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Sugestões de quem faz cultura


Everaldo Fioravante, Gislaine Gutierre e Nelson Albuquerque
Do Diário do Grande ABC

05/12/2004 | 14:35


"No bairro Baeta Neves tem teatro. No Centro de São Bernardo também. Um fica próximo ao outro e atendem principalmente à classe média. E no Montanhão? No Alvarenga? Não tem nada. Na periferia da cidade é assim, a cultura promovida pelo poder público não chega, não é acessível às pessoas de baixa renda". A afirmação é do artista plástico autodidata Edson Pereira, natural de São Bernardo. Ex-morador da Vila Areião, lá ele promoveu uma ação exemplar: comprou tintas com recursos próprios e retratou em muros e barracos do local uma série de personalidades, sobretudo negros, entre eles o líder negro Zumbi e o trompetista Louis Armstrong. Depois, passava tintas e pincéis para as crianças da comunidade. Assim, deu cara nova ao bairro e elevou a auto-estima de muita gente. Para ele, que se mudou para Mauá este ano por questões pessoais, a cultura em São Bernardo deveria sofrer um processo de descentralização.

Pereira usa como exemplo a ser seguido o que ocorre em Diadema: dos 11 centros culturais da cidade, dez ficam na periferia. "Em 2000, participei de uma oficina de escultura no Espaço Henfil (no bairro classe média Baeta Neves). Como não tinha dinheiro para ir de ônibus do Areião até lá, fui muitas vezes de bicicleta. Só que chegou um momento em que a disposição acabou. Isso que ocorreu comigo acontece com muitas outras pessoas", diz.

O artista tem sugestões para o desenvolvimento da cultura em São Bernardo. "Se não é possível a construção de centros culturais nas periferias, podem ser utilizados espaços alternativos. Penso ainda na criação de ruas de cultura e lazer e em um caminhão cultural que leve atrações a esses locais. Outra proposta é a criação de um conselho gestor formado por artistas, que trabalhe junto à Prefeitura e possa ser montado pela Secretaria de Cultura", diz.

A freira missionária Daniela Bonello, responsável pelo Centro de Formação Profissional Padre Leo Commissari, na favela do Oleoduto, também acredita que a Prefeitura não leva cultura às regiões periféricas do município. Conforme ela, não há equipamentos culturais em um "raio de quilômetros" do Centro.

"Conheço bastante as periferias de São Bernardo e nelas não há cultura vinda por meio da Prefeitura. Investe-se pouco em educação e cultura, o que é uma falha", afirma Daniela, italiana que mora na cidade desde 1989. Ela explicou que o Centro atende cerca de 650 pessoas por mês, oferecendo cursos profissionalizantes (a valores acessíveis) e culturais (a preços simbólicos). Tudo mantido por meio de parcerias e doações sem apoio da Prefeitura.

O ator e diretor de teatro e vídeo Wilson Julião, natural e morador de São Bernardo, ministra curso de teatro infantil no mesmo Centro de Formação. Ele acredita que a Prefeitura desenvolve um bom trabalho no que diz respeito à formação cultural, mas diz que enquanto existem muitas oficinas de iniciação artística faltam cursos de aperfeiçoamento. "Não adianta só formar, tem de utilizar o conhecimento do pessoal formado, o que não ocorre". Julião também aponta a falta de uma política de ocupação dos teatros da cidade: "Se existisse, os atores e diretores de São Bernardo não precisariam buscar mercado em outras cidades".

Para o músico Adolar Marin, a descentralização é uma maneira de não só democratizar o acesso à cultura como também uma forma de ampliar as possibilidades de difusão do trabalho de artistas da cidade. "Pode servir como ponto de partida para quem está começando. Para muita gente talentosa daqui, falta apenas um empurrãozinho", diz.

Já a bailarina de dança cigana Priscila Cardoso reclama da falta de tratamento profissional aos artistas. "Eles acham que estão nos fazendo um favor quando nos chamam para mostrar o nosso trabalho", afirma. Priscila sugere a utilização dos parques como locais de exibição.

