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Poluição no entorno do polo petroquímico amplia risco de doenças

DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Estudo aponta que 2,5 milhões de pessoas vivem em área com emissão elevada de poluentes


Natália Fernandjes
Do Diário do Grande ABC

18/03/2018 | 07:00


 Foram necessários dois anos e meio de pesquisa para comprovar o que, até então, era uma desconfiança. A poluição registrada no entorno do Polo Petroquímico de Capuava, nas cidades de Santo André, bairro Capuava; Mauá, Silvia e Sônia Maria; e Zona Leste da Capital, potencializa o desenvolvimento de doenças. Isso devido ao volume elevado de compostos químicos nocivos concentrados em raio de até 8,5 quilômetros do complexo industrial – composto por 14 empresas – em área onde vivem aproximadamente 2,5 milhões de pessoas (veja o mapa ao lado).

A constatação é fruto do conjunto de cinco estudos, realizados a partir da parceria entre pesquisadores da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC) e da FMUSP (Faculdade de Medicina da USP), a pedido do MP (Ministério Público) de Santo André. 

Laboratório móvel foi construído na EE Professor Beneraldo Toledo Piza, localizada a 700 metros do Polo Petroquímico de Capuava. Uma das constatações feitas a partir do trabalho no espaço foi a de que a concentração de materiais particulados – resíduos da queima de combustíveis fósseis – é até 30% maior do que os índices registrados pelas estações de monitoramento da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) no local – 48,5 microgramas por metro cúbico na unidade móvel e 37,5 microgramas por metro cúbico na estação do órgão estadual.

Chama atenção ainda a presença de compostos nitroaromáticos na atmosfera da área analisada – geralmente utilizados por indústrias na produção de tintas e plásticos – em concentração superior à recomendada pela OMS (Organização Mundial de Saúde). O limite determinado pela entidade é até 1 nanograma por metro cúbico, no entanto, foram registradas amostras com índice acima de 2 nanogramas por metro cúbico.

A presença de metais pesados, como o níquel e o cobre – que potencializam o risco de câncer – também foi registrada, bem como do dióxido de nitrogênio (gás alaranjado tóxico e de cheiro forte), foram constatadas em valores acima dos padrões de qualidade do ar vigentes.

“Não houve surpresa, mas confirmação daquilo o que a gente já esperava. Há muitos anos (desde 1989) a gente vem estudando as doenças naquela região. Estatisticamente há mais casos de tireoide ali do que em outras áreas, então precisávamos destes estudos de dispersão de poluentes para saber os elementos que poderiam estar causando esta doença”, destaca a endocrinologista da FMABC Maria Angela Zaccarelli Marino. Em 2002, a profissional trouxe à tona estudo em que moradores do entorno do Polo Petroquímico sofrem cinco vezes mais de problemas na glândula tireoide (mal de Hashimoto) do que os de outra região pesquisada, em São Bernardo.

Para a professora do Instituto de Química da USP Pérola Castro Vasconcellos, chama atenção a presença de poluentes sequer detectados pela estação de monitoramento da Cetesb no ar da área, como é o caso dos compostos orgânicos nitroaromáticos. “A Cetesb faz o feijão com arroz, porque é um processo trabalhoso e lento, que requer solventes caros, material muitas vezes importado e que geralmente fica parado na alfândega por meses. Trata-se de compostos orgânicos com risco potencial para o desenvolvimento de câncer, mas não há fiscalização”, observa ela, que coordenou parte do estudo, projeto de doutorado da aluna Sofia Ellen Caumo. 

Indústrias operam dentro dos padrões, diz Abiquim

Por meio de nota, a Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química) informou que as empresas associadas instaladas no Polo Petroquímico de Capuava operam estritamente dentro dos padrões recomendados e são controladas pelas autoridades de Saúde e de meio ambiente. Em nível federal, por exemplo, as empresas atendem às resoluções do Conama (Conselho Nacional de Meio Ambiente), que estabelecem limites máximos de emissão de poluentes atmosféricos para fontes fixas. A nível estadual, atendem o decreto 59.113/2013, que estabelece os padrões de qualidade do ar no Estado de São Paulo. Adicionalmente, atendem às condicionantes determinadas pelo órgão ambiental no processo de licenciamento ambiental – Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo).

