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Ele nunca quis ser mais um na multidão

Divulgação  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

‘Principal ladrão de obras raras do País’, Laéssio Rodrigues, que morou na região, ganha documentário


Marcela Munhoz

02/03/2018 | 07:00


 “São Paulo, 10 de agosto de 2012. (…) Você já teve a oportunidade de ser ouvido atentamente, Laéssio? Já parou para refletir, rememorar e contar de peito aberto o que realmente se passou com você? Desconfio que faça parte de seleto grupo de pessoas que têm algo a dizer. Agora se achar que não deve conversar comigo pelo motivo que for, não se acanhe em jogar essa carta na lata do lixo.” Mas Laéssio Rodrigues de Oliveira não jogou. Pelo contrário. Mais cartas vieram ao longo de cinco anos e uma relação entre o personagem e o contador da sua história, o jornalista Carlos Juliano Barros, foi construída. O resultado? Cartas Para Um Ladrão de Livros que está em cartaz, entre outras salas, no Reserva Cultural, em São Paulo. A direção é de Barros e Caio Cavechini.

“Percebi que estava diante de personagem diferente, com história inacreditável. No começo, ele evitou bastante falar sobre a vida criminosa e sobre as pessoas com quem fazia contatos. Precisamos estabelecer relação de confiança”, explica Barros ao Diário. Entre prisões e solturas, o documentário foi tomando corpo. Laéssio foi preso por diversas vezes, somando mais de dez anos de reclusão. Agora está no Presídio de Japeri, no Rio de Janeiro, cumprindo pena de 11 anos. “Ele ainda não assistiu ao longa. Íamos mostrar antes de terminar, mas ele foi preso. Documentário é assim, a gente lida com história real e, neste caso, que ainda está acontecendo”, diz. Vez ou outra, de acordo com o diretor, Laéssio manda cartas para instituições – incluindo a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que foi furtada por ele – e famosos pedindo doações de livros para ‘engordar’ a biblioteca da cadeia.

Mas quem é o protagonista de Cartas Para Um Ladrão de Livros? Laéssio, 44 anos, veio com a família do Piauí para São Bernardo na década de 1970, ainda criança de colo, e se tornou, segundo as autoridades brasileiras, um dos principais ladrões de obras raras do País, mas “está longe de ser o único”, ressalta Barros. Ele foi acusado de furtar bibliotecas, em pelo menos, cinco Estados, à procura de material com elevados valores histórico, artístico e econômico. São peças que vão desde mapas originais do Brasil feitos à mão, fotos raríssimas, até gravuras de artistas importantes, como o alemão Rugendas. Ele chegou a movimentar milhões de reais vendendo as tais obras a colecionadores e acabou expondo a fragilidade da segurança das bibliotecas.

“Laéssio é alguém odiado, o próprio assume a responsabilidade pelos crimes que cometeu. Mas poucas pessoas tentaram entender e contar o lado dele, que é alguém carismático, inteligente, engraçado e com um humor cortante e debochado”, diz o diretor, que ressalta: “Sempre estivemos mais interessados em ouvir o Laéssio do que julgá-lo. Essa é a missão de quem está assistindo”. No filme, que já foi apresentado em grandes festivais, o espectador vai sendo instigado a todo momento a matar a curiosidade sobre a vida, feitos, trejeitos e loucuras do protagonista. Ao mesmo tempo, não deixa de lembrar que ele é, na verdade, um criminoso.

“O bacana é provocar essa reação dúbia mesmo, deixar as pessoas em uma sinuca de bico. Todos os personagens entrevistados – polícia, amigos, bibliotecários – falam mal do ladrão. O contrapeso está mais do que exposto no filme, então, é imatura a crítica de achar que o documentário foi feito para fazer cartaz ao Laéssio, seria ingenuidade e até má-fé pensar assim”, explica o jornalista. Cartas Para Um Ladrão de Livros teve a autorização da Ancine para captar recursos pela Lei do Audiovisual.

COMO TUDO COMEÇOU
Carmen Miranda foi a ‘culpada’ por Laéssio querer mais e mais documentos históricos. A primeira revista furtada por ele do MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, foi uma Fon Fon de 1944 com a artista na capa. “Quando vi aquilo não acreditei, parecia que a revista estava lá, só me esperando”, diz no documentário, rindo. Na época, Laéssio trabalhava na padaria Sereia, no Parque dos Pássaros, em São Bernardo, com Lana (ou Nelson) Miranda, 43, que hoje faz cover da artista. “Éramos muito jovens quando nos conhecemos. Ele, inclusive, me levou a uma biblioteca pela primeira vez (Laéssio chegou a cursar Biblioteconomia). Compartilhávamos do interesse por Carmen e decidimos colecionar tudo sobre ela”, lembra, durante entrevista para o Diário.

Segundo Lana, quando percebeu que Laéssio enveredou para o mundo do crime, cortou relações. “Certa vez, fomos juntos ver uma coleção da Carmen e, na rua, ele me mostrou que tinha roubado várias. Não queria ser visto como um ladrão, graças a Deus sou muito honesto, então me afastei. No fim, não fiquei rico, mas tenho minha liberdade”, diz o artista, que acredita que Laéssio não é, no fundo, uma pessoa tão ruim. “Não justifica o crime, claro, mas ele sempre disse que era mais vantajoso ver as obras raras cuidadas nas mãos dos colecionadores do que judiadas dentro das instituições públicas.” O documentário está aí para as pessoas tomarem suas conclusões.



