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‘Bang Bang’: cai o humor, mas não o chapéu


Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

05/10/2005 | 09:02


O chapéu não caiu nem da cabeça do mocinho nem do bandido no capítulo de estréia da novela Bang Bang, da Globo. Mas o humor caiu do cavalo. O duelo ao meio-dia no curral OK, que encerrou o capítulo, foi o fecho de uma série de referências a temas e chavões dos filmes de faroeste, de Matar ou Morrer a Paixão dos Fortes, de No Tempo das Diligências a Onde Começa o Inferno. Sobretudo, o diretor Ricardo Waddington e o autor Mário Prata se inspiraram na ópera de olhares Era uma Vez no Oeste, de Sergio Leone, e em Kill Bill, de Quentin Tarantino, que não é propriamente um western, mas segue o feitio. O capítulo segurou uma audiência no horário das sete em 37 pontos medidos pelo Ibope, com 57% de participação. Ou seja, terão de cavalgar muito para não comer poeira.

Com tanta informação importada os atores estranharam. Pouco à vontade num tema que não é a praia de nenhum deles, pareciam fantasiados para a ocasião. A atuação geral ficou entre o solene e a pantomima, e o humor pretendido pelo autor perdeu-se neste capítulo. Ou não era para Jece Valadão escrachar com Joe Wayne (referência ao mocinho clássico de John Wayne), malfeitor que saiu da prisão para matar seu inimigo, o xerife John McGold (Tarcísio Meira)?

Um moleque pergunta se quer que tome conta do cavalo quando este estaciona seu cavalo. A cozinheira pede cuidado para não molhar o biscoito, e sua auxiliar pergunta como afogar o ganso. São tiradas inesperadas inseridas de sopetão, mas sem ritmo num capítulo que atirou para todo lado, entre ação, suspense, drama e humor, com risco de levar chumbo grosso. Por esta estréia, Bang Bang ficou aquém de uma comédia western com sacadas contemporâneas (Banzé no Oeste, de Mel Brooks, não serviu para nada?).

Uma placa na entrada da cidade diz que lá ninguém usa armas, mas é furada a tiros como uma terra sem lei nem ordem. Clara analogia ao Brasil contemporâneo, que ainda discute se deve ou não proibir venda de armas. Albuquerque podia ser em qualquer lugar – de fato, era a cidade de Estúpido Cupido (1976-1977), de Mário Prata. No início do capítulo, há um massacre: pai, mãe, irmãos e parentes do mocinho Ben Silver (Bruno Garcia) são mortos, e ele se torna um cavaleiro solitário em busca de vingança. Mas o sangue que correu na tela foi em vermelho 2D. A seqüência, um flashback do personagem depois de um close em seu olhar, foi toda em animação – alguém aí lembrou do massacre em desenho animado de Kill Bill? Primeira boa novidade, ainda que sem frescor original.

A segunda foi o contraste de luz. O deserto de Atacama, no Chile, serviu como paisagem árida da novela, com uma luz intensa e amarelo-alaranjado de fim de tarde e montanhas azuis ao fundo. Editado com as cenas gravadas no Rio e em Angra dos Reis, com locações rurais mais nubladas, mais úmidas e mais verdes provocou um estranhamento perto de se tornar um defeito. Já figurino e locações cenográficas ficaram impecáveis, graças aos exemplos que Hollywood legou.

Houve dois momentos risíveis, apesar de a graça ter sido abandonada no deserto na estréia. Primeiro com a bela Fernanda Lima, mais para durona de butique do que para ardida como pimenta. Com uma calça de couro justa ao léu jamais conseguiria dar chutes e socos nos bandidos – só com dublês mesmo. Ficou inverossímil ver suas mãozinhas delicadas derrubando brutamontes foras-da-lei, ou suas pernocas dando chutinhos no ar, ou empurrando uma porta de diligência contra o bandido com a força de uma gazela.

Outro momento cômico foi um auto-escracho. Guilherme Fontes faz o contador apropriadamente chamado Jeff Wall Street que rouba o dinheiro que conseguiu com a venda do gado do futuro sogro. É a tiração de sarro em cima dele mesmo, que nunca terminou o filme Chatô depois de ter conseguido financiamento público.

Com Billy The Kid e Jesse James disfarçados de mulher – e os dois debaixo do sotaque esperto e praiano de Evandro Mesquita e Kadu Moliterno – e com um Zorroh cabeleireiro de Sidney Magal pode estar a chave da comédia, tão cara ao horário e justamente o principal entrave da estréia. A experiência rural do diretor Waddington, que se resume a um remake de Cabocla, ainda não é credencial suficiente para encarar uma produção que só não tem mais chapéu, cavalos ou Sol do que América.



