao próximo.

Naquela época, você se recorda como era a cobertura do Diário em relação à divulgação de casos de homofobia?

A primeira matéria do Diário que temos registrada foi no dia 13 de novembro de 2004. Ela tratava do assassinato do estudante Rodrigo Monteiro Sakavicius, 23 anos, morto por intolerância em Paranapiacaba, em 29 de agosto daquele ano. Segundo informações da polícia, o rapaz foi assassinado por dois falsos guias turísticos porque era homossexual. Os autores, Robson Gonçalves da Silva, 22, e Fabiano Maia Eleno, 21, confessaram em depoimento que não suportaram o jeito afeminado de Sakavicius e por isso o mataram. Em entrevista ao Diário, Silva chegou a confessar a autoria do crime e a motivação. Foi inclusive o motivo de nossa primeira manifestação pela ONG em frente à Câmara Municipal de Santo André. Me recordo também das denúncias feitas pelo Diário de que gays eram espancados pela GCM (Guarda Civil Municipal) de Santo André. A reportagem fez nascer na cidade uma comissão de direitos humanos direcionada à população LGBT. Houve ainda outras denúncias de casos semelhantes.

E a primeira reportagem produzida pelo Diário com você. Quando ocorreu?

Foi na realização da primeira Parada LGBT de Santo André e do Grande ABC. Lembro que a entrevista, feita em meados de abril de 2005, foi realizada na Praça São João Batista, no Rudge Ramos. Me recordo nitidamente da foto que ao fundo aparecia a imagem da Igreja São João Batista. A reportagem fortaleceu o recado de que a igualdade prevalece em nossa região.

Desde então, você vê avanços no que diz respeito à conquista de direitos à população LGBT?

A maior vitória, que na maioria das vezes enche meus olhos de lágrimas, é poder presenciar casais de homossexuais em shoppings, no Parque Prefeito Celso Daniel, em Santo André. No meu íntimo sempre penso se eles sabem quantos de nós foram espancados, quantos perderam até a vida, quantos foram expulsos de casa para que casais homossexuais pudessem andar de mãos dadas hoje em parques e shoppings. Podemos comemorar todos nós, do Grande ABC, pela presença da Defensoria Pública, pelas conferências realizadas pelo órgão, onde todos nós, da população LGBT, temos atendimento, orientação e encaminhamentos em todos os aspectos. Outro grande avanço é que temos a implantação da comissão da OAB de Diversidade, em Santo André, coordenada pela Heleni de Paiva. Este avanço se estende para as cidades de São Bernardo e Diadema, na qual temos informações da comissão da OAB da Diversidade. Além disso, temos uma Parada do Orgulho LGBT na Avenida Dom Pedro II, em Santo André. O triste é ainda saber que empresários em geral ainda não sabem investir neste público.

Na sua avaliação, falta empenho de prefeitos para a criação e visibilidade de políticas públicas voltadas ao público LGBT?

Acredito ser falta de conhecimento. Na verdade os prefeitos são gestores, eles, em sua formação, acabam colocando secretários sem no mínimo uma base de conhecimento. Em sua grande maioria nem sabem ou conhecem o significado do termo LGBT. Já estive em reuniões com secretário onde tive que ouvir termos GLS, GLBT ou até mesmo homossexualismo, algo que é de doer na alma de tamanho erro, pois é uma palavra não usada há anos. Estamos hoje assistindo o cenário de incompetência em todas as prefeituras do Grande ABC. Para responder essa pergunta nem precisamos ir muito longe. Fica a pergunta: ‘Qual das prefeituras da região realizou atividades no Dia da Visibilidade Trans? No momento somente Santo André, as demais ainda estão presas, como o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, no estigma do machismo.

Há anos a ONG luta para a criação de uma coordenadoria LGBT no Grande ABC. Atualmente, como está essa discussão? Houve avanços?

Essa é uma luta que parece o filme de uma história sem fim. Acredito que no mínimo uma das prefeituras do Grande ABC deveria ter uma assessoria ou coordenadoria LGBT, composta por pessoas do movimento. Porém, essa discussão, pelo que vejo, está longe de sair do papel. No ano passado tivemos uma reunião com duas prefeituras do Grande ABC, sobre a importância da aplicação da Coordenadoria LGBT. Em ambos os casos, ouvimos que não constava registrado em cartório a proposta, por fim, aprendemos que nos próximos planos de governo de todas as prefeituras iremos primeiramente registrar em cartório nossas solicitações.

Ainda são recorrentes os casos de homofobias na região. O que pode ser feito para diminuir esses indicadores?

