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Arte que incomoda?

Nario Barbosa  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Obra no Salão de Exposições do Paço Municipal de Santo André levanta polêmica


Daniela Pegoraro
Especial para o Diário

12/03/2018 | 07:00


 Desde 27 de janeiro, o Salão de Exposições do Paço Municipal de Santo André recebe obras que marcam dez anos de carreira do artista andreense Daniel Camatta. A exposição, que leva o nome de Décadente, está em sua reta final e ficará disponível ao público até dia 17 deste mês.

Teve quem, porém, se incomodou com o conteúdo de uma das obras. Um munícipe, que preferiu não se identificar, trouxe ao Diário a reclamação de que havia identificado conteúdos pornográficos explícitos. “E se alguma criança passa pelo local e vê aquilo?”, preocupou-se.

Feita em madeira, por meio de colagens e pinturas que levam à interferência do artista, a peça em questão se chama Diversas Pontas. Um pássaro verde, garrafas desenhadas, recortes de partituras musicais são alguns dos elementos que compõem a obra. No canto esquerdo de quem observa está o que constrangeu o munícipe: imagens de revista em quadrinho com conteúdo sexual, o qual explicita fotos de uma mulher praticando sexo oral.

A curadora da exposição, Milca Ceccon, explica que não vê motivos para alarde. Ela indica que foi colado aviso, embora pequeno, com o alerta: “Algumas obras desta parede apresentam conteúdo que pode ser considerado inadequado para audiências mais jovens, por apresentar temática adulta”. A justificativa: “É pelo fato de algumas pessoas terem dificuldade em compreender o caráter expressivo da arte. Assim, nos resguardamos de qualquer mal-entendido, respeitando o direito de cada espectador escolher o que quer ou não ver”, declara.

Milca ainda sugere que Diversas Pontas não seja vista apenas por uma parte e, sim, por seu conteúdo geral. “Os elementos compositivos de uma obra se revelam e se misturam como um todo. Quando os analisa separadamente, sem pensar no conjunto e contexto, corre-se o risco de torná-los vazios, reducionistas e sem sentido”, acrescenta. Além do quadro em questão, a exposição conta com outras mais de 50 obras que abordam diferentes temas, tais como problemas sociais, políticos e culturais.

Doutor em Comunicação e professor da Universidade Metodista, Herom Vargas explica que a área artística luta contra a censura desde os primórdios, mas este é um debate que, segundo ele, já deveria ter sido superado. “A arte é um reflexo da sociedade, ela mostra o real, aquilo que está no cotidiano do artista.” Caso emblemático foi o cancelamento da exposição Queermuseu em Porto Alegre, no ano passado. Como visitou a mostra em Santo André, acrescenta: “As obras de Daniel Camatta têm mesmo o intuito de provocar curto-circuito, de fazer a pessoa refletir”.

A curadora explica que muitas destas peças já foram expostas em outros lugares da região, sob sua curadoria, “e todas propiciaram discussões e diálogos saudáveis, ricos, críticos e sem preconceitos. Inclusive, algumas tiveram a participação de escolas que se propuseram a levar estudantes para debater os temas, conhecer o trabalho artístico, o processo de criação e a importância da arte”.

Em nota, a Secretaria de Cultura de Santo André relata que houve o entendimento da necessidade do aviso, mas com cuidado para não interferir nas propostas do expositor. “Nossa cidade também é terreno fértil para o surgimento de novas gerações de artistas que consolidam sua carreira, como Daniel Camatta, que nesta exposição celebra dez anos de percurso artístico.”

A secretaria ainda enfatiza a importância de obras que tocam nos mais variados assuntos, tal como a do próprio Camatta. “Os conceitos sobre corpo e sexualidade são importantíssimos e devem ser cada vez mais amplamente discutidos. Em uma sociedade na qual corpos são objetos e que até o prazer se tornou consumo, é necessária a arte que questiona.”