“O inquérito mencionado foi instaurado a partir de fatos decorrentes do conhecido estudo sobre a incidência de tireoidite de Hashimoto. A respeito deste tema, afirmamos que não existe comprovação pela comunidade científica nacional e internacional do desencadeamento da tireoidite de Hashimoto pela exposição a qualquer atividade industrial”, ressaltou a Abiquim em nota.

A associação destacou ainda que, com apoio de especialistas na área, realizou pesquisa abrangente tendo como foco a literatura médica brasileira e estrangeira de estudos relacionados à incidência de tireoidite de Hashimoto em regiões que tenham polos petroquímicos. “Os estudos analisados, além de terem concluído não haver correlação científica entre o desenvolvimento de tireoidite de Hashimoto por exposição a qualquer atividade industrial, indicaram associações da doença a fatores como, por exemplo, os medicamentos imunomoduladores, o estresse, a ingestão de iodo, hereditariedade, estilo de vida (consumo de tabaco, obesidade) e condições socioeconômicas”, observou a Abiquim.

CETESB

Em relação à qualidade do ar, a Cetesb destacou que possui duas estações automáticas de monitoramento no entorno do Polo Petroquímico de Capuava. Uma, denominada Santo André-Capuava – localizada a 700 metros do polo –, e outra, denominada Mauá – a cerca de três quilômetros do polo. 

“A qualidade do ar medida nestas estações, além de sofrer influência das emissões do polo petroquímico, também sofre impactos de outras fontes de poluição do ar da região, como, por exemplo os veículos, outras atividades industriais”, observou, em nota.

A base de dados de qualidade do ar está disponível para consulta no endereço eletrônico qualar.cetesb.sp.gov.br/qualar.



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Poluição no entorno do polo petroquímico amplia risco de doenças

Estudo aponta que 2,5 milhões de pessoas vivem em área com emissão elevada de poluentes

Natália Fernandjes
Do Diário do Grande ABC

18/03/2018 | 07:00


 Foram necessários dois anos e meio de pesquisa para comprovar o que, até então, era uma desconfiança. A poluição registrada no entorno do Polo Petroquímico de Capuava, nas cidades de Santo André, bairro Capuava; Mauá, Silvia e Sônia Maria; e Zona Leste da Capital, potencializa o desenvolvimento de doenças. Isso devido ao volume elevado de compostos químicos nocivos concentrados em raio de até 8,5 quilômetros do complexo industrial – composto por 14 empresas – em área onde vivem aproximadamente 2,5 milhões de pessoas (veja o mapa ao lado).

A constatação é fruto do conjunto de cinco estudos, realizados a partir da parceria entre pesquisadores da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC) e da FMUSP (Faculdade de Medicina da USP), a pedido do MP (Ministério Público) de Santo André. 

Laboratório móvel foi construído na EE Professor Beneraldo Toledo Piza, localizada a 700 metros do Polo Petroquímico de Capuava. Uma das constatações feitas a partir do trabalho no espaço foi a de que a concentração de materiais particulados – resíduos da queima de combustíveis fósseis – é até 30% maior do que os índices registrados pelas estações de monitoramento da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) no local – 48,5 microgramas por metro cúbico na unidade móvel e 37,5 microgramas por metro cúbico na estação do órgão estadual.

Chama atenção ainda a presença de compostos nitroaromáticos na atmosfera da área analisada – geralmente utilizados por indústrias na produção de tintas e plásticos – em concentração superior à recomendada pela OMS (Organização Mundial de Saúde). O limite determinado pela entidade é até 1 nanograma por metro cúbico, no entanto, foram registradas amostras com índice acima de 2 nanogramas por metro cúbico.

