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Volks admite perseguição e tortura na ditadura na planta de S.Bernardo

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Relatório de professor alemão aponta que empresa consentiu com ameaças do regime a funcionários da fábrica da Via Anchieta


Raphael Rocha
Do Diário do Grande ABC

15/12/2017 | 07:00


A Volkswagen admitiu ontem, de forma oficial, que consentiu com torturas e perseguições de trabalhadores contrários ao regime militar durante o período da ditadura (1964-1985). Além disso, estudo de Christopher Kopper, professor doutor da Universidade de Bielefeld, apontou que a filial brasileira da montadora alemã se beneficiou financeiramente com a atuação dos militares em boa parte dos anos de chumbo.

Contratado pela companhia para verificar denúncias de corroboração da empresa com a ditadura militar – externadas em depoimentos na Comissão Nacional da Verdade –, Kopper afirmou que não houve apoio institucionalizado da Volks brasileira ao regime, mas que a repressão foi avaliada “positivamente” pelos diretores da época. O relatório indica que houve comprovação de perseguição a sete trabalhadores e uma tortura dentro da própria fábrica.

“O golpe militar de 1964 e a instituição de uma ditadura militar cada vez mais repressiva foram avaliados positivamente pela empresa, uma vez que contavam com uma política mais estável e favorável às empresas. Devido ao controle salarial e dos sindicatos pelo governo, os salários ficaram em um nível bem mais baixo do que em uma democracia pluralista com livre negociação salarial e direito à greve. A Volkswagen do Brasil e, em última instância também a matriz da Volkswagen, aproveitaram para si a suspensão dos direitos trabalhistas elementares”, concluiu o historiador.

Kopper argumentou que entre 1969 e 1979 a segurança institucional da firma, “especialmente” com a chefia de Ademar Rudge (antigo oficial das Forças Armadas Brasileiras), colaborou diretamente com o regime militar. “Ele agia por iniciativa própria, mas com o conhecimento tácito da diretoria”. Rudge era responsável por monitorar atividades dos funcionários e identificar aqueles que se mostravam contrários à ditadura, em especial aos militantes de órgãos que combatiam a repressão. Em um dos casos, Rudge acompanhou a prisão e a tortura, por parte de agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) a um funcionário da Volks: Lúcio Bellentani.

O historiador alemão revelou, entretanto, que não foi possível avançar na apuração de colaboração maior da segurança industrial da Volks com a ditadura militar porque material foi danificado. “Apesar dos autos da polícia política apontarem claramente para uma cooperação entre a segurança patrimonial e os órgãos da polícia, a extensão da colaboração não pôde ser completamente reconstruída, uma vez que uma quantidade desconhecida de documentos foi destruída”. Ele também declarou ser possível que a montadora tenha fornecido veículos gratuitamente para as Forças Armadas Brasileiras durante o regime.

Aos jornalistas, Kopper disse que acredita que o departamento de recursos humanos tinha ciência das perseguições a funcionários. Confirmou a existência de listas negras na firma com nomes de trabalhadores filiados a sindicatos e partidos políticos contrários ao regime – esses seriam demitidos. “Acho que seria bom se outras empresas fizessem isso, outras de origem alemã, apurarem esses fatos, tanto no Brasil quanto na América Latina. Acho importante a Volkswagen dar esse primeiro passo. A Volkswagen é empresa global e tem responsabilidade global.”

Montadora evita indenização individual

Em evento realizado na planta da Volks na Via Anchieta, em São Bernardo, o presidente e CEO da companhia na América Latina e Brasil, Pablo Di Si, declarou lamentar os episódios relatados dentro da fábrica são-bernardense. “Lamentamos o que aconteceu neste momento. Nunca questionamos ou tentamos mudar uma vírgula do relatório”. Di Si refutou, por enquanto, acordos individuais com trabalhadores que acusam a empresa de patrocinar torturas e perseguições.

Para reparação, a Volks passou a contribuir com instituições sociais. Ontem, foi anunciada a parceria com o Centro Cultural Afro-Brasileiro Francisco Solano Trindade, de São Bernardo. Também foi confeccionada placa com os dizeres “Em memória a todas as vítimas da ditadura militar no Brasil, pelos direitos humanos, democracia, tolerância e humanidade”.

“Não tem evidência institucionalizada da empresa com regime militar. Por enquanto vamos trabalhar com instituições de direitos civis e direitos humanos. Não estamos planejando por enquanto (indenizações)”, disse Di Si. “Começamos o processo duas semanas atrás. Dois ou três dias depois que recebi o relatório do professor Kopper em português, entregamos ao Ministério Público Federal. Estamos abertos, nada a esconder. Haverá diálogo. Mas é um processo demorado”, salientou.

Em frente à planta da Volks na Via Anchieta, antigos trabalhadores da empresa faziam protestos contra o evento de ontem. Também houve protesto no sábado. Eles entregaram panfleto criticando a ação da montadora. “Os trabalhadores vitimados não irão a esta festa, onde a Volks só quer varrer a sujeira para baixo do tapete. Pedimos reunião com o Ministério Público Federal, as centrais sindicais brasileiras e os que assinaram as denúncias contra a Volks para discutir reparação. Queremos regras claras para resolver o problema.”

Presente à atividade, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, o Wagnão, elogiou a atitude da Volkswagen, porém pediu diálogo entre os antigos trabalhadores e a firma. “Eu vivi parte dessa história e convivi com companheiros que foram afetados. Meu pai esteve numa famosa lista negra promovida naquele momento contra ativistas que militavam no movimento sindical e que conhecem muito bem. Conheço a partir da minha família.”

A Volks informou que tentou dialogar com os ex-funcionários que protestaram em frente à fábrica e os convidou a participar da atividade de ontem, mas eles recusaram.  



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