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Arte que incomoda?

Obra no Salão de Exposições do Paço Municipal de Santo André levanta polêmica

Daniela Pegoraro
Especial para o Diário

12/03/2018 | 07:00


 Desde 27 de janeiro, o Salão de Exposições do Paço Municipal de Santo André recebe obras que marcam dez anos de carreira do artista andreense Daniel Camatta. A exposição, que leva o nome de Décadente, está em sua reta final e ficará disponível ao público até dia 17 deste mês.

Teve quem, porém, se incomodou com o conteúdo de uma das obras. Um munícipe, que preferiu não se identificar, trouxe ao Diário a reclamação de que havia identificado conteúdos pornográficos explícitos. “E se alguma criança passa pelo local e vê aquilo?”, preocupou-se.

Feita em madeira, por meio de colagens e pinturas que levam à interferência do artista, a peça em questão se chama Diversas Pontas. Um pássaro verde, garrafas desenhadas, recortes de partituras musicais são alguns dos elementos que compõem a obra. No canto esquerdo de quem observa está o que constrangeu o munícipe: imagens de revista em quadrinho com conteúdo sexual, o qual explicita fotos de uma mulher praticando sexo oral.

A curadora da exposição, Milca Ceccon, explica que não vê motivos para alarde. Ela indica que foi colado aviso, embora pequeno, com o alerta: “Algumas obras desta parede apresentam conteúdo que pode ser considerado inadequado para audiências mais jovens, por apresentar temática adulta”. A justificativa: “É pelo fato de algumas pessoas terem dificuldade em compreender o caráter expressivo da arte. Assim, nos resguardamos de qualquer mal-entendido, respeitando o direito de cada espectador escolher o que quer ou não ver”, declara.

Milca ainda sugere que Diversas Pontas não seja vista apenas por uma parte e, sim, por seu conteúdo geral. “Os elementos compositivos de uma obra se revelam e se misturam como um todo. Quando os analisa separadamente, sem pensar no conjunto e contexto, corre-se o risco de torná-los vazios, reducionistas e sem sentido”, acrescenta. Além do quadro em questão, a exposição conta com outras mais de 50 obras que abordam diferentes temas, tais como problemas sociais, políticos e culturais.

Doutor em Comunicação e professor da Universidade Metodista, Herom Vargas explica que a área artística luta contra a censura desde os primórdios, mas este é um debate que, segundo ele, já deveria ter sido superado. “A arte é um reflexo da sociedade, ela mostra o real, aquilo que está no cotidiano do artista.” Caso emblemático foi o cancelamento da exposição Queermuseu em Porto Alegre, no ano passado. Como visitou a mostra em Santo André, acrescenta: “As obras de Daniel Camatta têm mesmo o intuito de provocar curto-circuito, de fazer a pessoa refletir”.

A curadora explica que muitas destas peças já foram expostas em outros lugares da região, sob sua curadoria, “e todas propiciaram discussões e diálogos saudáveis, ricos, críticos e sem preconceitos. Inclusive, algumas tiveram a participação de escolas que se propuseram a levar estudantes para debater os temas, conhecer o trabalho artístico, o processo de criação e a importância da arte”.

Em nota, a Secretaria de Cultura de Santo André relata que houve o entendimento da necessidade do aviso, mas com cuidado para não interferir nas propostas do expositor. “Nossa cidade também é terreno fértil para o surgimento de novas gerações de artistas que consolidam sua carreira, como Daniel Camatta, que nesta exposição celebra dez anos de percurso artístico.”

A secretaria ainda enfatiza a importância de obras que tocam nos mais variados assuntos, tal como a do próprio Camatta. “Os conceitos sobre corpo e sexualidade são importantíssimos e devem ser cada vez mais amplamente discutidos. Em uma sociedade na qual corpos são objetos e que até o prazer se tornou consumo, é necessária a arte que questiona.”

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