A presença de metais pesados, como o níquel e o cobre – que potencializam o risco de câncer – também foi registrada, bem como do dióxido de nitrogênio (gás alaranjado tóxico e de cheiro forte), foram constatadas em valores acima dos padrões de qualidade do ar vigentes.

“Não houve surpresa, mas confirmação daquilo o que a gente já esperava. Há muitos anos (desde 1989) a gente vem estudando as doenças naquela região. Estatisticamente há mais casos de tireoide ali do que em outras áreas, então precisávamos destes estudos de dispersão de poluentes para saber os elementos que poderiam estar causando esta doença”, destaca a endocrinologista da FMABC Maria Angela Zaccarelli Marino. Em 2002, a profissional trouxe à tona estudo em que moradores do entorno do Polo Petroquímico sofrem cinco vezes mais de problemas na glândula tireoide (mal de Hashimoto) do que os de outra região pesquisada, em São Bernardo.

Para a professora do Instituto de Química da USP Pérola Castro Vasconcellos, chama atenção a presença de poluentes sequer detectados pela estação de monitoramento da Cetesb no ar da área, como é o caso dos compostos orgânicos nitroaromáticos. “A Cetesb faz o feijão com arroz, porque é um processo trabalhoso e lento, que requer solventes caros, material muitas vezes importado e que geralmente fica parado na alfândega por meses. Trata-se de compostos orgânicos com risco potencial para o desenvolvimento de câncer, mas não há fiscalização”, observa ela, que coordenou parte do estudo, projeto de doutorado da aluna Sofia Ellen Caumo. 

Indústrias operam dentro dos padrões, diz Abiquim

Por meio de nota, a Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química) informou que as empresas associadas instaladas no Polo Petroquímico de Capuava operam estritamente dentro dos padrões recomendados e são controladas pelas autoridades de Saúde e de meio ambiente. Em nível federal, por exemplo, as empresas atendem às resoluções do Conama (Conselho Nacional de Meio Ambiente), que estabelecem limites máximos de emissão de poluentes atmosféricos para fontes fixas. A nível estadual, atendem o decreto 59.113/2013, que estabelece os padrões de qualidade do ar no Estado de São Paulo. Adicionalmente, atendem às condicionantes determinadas pelo órgão ambiental no processo de licenciamento ambiental – Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo).

“O inquérito mencionado foi instaurado a partir de fatos decorrentes do conhecido estudo sobre a incidência de tireoidite de Hashimoto. A respeito deste tema, afirmamos que não existe comprovação pela comunidade científica nacional e internacional do desencadeamento da tireoidite de Hashimoto pela exposição a qualquer atividade industrial”, ressaltou a Abiquim em nota.

A associação destacou ainda que, com apoio de especialistas na área, realizou pesquisa abrangente tendo como foco a literatura médica brasileira e estrangeira de estudos relacionados à incidência de tireoidite de Hashimoto em regiões que tenham polos petroquímicos. “Os estudos analisados, além de terem concluído não haver correlação científica entre o desenvolvimento de tireoidite de Hashimoto por exposição a qualquer atividade industrial, indicaram associações da doença a fatores como, por exemplo, os medicamentos imunomoduladores, o estresse, a ingestão de iodo, hereditariedade, estilo de vida (consumo de tabaco, obesidade) e condições socioeconômicas”, observou a Abiquim.

CETESB

Em relação à qualidade do ar, a Cetesb destacou que possui duas estações automáticas de monitoramento no entorno do Polo Petroquímico de Capuava. Uma, denominada Santo André-Capuava – localizada a 700 metros do polo –, e outra, denominada Mauá – a cerca de três quilômetros do polo. 

“A qualidade do ar medida nestas estações, além de sofrer influência das emissões do polo petroquímico, também sofre impactos de outras fontes de poluição do ar da região, como, por exemplo os veículos, outras atividades industriais”, observou, em nota.

A base de dados de qualidade do ar está disponível para consulta no endereço eletrônico qualar.cetesb.sp.gov.br/qualar.

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