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‘Bang Bang’: cai o humor, mas não o chapéu

Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

05/10/2005 | 09:02


O chapéu não caiu nem da cabeça do mocinho nem do bandido no capítulo de estréia da novela Bang Bang, da Globo. Mas o humor caiu do cavalo. O duelo ao meio-dia no curral OK, que encerrou o capítulo, foi o fecho de uma série de referências a temas e chavões dos filmes de faroeste, de Matar ou Morrer a Paixão dos Fortes, de No Tempo das Diligências a Onde Começa o Inferno. Sobretudo, o diretor Ricardo Waddington e o autor Mário Prata se inspiraram na ópera de olhares Era uma Vez no Oeste, de Sergio Leone, e em Kill Bill, de Quentin Tarantino, que não é propriamente um western, mas segue o feitio. O capítulo segurou uma audiência no horário das sete em 37 pontos medidos pelo Ibope, com 57% de participação. Ou seja, terão de cavalgar muito para não comer poeira.

Com tanta informação importada os atores estranharam. Pouco à vontade num tema que não é a praia de nenhum deles, pareciam fantasiados para a ocasião. A atuação geral ficou entre o solene e a pantomima, e o humor pretendido pelo autor perdeu-se neste capítulo. Ou não era para Jece Valadão escrachar com Joe Wayne (referência ao mocinho clássico de John Wayne), malfeitor que saiu da prisão para matar seu inimigo, o xerife John McGold (Tarcísio Meira)?

Um moleque pergunta se quer que tome conta do cavalo quando este estaciona seu cavalo. A cozinheira pede cuidado para não molhar o biscoito, e sua auxiliar pergunta como afogar o ganso. São tiradas inesperadas inseridas de sopetão, mas sem ritmo num capítulo que atirou para todo lado, entre ação, suspense, drama e humor, com risco de levar chumbo grosso. Por esta estréia, Bang Bang ficou aquém de uma comédia western com sacadas contemporâneas (Banzé no Oeste, de Mel Brooks, não serviu para nada?).

Uma placa na entrada da cidade diz que lá ninguém usa armas, mas é furada a tiros como uma terra sem lei nem ordem. Clara analogia ao Brasil contemporâneo, que ainda discute se deve ou não proibir venda de armas. Albuquerque podia ser em qualquer lugar – de fato, era a cidade de Estúpido Cupido (1976-1977), de Mário Prata. No início do capítulo, há um massacre: pai, mãe, irmãos e parentes do mocinho Ben Silver (Bruno Garcia) são mortos, e ele se torna um cavaleiro solitário em busca de vingança. Mas o sangue que correu na tela foi em vermelho 2D. A seqüência, um flashback do personagem depois de um close em seu olhar, foi toda em animação – alguém aí lembrou do massacre em desenho animado de Kill Bill? Primeira boa novidade, ainda que sem frescor original.

A segunda foi o contraste de luz. O deserto de Atacama, no Chile, serviu como paisagem árida da novela, com uma luz intensa e amarelo-alaranjado de fim de tarde e montanhas azuis ao fundo. Editado com as cenas gravadas no Rio e em Angra dos Reis, com locações rurais mais nubladas, mais úmidas e mais verdes provocou um estranhamento perto de se tornar um defeito. Já figurino e locações cenográficas ficaram impecáveis, graças aos exemplos que Hollywood legou.

Houve dois momentos risíveis, apesar de a graça ter sido abandonada no deserto na estréia. Primeiro com a bela Fernanda Lima, mais para durona de butique do que para ardida como pimenta. Com uma calça de couro justa ao léu jamais conseguiria dar chutes e socos nos bandidos – só com dublês mesmo. Ficou inverossímil ver suas mãozinhas delicadas derrubando brutamontes foras-da-lei, ou suas pernocas dando chutinhos no ar, ou empurrando uma porta de diligência contra o bandido com a força de uma gazela.

Outro momento cômico foi um auto-escracho. Guilherme Fontes faz o contador apropriadamente chamado Jeff Wall Street que rouba o dinheiro que conseguiu com a venda do gado do futuro sogro. É a tiração de sarro em cima dele mesmo, que nunca terminou o filme Chatô depois de ter conseguido financiamento público.

Com Billy The Kid e Jesse James disfarçados de mulher – e os dois debaixo do sotaque esperto e praiano de Evandro Mesquita e Kadu Moliterno – e com um Zorroh cabeleireiro de Sidney Magal pode estar a chave da comédia, tão cara ao horário e justamente o principal entrave da estréia. A experiência rural do diretor Waddington, que se resume a um remake de Cabocla, ainda não é credencial suficiente para encarar uma produção que só não tem mais chapéu, cavalos ou Sol do que América.

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