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‘O Aviador’, campeão de indicações ao Oscar, estréia


Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

11/02/2005 | 12:17


Tentar comprimir O Aviador dentro da obra autoral de Martin Scorsese é tão sedutor quanto complicado. A porção de sedução fica por conta de posicionar esta cinebiografia do multimilionário Howard Hughes (1905-1976) nas perspectivas ideológicas do cineasta, habituado a fuçar na formação da cultura norte-americana mediante o declínio moral expresso em seus personagens. A complicação é que este filme não nasceu como projeto original do artista; Scorsese caiu de pára-quedas na direção, depois que Michael Mann (Colateral) declinou do posto.

Curiosamente, pode ser O Aviador o passaporte do realizador ítalo-americano, autor de Taxi Driver, Touro Indomável e Gangues de Nova York, rumo à galeria dos diretores oscarizados, que ele incrivelmente não freqüenta até o presente instante. Por falar em Oscar, o longa que estréia nesta sexta-feira em quatro salas da região é o campeão de indicações do ano, com 11 candidaturas.

Está entre os favoritos na categoria principal, de melhor filme, e em outras modalidades tem chances nada desprezíveis. Leonardo DiCaprio, ignorado quando do faraônico Titanic (1997), é um páreo a considerar com sua interpretação de Hughes, embora os astros – tanto os do firmamento quanto os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Holllywood – pareçam conspirar a favor de Jamie Foxx, de Ray. E Cate Blanchett dispara na frente na contenda entre as atrizes coadjuvantes. Com sua recriação de Katherine Hepburn, e daquela pose montada sobre palafitas emocionais, está com faca e queijo nas mãos.

A exemplo da filmografia recente de Scorsese, contabilizados aí Kundum e Gangues de Nova York, trata-se de um filme suntuoso – por isso mesmo o interesse do Oscar sobre ele. Uma suntuosidade que procura projetar visualmente a própria jornada épica de seu protagonista. Herdeiro de montantes incalculáveis, Howard Hughes mobilizou um êxodo particular ao deixar o Texas natal com a bússola apontada para Hollywood e Las Vegas. Lá instalado, produziu e dirigiu filmes, entre eles O Proscrito (1943) e Anjos do Inferno (1930), pioneiro do modo “guilherme-fontes” de fazer cinema, com orçamentos catastróficos e produção tão prolixa quanto conturbada; arquitetou e mandou construir projetos megalomaníacos de aeronaves como o Hércules, com capacidade para 750 passageiros; e bateu recordes de velocidade nas alturas, durante os anos 30.

De quebra, namorou algumas das mulheres mais exuberantes do cinema, como Kate Hepburn, Ava Gardner (interpretada por Kate Beckingsale) e Jean Harlow, encarnada pela roqueira Gwen Stefani, vocalista do No Doubt, em sua estréia cinematográfica.

Hughes foi daqueles personagens maiores que a carcaça da vida. Como tal, tinha suas imperfeições, como manifestações de transtornos obsessivos-compulsivos do tipo lavar as mãos até esfolá-las. Fora seu empenho maníaco de levar a cabo os elefantes-brancos alados que projetava e construía e que lhe custaram encrencas com o fisco dos Estados Unidos. Ao fim da vida, tornou-se um eremita, com direito a cabelos e barba à ZZ Top, recluso em seus próprios domínios, trancado em seu próprio castelo e urinando em garrafas dispostas em uma grande fileira.

No equilíbrio entre excentricidade e fragilidade é que se flagra o momento em que O Aviador deixa de ser um filme por encomenda para se tornar uma fita de Scorsese; em que deixa de ser um biopic (como é chamado o subgênero das cinebiografias) para reaparecer como um inquérito da civilização que imola as cordas vocais para entoar Star Spangled Banner (o hino nacional norte-americano).

Scorsese molda Howard Hughes de tal forma que o faz personagem-irmão do pugilista Jake La Motta de Touro Indomável e do taxista Travis Bickle de Taxi Driver. São figuras que envergam sob o peso do monolito moral da sociedade que os contorna, ícones de uma cultura baseada no incentivo à glória e na indiferença ao ordinário. Ao fomentar a megalomania dos projetos aeronáuticos de Hughes, com encomendas consideráveis de aviões, a sociedade procura sugar esse personagem monumental para fixar-se como potência tecnológica e política. Ao ignorar a doença consumada desse mesmo personagem – que chega a isolar-se fisicamente dessa sociedade –, pretende aniquilar o que considera um câncer cívico e moral para sua estrutura, descartar um elemento que contribuiu para sua consolidação, mas que agora incomoda sua solidez doutrinária. Tirem os andaimes, exibam o arranha-céu.

Já andaram dizendo por aí que O Aviador é um filme ruim. Balela das grandes. O longa pode não ser o Cidadão Kane pelo qual ansiavam muitos críticos, embora Scorsese usufrua de uma certa mecânica wellesiana para ponderar a grandeza social de um homem ao lado de traços desajustados de sua personalidade – a própria cena do estoque de urina no claustro de Hughes, e o efeito visual decorrente, calcifica essa influência. Mas ignorar simplesmente O Aviador é fechar os olhos para os questionamentos consistentes de um autor. Ou melhor, de um analista de sistemas políticos, sociais e econômicos.


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