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‘Os Maias’ lança trilha sonora para encantar


João Marcos Coelho
Especial para o Diário do Grande ABC

25/01/2001 | 18:07


Co-produção é sempre difícil, pois envolve universos culturais distintos e nem sempre compatíveis. Vista por este enfoque, não só a macrossérie, mas a trilha sonora de Os Maias, que chega às lojas este fim de semana, é um triunfo. De olho nos vários públicos, daqui e d’além-mar, a Rede Globo concebeu e realizou uma trilha em níveis distintos: do lado brasileiro, seis temas sinfônicos assinados pelo regente da nova Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), John Neschling, que assina ainda a música de um belo fado com letra de João Mendonça cantado por Dulce Pontes. E do lado português, duas vertentes: primeiro, a aposta na boa vendagem do CD, ancorada em dois dos quatro temas do grupo Madredeus; e quatro interlúdios instrumentais à la Jaquinho Morelenbaum assinados por André Sperling. Não se sabe por que, ficaram de fora dois dos maiores hits da trilha que só os que assistem à macrossérie podem curtir: são dois trechos célebres de Tristão e Isolda, de Wagner: Liebestod e parte de um Prelúdio.

É claro que o CD vai vender bem. Principalmente, por causa de dois temas interpretados pela hipnotizante Teresa Salgueiro, de belíssima voz: O Pastor e Haja o Que Houver, ambos assinados pelo líder dos Madredeus, Pedro Ayres Magalhães. Corre por fora, entretanto, o belo Fado de Neschling e João Mendonça cantado por Dulce Pontes.

Bem, depois das considerações, digamos, comerciais, vamos à análise da música propriamente dita. E aí Neschling, maestro, arranjador e compositor que já fez trilhas no passado, dá de goleada. É verdade que ele se limita a pastiches de excelente carpintaria da música sinfônica romântica, mas sua veia melódica não é nem um pouco desprezível. Pelo contrário. O Prelúdio causa impacto, tanto que está sendo utilizado como trilha de abertura da série.

As gravações foram realizadas em 16 de dezembro passado na Sala São Paulo, e reuniu 78 dos músicos da Osesp. Destaque para solos do spalla Cláudio Cruz no Prelúdio; do sax-soprano de Nailor ‘Proveta’ Azevedo e da clarineta de Edmilson Nery em Fado; e o violão de Jarbas Barbosa no comovente Tema da Infância.

Clássicos fatiados – Na realidade, a utilização da música clássica – principalmente a do período romântico do século 19 – confere uma grandeza mítica e épica a todo tipo de cena, mesmo a mais banal. Assim, quando se quer conferir nobreza às imagens, nada melhor do que uma imponente massa sinfônica.

Stanley Kubrick, o prestigiado diretor de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, viveu um episódio interessante que ilustra bem esta manipulação que se faz da música clássica no cinema e na TV. Ele utilizou como trilha provisória alguns temas eruditos, como a Valsa de Strauss e temas do compositor húngaro contemporâneo Gyorg Ligeti. Pois quando Alex North, emérito compositor de trilhas sonoras, mostrou-lhe sua proposta para o filme, Kubrick recusou, aboliu o intermediário e ficou com as peças clássicas.

Fatiar a música para comprimi-la e adequá-la à minutagem das cenas também é empobrecedor. É o que acontece com os trechos de Richard Wagner escolhidos para Os Maias. Tudo isso, porém, não empana o brilho nem a qualidade de uma trilha sonora que se diferencia no meio de tanto lixo que nos impõe diariamente a TV – e muitas vezes o cinema mais comercial. Vale a pena comprar o disco, começar a se encantar com Teresa e o Madredeus e terminar curtindo as incursões do maestro John Neschling como compositor.



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‘Os Maias’ lança trilha sonora para encantar

João Marcos Coelho
Especial para o Diário do Grande ABC

25/01/2001 | 18:07


Co-produção é sempre difícil, pois envolve universos culturais distintos e nem sempre compatíveis. Vista por este enfoque, não só a macrossérie, mas a trilha sonora de Os Maias, que chega às lojas este fim de semana, é um triunfo. De olho nos vários públicos, daqui e d’além-mar, a Rede Globo concebeu e realizou uma trilha em níveis distintos: do lado brasileiro, seis temas sinfônicos assinados pelo regente da nova Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), John Neschling, que assina ainda a música de um belo fado com letra de João Mendonça cantado por Dulce Pontes. E do lado português, duas vertentes: primeiro, a aposta na boa vendagem do CD, ancorada em dois dos quatro temas do grupo Madredeus; e quatro interlúdios instrumentais à la Jaquinho Morelenbaum assinados por André Sperling. Não se sabe por que, ficaram de fora dois dos maiores hits da trilha que só os que assistem à macrossérie podem curtir: são dois trechos célebres de Tristão e Isolda, de Wagner: Liebestod e parte de um Prelúdio.

É claro que o CD vai vender bem. Principalmente, por causa de dois temas interpretados pela hipnotizante Teresa Salgueiro, de belíssima voz: O Pastor e Haja o Que Houver, ambos assinados pelo líder dos Madredeus, Pedro Ayres Magalhães. Corre por fora, entretanto, o belo Fado de Neschling e João Mendonça cantado por Dulce Pontes.

Bem, depois das considerações, digamos, comerciais, vamos à análise da música propriamente dita. E aí Neschling, maestro, arranjador e compositor que já fez trilhas no passado, dá de goleada. É verdade que ele se limita a pastiches de excelente carpintaria da música sinfônica romântica, mas sua veia melódica não é nem um pouco desprezível. Pelo contrário. O Prelúdio causa impacto, tanto que está sendo utilizado como trilha de abertura da série.

As gravações foram realizadas em 16 de dezembro passado na Sala São Paulo, e reuniu 78 dos músicos da Osesp. Destaque para solos do spalla Cláudio Cruz no Prelúdio; do sax-soprano de Nailor ‘Proveta’ Azevedo e da clarineta de Edmilson Nery em Fado; e o violão de Jarbas Barbosa no comovente Tema da Infância.

Clássicos fatiados – Na realidade, a utilização da música clássica – principalmente a do período romântico do século 19 – confere uma grandeza mítica e épica a todo tipo de cena, mesmo a mais banal. Assim, quando se quer conferir nobreza às imagens, nada melhor do que uma imponente massa sinfônica.

Stanley Kubrick, o prestigiado diretor de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, viveu um episódio interessante que ilustra bem esta manipulação que se faz da música clássica no cinema e na TV. Ele utilizou como trilha provisória alguns temas eruditos, como a Valsa de Strauss e temas do compositor húngaro contemporâneo Gyorg Ligeti. Pois quando Alex North, emérito compositor de trilhas sonoras, mostrou-lhe sua proposta para o filme, Kubrick recusou, aboliu o intermediário e ficou com as peças clássicas.

Fatiar a música para comprimi-la e adequá-la à minutagem das cenas também é empobrecedor. É o que acontece com os trechos de Richard Wagner escolhidos para Os Maias. Tudo isso, porém, não empana o brilho nem a qualidade de uma trilha sonora que se diferencia no meio de tanto lixo que nos impõe diariamente a TV – e muitas vezes o cinema mais comercial. Vale a pena comprar o disco, começar a se encantar com Teresa e o Madredeus e terminar curtindo as incursões do maestro John Neschling como compositor.

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