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Ele nunca quis ser mais um na multidão

‘Principal ladrão de obras raras do País’, Laéssio Rodrigues, que morou na região, ganha documentário

Marcela Munhoz

02/03/2018 | 07:00


 “São Paulo, 10 de agosto de 2012. (…) Você já teve a oportunidade de ser ouvido atentamente, Laéssio? Já parou para refletir, rememorar e contar de peito aberto o que realmente se passou com você? Desconfio que faça parte de seleto grupo de pessoas que têm algo a dizer. Agora se achar que não deve conversar comigo pelo motivo que for, não se acanhe em jogar essa carta na lata do lixo.” Mas Laéssio Rodrigues de Oliveira não jogou. Pelo contrário. Mais cartas vieram ao longo de cinco anos e uma relação entre o personagem e o contador da sua história, o jornalista Carlos Juliano Barros, foi construída. O resultado? Cartas Para Um Ladrão de Livros que está em cartaz, entre outras salas, no Reserva Cultural, em São Paulo. A direção é de Barros e Caio Cavechini.

“Percebi que estava diante de personagem diferente, com história inacreditável. No começo, ele evitou bastante falar sobre a vida criminosa e sobre as pessoas com quem fazia contatos. Precisamos estabelecer relação de confiança”, explica Barros ao Diário. Entre prisões e solturas, o documentário foi tomando corpo. Laéssio foi preso por diversas vezes, somando mais de dez anos de reclusão. Agora está no Presídio de Japeri, no Rio de Janeiro, cumprindo pena de 11 anos. “Ele ainda não assistiu ao longa. Íamos mostrar antes de terminar, mas ele foi preso. Documentário é assim, a gente lida com história real e, neste caso, que ainda está acontecendo”, diz. Vez ou outra, de acordo com o diretor, Laéssio manda cartas para instituições – incluindo a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que foi furtada por ele – e famosos pedindo doações de livros para ‘engordar’ a biblioteca da cadeia.

Mas quem é o protagonista de Cartas Para Um Ladrão de Livros? Laéssio, 44 anos, veio com a família do Piauí para São Bernardo na década de 1970, ainda criança de colo, e se tornou, segundo as autoridades brasileiras, um dos principais ladrões de obras raras do País, mas “está longe de ser o único”, ressalta Barros. Ele foi acusado de furtar bibliotecas, em pelo menos, cinco Estados, à procura de material com elevados valores histórico, artístico e econômico. São peças que vão desde mapas originais do Brasil feitos à mão, fotos raríssimas, até gravuras de artistas importantes, como o alemão Rugendas. Ele chegou a movimentar milhões de reais vendendo as tais obras a colecionadores e acabou expondo a fragilidade da segurança das bibliotecas.

“Laéssio é alguém odiado, o próprio assume a responsabilidade pelos crimes que cometeu. Mas poucas pessoas tentaram entender e contar o lado dele, que é alguém carismático, inteligente, engraçado e com um humor cortante e debochado”, diz o diretor, que ressalta: “Sempre estivemos mais interessados em ouvir o Laéssio do que julgá-lo. Essa é a missão de quem está assistindo”. No filme, que já foi apresentado em grandes festivais, o espectador vai sendo instigado a todo momento a matar a curiosidade sobre a vida, feitos, trejeitos e loucuras do protagonista. Ao mesmo tempo, não deixa de lembrar que ele é, na verdade, um criminoso.

“O bacana é provocar essa reação dúbia mesmo, deixar as pessoas em uma sinuca de bico. Todos os personagens entrevistados – polícia, amigos, bibliotecários – falam mal do ladrão. O contrapeso está mais do que exposto no filme, então, é imatura a crítica de achar que o documentário foi feito para fazer cartaz ao Laéssio, seria ingenuidade e até má-fé pensar assim”, explica o jornalista. Cartas Para Um Ladrão de Livros teve a autorização da Ancine para captar recursos pela Lei do Audiovisual.

COMO TUDO COMEÇOU
Carmen Miranda foi a ‘culpada’ por Laéssio querer mais e mais documentos históricos. A primeira revista furtada por ele do MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, foi uma Fon Fon de 1944 com a artista na capa. “Quando vi aquilo não acreditei, parecia que a revista estava lá, só me esperando”, diz no documentário, rindo. Na época, Laéssio trabalhava na padaria Sereia, no Parque dos Pássaros, em São Bernardo, com Lana (ou Nelson) Miranda, 43, que hoje faz cover da artista. “Éramos muito jovens quando nos conhecemos. Ele, inclusive, me levou a uma biblioteca pela primeira vez (Laéssio chegou a cursar Biblioteconomia). Compartilhávamos do interesse por Carmen e decidimos colecionar tudo sobre ela”, lembra, durante entrevista para o Diário.

Segundo Lana, quando percebeu que Laéssio enveredou para o mundo do crime, cortou relações. “Certa vez, fomos juntos ver uma coleção da Carmen e, na rua, ele me mostrou que tinha roubado várias. Não queria ser visto como um ladrão, graças a Deus sou muito honesto, então me afastei. No fim, não fiquei rico, mas tenho minha liberdade”, diz o artista, que acredita que Laéssio não é, no fundo, uma pessoa tão ruim. “Não justifica o crime, claro, mas ele sempre disse que era mais vantajoso ver as obras raras cuidadas nas mãos dos colecionadores do que judiadas dentro das instituições públicas.” O documentário está aí para as pessoas tomarem suas conclusões.

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