Fechar
Publicidade

Sábado, 21 de Julho

|

Max º Min º
Clima da Região Trânsito Assine Clube do Assinante Diário Virtual Login

Esportes

esportes@dgabc.com.br | 4435-8384

Projeto Tigrinho tem muito mais que futebol

Trabalho social feito pelo S.Bernardo FC ensina disciplina aos jovens e pode levar à profissionalização


Marcelo Argachoy/Especial para o Diário

04/09/2017 | 07:09


Quem vê de fora pode achar que se trata apenas de uma escolinha de futebol. Mas ao entrar nas 32 unidades do Projeto Tigrinho em São Bernardo, o que se nota é muito mais que um projeto social que tem o futebol como pano de fundo.

O programa foi implantado em 2009, mas está enraizado nas diversas escolinhas de futebol da cidade desde os anos 1970. “Nosso foco principal não é formar atletas, mas, sim, ter um trabalho de cidadania, ensinar valores éticos”, conta o criador do Projeto Tigrinho, Edinho Montemor.

São 40 professores espalhados pela cidade trabalhando com cerca de 6.000 crianças entre 6 e 16 anos. Não existem custos para participar do programa, mas os monitores ficam de olho em seus alunos para que mantenham bom desempenho na escola.

“Se você assistir a uma partida aqui, pode notar que não existe palavrão sendo gritado”, conta o diretor Élvio Galdino de França. O trabalho disciplinar é um dos fatores trabalhados nas aulas. “Infelizmente, hoje em dia algumas crianças se espelham em modelos errados. Acreditam que desafiar as regras é bacana. Mas aqui têm consciência de que existe punição em caso de indisciplina, e isso acabam levando para a vida fora do campo”, explica.

Se um dos garotos apresenta notas baixas nas provas ou se comporta mal na escola, ou no próprio treino, isso se reflete durante as aulas no projeto. Ele pode ser punido com atividade em separado do restante do grupo ou, nos coletivos, o professor pode, por exemplo, marcar um pênalti contra o time dele. E os treinadores garantem que isso funciona. “São vários casos de criança que melhorou na escola, que fugiu de possível caminho ruim, por conta do projeto”, relata Élvio.

Os materiais e os campos são cedidos pela Prefeitura, enquanto que o São Bernardo Futebol Clube arca com os demais custos. Os monitores se reúnem semanalmente para discutir o projeto. Além disso, as escolinhas se enfrentam em torneio interno, o Campeonato José Rossi.

No Areião, uma das regiões mais carentes da cidade, o programa está integrado à comunidade. Além da missão de tirar os jovens de um caminho ruim, o futebol serviu para quebrar o preconceito que a equipe do local sofria em relação a outras do município. “Durante as competições os outros times tinham medo de vir jogar aqui, mas isso acabou quando viram que o nosso trabalho é benfeito”, diz o monitor Marcelo de Lima, conhecido como Maquininha. “Em uma escolinha, sempre vão pegar os melhores jogadores para serem titulares. Aqui no Areião tento dar oportunidade igual a todos, até para os menos habilidosos”, complementa ele.

Manter um padrão de trabalho em todas as escolinhas é uma das principais missões do programa. A dependência fica por conta de investimentos da Prefeitura nas praças esportivas. E, neste caso, quem se destaca por ter a melhor infraestrutura é a escola do Jardim Lavínia. O campo de grama sintética, a boa localização e a proximidade a escolas e bases policiais são alguns dos atributos da unidade que serve de modelo para as demais.

No Lavínia há alunos de todas as classes sociais. Desde os de comunidades carentes nas redondezas, a filhos de famílias com bastante dinheiro. Outra boa notícia é que o futebol não se resume apenas aos meninos. Na sede, embora minoria, as meninas jogam junto e o preconceito não entra em campo. “Elas são até mais tranquilas com relação a isso do que os meninos. Eles são os mais tímidos”, revela o monitor Jeferson Gomes Vicente, o Paruca, que também trabalhou como treinador nas categorias de base do Tigre. 

São-bernardenses conquistam a América

Dos campos de várzea de um projeto social ao título sul-americano sub-20 com a camisa da Seleção Brasileira. O que para muitos é apenas um sonho se tornou realidade para a meio-campista Rafaela Andrade e para a zagueira Beatriz Ferreira. As duas jogadoras deram seus primeiros chutes no futebol no Projeto Tigrinho e hoje atuam em equipes profissionais do País.

Foi no Alvarenga que Rafaela começou no projeto, aos 9 anos. “Cheguei a sofrer bastante preconceito por ser menina no meio do futebol, mas nunca deixei me abalar. Isso sempre foi um gás para eu nunca desistir dos meus sonhos”, declarou. Atualmente, ela atua pelo Kindermann, de Santa Catarina, eliminado justamente pelo time de Beatriz, o Rio Preto, no Brasileiro da categoria.

Antes de chegar no Verdão da Vila Universitária, como é conhecido o time do bairro de São José do Rio Preto, Beatriz Ferreira começou na unidade Battistini do Projeto Tigrinho, aos 10 anos, e depois se transferiu ao programa no Lavínia.

O apoio de familiares também foi importante para a realização do desejo. “Jogar profissionalmente sempre foi meu sonho. Assistia aos jogos da Seleção e falava para a minha mãe que um dia ela ia me ver jogando com a amarelinha”, disse Beatriz, sobre a oportunidade que veio em 2015, com a convocação e o triunfo no Sul-Americano Sub-20, em Santos. 

Dupla do Nova Petrópolis passa experiência

A experiência e a paixão pelo futebol são as marcas registradas na escolinha do Nova Petrópolis. Aos 71 anos, Ademir Roberto Salum, o Dimas, une sua ligação com o esporte, a cidade de São Bernardo e a superação de seus problemas de saúde para comandar as atividades do Projeto Tigrinho.

Monitor no bairro nos últimos quatro anos, Dimas passa experiência às crianças em situação de risco. “Elas têm recuperação e isso depende de nós. Trabalho até com meninos que vêm com acompanhamento de psicólogo”, conta.

No ano passado, a vida do monitor sofreu uma reviravolta. Ao operar o joelho direito, Dimas teve complicações em virtude de um ataque cardíaco e foi afastado do projeto. Em seu lugar entrou outro veterano do futebol de São Bernardo: Ferreira.

José Antônio Ferreira, 80 anos, chegou à cidade para trabalhar nas indústrias em 1972, após carreira como jogador profissional em clubes como Fluminense e América, ambos do Rio.

Quando o Projeto Tigrinho começou, ele foi o primeiro instrutor a ser escolhido, no Vanguarda, onde ficou até 2014. Após passar pelo Unidos da Vila, o monitor substituiu Dimas.

“Durante minhas atividades esportivas, nunca tive tanta motivação para o projeto como aqui”, relata Ferreira, que segue como monitor no Nova Petrópolis mesmo após a recuperação de Dimas. “Estou muito feliz em ajudar famílias no campo social por meio do esporte.”

Ferreira diz que a relação entre monitores e alunos é espetacular. “Temos que ser o pai, a família, o médico, o padre. Temos que fazer de tudo, dar todo o apoio aos jovens.”



Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


Copyright © 1995-2017 - Todos direitos reservados