Marin crê que a democratização deve ser premissa da política de ocupação dos espaços públicos. Ele elogia alguns equipamentos de que dispõe o município, como os teatros Cacilda Becker e Lauro Gomes, mas acredita que há mais opções além dos limites impostos por paredes. Uma saída seria levar a arte às ruas.

Para quem ocupa os espaços tradicionais, sobram reclamações. Segundo Marin, não é difícil conseguir a liberação de um teatro para um show, por exemplo. Mas cachê, nem pensar. O artista tem de se virar com a verba da bilheteria (da qual 10% vão para os cofres públicos) para pagar as despesas. Muitas vezes, é necessário investir em divulgação complementar à da Secretaria, que ainda é pífia. A Câmara de Cultura Antonino Assumpção, a seu ver, é um bom espaço e tem programação mais consistente, mas "é preciso rezar para não chover", pois o espaço onde são realizados os shows é aberto. E resume seu pensamento: "A cultura em São Bernardo deveria ser tão grande quanto os setores automobilístico e moveleiro".

Quem também pensa grande são os escritores Sonia Belloto e Roberto Lopes, proprietários da Fábrica de Texto, escola particular de escrita criativa localizada em São Bernardo. "Sugerimos um evento para pequenas editoras e novos autores, que poderia ocorrer no Ginásio Poliesportivo. Daria muito certo aqui uma bienal do livro, com atenção aos escritores independentes".

O trombonista François de Lima, da respeitada Banda Mantiqueira, morador de São Bernardo, não se apresenta na cidade há dez anos. Desistiu até de procurar pela oportunidade. Mas gosta de lembrar da saudosa fase da Banda Mirim do Rudge Ramos, onde começou a tocar o seu instrumento aos 10 anos. Em 1994, tentou reacender a discussão em torno da necessidade de retomar esse trabalho, com uma exposição que resgatava a história do grupo. Como resposta, recebeu o silêncio das autoridades. "Além de desenvolver uma aptidão musical, a banda ajudaria a tirar as crianças das ruas". Ele se diz disposto a colaborar como professor, caso um dia retomem esse trabalho.

Assim como François, que encontrou mais espaço fora de sua cidade, o produtor cultural Sílvio Alemão se ressente pela falta de possibilidades em São Bernardo. Sua produtora Allfama, aberta em 1998, realiza em média 80 eventos por ano; nesse período, apenas quatro foram na cidade. "Somando o público desses quatro eventos, não dá para encher um ônibus. Isto porque a divulgação prometida pela Secretaria de Cultura simplesmente saiu na véspera dos shows, por trâmites burocráticos".

Há um ano, ele propôs uma realização do show da banda de rock Shaman e recebeu como resposta um "não", porque esse público poderia destruir o patrimônio municipal. O mesmo show, porém, foi recebido pela Eslováquia que, com a ajuda do Consulado daquele país no Brasil, ainda conseguiu dez passagens para a equipe. "Daí posso concluir que é muito mais fácil, muito mais, mesmo, aprovar projetos culturais na Eslováquia que em São Bernardo!".

O que ele quer da próxima administração é que diferenciem cultura de entretenimento. "O primeiro termo engloba o segundo, mas a recíproca não é verdadeira".

A diretora do tradicional Ballet Evelyn, Evelyn Agabiti, sempre quis criar na cidade uma companhia de danças nos moldes da existente em Diadema. Seria uma forma de escoar a própria produção local de dança, hoje concentrada apenas no campo da formação. Além disso, teria uma importante função social. Sua proposta nunca recebeu apoio do poder público.

O arquiteto Douglas Piccolo entende que a Prefeitura deve mapear a cultura existente na cidade. "Acho interessante que seja feito um inventário para saber onde estão e qual a origem das manifestações artísticas de São Bernardo. Essas manifestações devem ser incentivadas, pois o que vem de cima para baixo é muito artificial, não vinga".



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