Fechar
Publicidade

Domingo, 5 de Dezembro

|

Max º Min º
Clima da Região Trânsito Assine Clube do Assinante Diário Virtual Login

cultura@dgabc.com.br | 4435-8364

Renda-se ao tinto


Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

03/07/2005 | 07:46


Embora sua chegada tenha sido alertada pelo calendário, o inverno ainda não reivindicou as atenções para si. De todo modo, quando mostrar a que veio, a estação pedirá uma bebida mais encorpada, que caia bem com pratos mais calóricos e temperaturas mais baixas. E eis que o vinho tinto toma a dianteira. Mas quais são as verdades e os mitos que cercam essa variante rubra de vinhos? E como não cair na cilada de pagar os olhos da cara por um tinto que não vale tanto assim, e cujo sabor periga de resgatar da memória do degustador o odor do “fundão do ônibus”, segundo a escala de qualidade adotada por Miles Raymond, personagem de Paul Giamatti no filme Sideways – Entre Umas e Outras (de Alexander Payne)?

A resposta para a predileção dos tintos em favor dos brancos em climas amenos é simples. “Os vinhos tintos apresentam menos acidez que os brancos, que assim são melhores quando servidos gelados e são mais refrescantes, ao contrário dos tintos”, diz Aguinaldo Zackia Albert, enólogo e diretor da Sociedade Brasileira de Amigos do Vinho, além de idealizador do site Degustadores sem Fronteiras (www.degustadoresemfronteiras.com.br). “E no frio tudo que é feito para comer e beber se vende mais, é natural”, sintetiza Ehud Gedankien, enófilo e proprietário do Empório Internacional, em Santo André.

Pausa para uma diferenciação que se faz necessária, entre enólogo e enófilo. O primeiro é um pesquisador, um estudioso do líquido de Baco, usualmente associado a vinícolas ou a algum estágio da produção do vinho. Quanto ao enófilo, trata-se de um apreciador com profundo conhecimento de causa, um consumidor que bebe e sabe o que está bebendo, numa relação análoga à do cinéfilo com o cinema.

De volta ao tinto, que apesar do que crê o senso comum pode, sim, ser refrigerado e não servido à temperatura ambiente, obrigatoriamente. “Temperatura ambiente só se for a de Paris. Estamos no Brasil e é aconselhável que se resfrie levemente o vinho: para os tintos mais leves, entre 14 e 15 graus; para os mais encorpados, de 18 a 20 graus”, afirma Albert. Em matéria de armazenagem, três regrinhas básicas, que devem ser seguidas à risca para prevenir que um tinto com tudo para ser um Gizmo transforme-se num Gremlin: posição horizontal, local seco e distante de fontes de luz intensa.

Outra particularidade exclusiva aos tintos é a decantação, estágio obrigatório antes de sua chegada à taça. No caso dos vinhos mais jovens, decantar proporciona que o produto seja arejado e potencialize seu aroma real no contato com o oxigênio. Entre os vinhos envelhecidos, o processo serve para separar a borra – sedimentação que se acumula durante o amadurecimento – do líquido nobre. Em geral, basta deixar a garrafa em pé durante cerca de meia hora e o ritual da decantação estará concluído. “Nunca, nunca, nunca se deve comprar e abrir o vinho tinto na mesma hora. Alguns deles, dependendo da idade, tem de ser decantados 24 horas antes (de seu consumo)”, diz Ehud Gedankien.

E é irresistível voltar a Sideways – Entre Umas e Outras para falar na relação custo-benefício na aquisição de vinhos. O protagonista do filme exalta a categoria dos tintos pinot noir, uma das uvas-vedetes da Borgonha, região da França. Alguns especialistas consideram exagerada essa adoração pela tal uva, que eleva o preço de seus vinhos a um patamar incompatível à sua qualidade. Muitas vezes, a reputação faz o preço, não o conteúdo da garrafa. “Vinho bom e muito barato não existe. Mas se o cara tiver R$ 35 para gastar, não deve comprar um vinho italiano ou francês só por causa da nacionalidade. Ele pode, por R$ 35, comprar um chileno, um argentino ou um brasileiro, que oferecem boa qualidade e um preço condizente”, aconselha o enólogo Albert.

Agora, caso dinheiro não seja problema para o candidato a enófilo, uma boa opção são as melhores safras do francês Romanée-Conti, o vinho dos vinhos, a lenda que contabiliza 11 séculos de história. Uma garrafa da safra de 1985, por exemplo, custa a bagatela de US$ 7,5 mil (R$ 17,5 mil).

O bê-á-bá da degustação

Olhe
Com um terço da taça preenchida e com ela levemente inclinada, observe a transparência do vinho, que não deve ser turvo nem manifestar o “efeito Fanta”, com pequenas substâncias boiando ou depositadas no fundo. Quando agitada e em seguida apoiada sobre a mesa, a taça pode atestar a qualidade do vinho segundo sua viscosidade: o bom vinho deixa “lágrimas” nas paredes do copo, que não obedecem desesperadas à lei da gravidade igual a água, mas escorrem lentamente.

Cheire
Não se envergonhe e pode posicionar o nariz no interior da taça mesmo, para perceber com intensidade os aromas do vinho, que no caso do tinto são chamados de buquê. O odor pode variar, conforme a procedência e o tipo de uva, mas o menor sinal de desconforto olfativo já significa que o vinho não é flor que se cheire. O aroma do bom tinto pode lembrar cereja ou baunilha, amêndoa ou canela, tabaco ou menta, e até couro, em raros casos. Diferenças consideráveis do buquê são obtidas com a taça imóvel e após ela ser movimentada em círculos.

Beba
Sorva um gole discreto e deixe o vinho descansar na boca. Leve-o para passear em toda a região bucal, mas sem bochechos exagerados – afinal, é uma degustação do vinho e não uma escovação dos molares. O fato de apresentar toda a boca à bebida tem a função de despertar as papilas gustativas da língua, setorizadas nos sabores doce, ácido, amargo e salgado. O vinho de qualidade deve ter sabor intenso, incondicionalmente; entre os tintos, não deve ser muito ácido, doce caso o rótulo assim o indique, e ligeiramente amargo.

Sinta
Existem outros aspectos a verificar no test-drive do vinho, mas aí já são atributos do degustador de nível médio a avançado. Entre eles está o retrogosto, ou “o gosto que fica na boca depois”, sensação capaz de identificar a qualidade do vinho. Antes de engolir a bebida, aspire o ar pelo nariz para experimentar a persistência do “aroma” na boca. Prepare o cronômetro: vinhos inferiores proporcionam de zero a três segundos de retrogosto; os intermediários, de quatro a sete; e os vinhos de qualidade superior são como o bom peão de rodeio: devem persistir por mais de oito segundos. Ou seja, quanto mais duradouro o retrogosto, melhor o produto.



Quer receber em primeira mão as notícias das sete cidades do Grande ABC?

Entre no nosso grupo de WhatsApp. 
Clique aqui.
 

Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


Copyright © 1995-2017 - Todos direitos reservados

;