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O tatuador de Jesus


Fabio Berlinga
Do Diário do Grande ABC

04/11/2006 | 19:56


As fotos estão expostas num estúdio pequeno, em uma galeria no Centro de Santo André. Elas mostram pessoas que estampam na própria pele flores, animais, reproduções de retratos de grandes ídolos da música, como Bob Marley e Janis Joplin.

O estranho é ver que as fotos de meninas com as calcinhas pelo joelho para mostrar as virilhas tatuadas dividem espaço nas paredes com mensagens religiosas do tipo “Jesus é o Senhor”. Não existe nada de desrespeitoso na mistura, na opinião daquele que, ao longo de 20 anos de trabalho, foi responsável pelas tatuagens.

Renato Stoppa, 32 anos, 60% do corpo tatuado, roqueiro e evangélico, faz parte da terceira geração dos Stoppa, família que, segundo ele, é pioneira da arte de tatuar no Brasil, e abriu o primeiro estúdio da região, há 26 anos. “Dizem que somos o templo do Espírito Santo. Eu sou um templo colorido”, afirma.

Hoje, são cerca de 20 tatuadores na família espalhados pelo Brasil e outros países, como Estados Unidos, Holanda, Itália e Espanha.

O primeiro da família a desbravar o ainda pouco explorado mundo da tatuagem no Brasil foi o tio-avô de Renato, Luq Stoppa. Ele aprendeu a arte com um dinamarquês, por volta da década de 1950, e a usou para conhecer o mundo. “Ele tatuava marinheiros em troca da viagem e comida. Viajou o mundo todo assim”, conta, orgulhoso.

O trabalho nada tinha da sofisticação de hoje, com agulhas descartáveis, tintas especiais e desenhos exóticos. “Ele tatuava coisas simples, o que chamamos de tradicional: águias, dragões, borboletas, nada muito complicado.” Se a técnica e os desenhos eram convencionais, os materiais de trabalho chamavam atenção. “Usava aquela substância preta que as lulas e polvos soltam na água para espantar os predadores como nanquim para fazer os desenhos. Para colorir, tinta de casco de navio.” O Velho Luq, como era chamado em família, morreu aos 65 anos, de problemas cardíacos. Não sem antes criar uma nova geração de tatuadores.

Quando aportava no Brasil, o Velho Luq ensinava os mais novos. O sobrinho dele, Antônio Stoppa, hoje com 58 anos, foi um deles. No início dos anos 60, foi um dos primeiros a se profissionalizar no país: fabricava as próprias agulhas, já que naquele tempo o acesso a produtos importados era difícil. Em 1980, montou seu estúdio no Centro de Santo André, o primeiro do Grande ABC, segundo Renato.

Além da técnica de tatuar, Antônio herdou do tio o gosto por viajar. É verdade que ele não foi tão longe quanto o Velho Luq. Dois anos depois, deixou o sócio cuidando do estúdio na região e montou um segundo em Florianópolis, Santa Catarina. E foi lá que começou a história de Renato no mundo das tatuagens.

Ele foi ajudar o tio no estúdio. “Varria chão, atendia telefone, fazia de tudo”, relembra. Mas foi a habilidade com desenho que chamou a atenção do tio. “Acabei me transformando no desenhista da família. Como naquela época não existiam os decalques de hoje, eu desenhava no corpo da pessoa e meu tio tatuava por cima. Criei mais de cinco mil desenhos para ele.”

Curioso, ele não se contentou apenas com os contornos. “A primeira tatuagem que fiz foi um cavalo alado, em mim mesmo, escondido do meu tio. Quando ele viu, me deu uma bronca, mas gostou do resultado.” A partir daí, ele ganhou espaço no negócio do tio. “Quando chegava um cara sem dinheiro querendo tatuar, ele dizia: ‘Tem o meu sobrinho aí, ele está aprendendo, se quiser ele faz’. O pessoal ficava com medo, mas acabava fazendo.”

A confiança chegou a tal nível que ele tatuou o próprio tio. A tatuagem, que hoje estampa a parede do estúdio de Renato, não foi uma qualquer. Ele se diverte ao contar: “Foi um mamute, um elefante pré-histórico. As orelhas, os olhos, estão na virilha. A tromba você já pode imaginar onde ficou.” Em 1993, ele voltou para Santo André e abriu seu estúdio.

Ah, sim, ele é roqueiro e evangélico. Sua primeira banda, Os Manezinhos da Ilha, apesar de montada em Floripa, era a cara do Grande ABC. “A gente era punk. O povo estranhava: aquela coisa de praia, surf, e a gente de coturno, cabelo moicano. Só tocava Ramones, Ratos de Porão...”

Há cinco anos convertido, hoje, porém, ele se auto-denomina um Levita – músico de Deus, no jargão evangélico. Com sua nova banda, Os Missionários, deixou o som agressivo de lado e partiu para o pop/rock/gospel. Mas não se restringe aos templos evangélicos. Ele conta que já tocou em igrejas católicas e centros espíritas. “Não pregamos religião. Pregamos o amor de Jesus.”


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