Sim, os casos de homofobia têm dados interessantes em seu mapeamento na região. Cada cidade tem uma característica de ocorrências. Em Santo André, persiste os casos de homofobia, a maioria em âmbito familiar, seguido por ambiente profissional, assédios, perseguição e nitidamente o preconceito. São Bernardo, por sua vez, os casos de transfobia contra travestis, mulheres transexuais e homens trans chamam atenção. Desde 2012, os casos de assassinatos de travestis é algo forte e que nos incomoda. A Polícia Civil diz que investiga para entender a situação e até hoje ninguém foi preso. Para reverter este quadro precisamos justamente da aplicação e execução de políticas públicas LGBT, campanhas, além de cursos profissionalizantes e palestras para pessoas do movimento.

Atualmente, municípios do Grande ABC não contam com delegacia especializada em crimes contra a população LGBT. Você vê uma solução para reverter esse cenário a curto prazo?

Uma luta nossa é para a implantação de uma unidade da Decredi (Delegacia de Crimes Raciais e Intolerância) na região. A solução seria mesmo continuar cobrando essa medida. Na verdade estamos em um quadro de UTI com os aparelhos quase sendo totalmente desligados sobre a realização de políticas públicas voltadas à população LGBT. Aqui se estabeleceu um forte retrocesso até de implantação. Para reverter esse quadro, a solução a curto prazo depende de ações de cada prefeitura com foco de sensibilizar, humanizar os gestores públicos. O nosso maior desafio é saber se eles querem ser humanizados.

O senhor acredita que ter um representante LGBT dentro da Câmara poderia reverter este cenário?

Acredito que pode ser um forte diferencial ter um vereador ou vereadora, primeiramente por ser uma quebra de paradigmas, estar neste espaço e representar a população LGBT. Agora, temos de entender que é necessário ainda ter atenção a qual partido ele ou ela possa ser eleito. Pois é importante que este partido tenha um estatuto no qual conste apoio à diversidade, apoio à execução de políticas públicas LGBT. É importante lembrar que temos um fato histórico na região, que foi a eleição da vereadora Heleni de Paiva, em Santo André, uma mulher heterossexual que naquela época tinha em seu histórico a cooperação e atenção à população trans, onde fez e ajudou a nascer o primeiro movimento trans do Brasil, a Tulipa.

O casamento gay no Brasil completará 5 anos de regulamentação em maio. Houve avanços neste sentido no Grande ABC?

Sim, temos muitos avanços. Houve um forte aumento em casamento, adoção, compra de imóveis pela própria população LGBT. Conheço vários casais bem sucedidos, como também vários casais que preferem viver, por opção, neutros em qualquer diálogo sobre os direitos da população LGBT.

Na sua opinião, o que mais o Diário poderia fazer para fortalecer essa mobilização pelos direitos da população LGBT?

Acredito que o Diário poderia fazer uma pesquisa direcionada para cada prefeitura do Grande ABC para saber como cada prefeito vê, enxerga e, principalmente, executa políticas públicas direcionadas à população LGBT. Saber qual a característica das pessoas desse movimento. Quantos cargos eles exercem em suas administrações. Onde estão trabalhando as travestis, mulheres transexuais e homens trans. Além disso, uma grande ação seria ver o Diário ajudar na divulgação da Parada do Orgulho LGBT de Santo André. Seria uma forte parceria levar o avanço da nossa visibilidade para muitos gestores e empresários. Ainda somos invisíveis aos olhos de muitos. Como sempre digo e repito, o maior feito está na música da nossa cantora, e diva, Gloria Gaynor, a I Will Surviver, que na tradução significa ‘Eu vou vencer’. Seja o governo que vier, seja qual Polícia Militar que viver, seja quem for, nós sobreviveremos. O projeto da população LGBT jamais vai parar.

Se pudesse realizar qualquer feito no Grande ABC, qual seria?

Seria ter hoje o reconhecimento de poder executar políticas públicas para a população LGBT, deixar as portas abertas e ver nascer o centro de referência de direitos humanos da população LGBT, para atender todos e todas de nossa região com igualdade.

Marcelo Gil e o Diário
Natural de São Caetano, Marcelo Gil tem sua história enraizada no Grande ABC. Foi aqui na região, em 2004, que ele deu o pontapé inicial ao seu trabalho de luta a favor dos direitos humanos da população LGBT. De lá para cá, foi protagonista de diversas conquistas do movimento, algumas, inclusive, com apoio do Diário. “Me recordo de denúncias feitas pelo Diário de que gays eram espancados pela GCM (Guarda Civil Municipal) de Santo André. A reportagem fez nascer na cidade uma comissão de direitos humanos direcionada à população LGBT”.

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