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Vozes da Guerra


Sara Saar
Do Diário do Grande ABC

29/11/2010 | 07:00


Faz 15 anos que o conflito armado acabou, mas o território ainda é dividido e os povos cultivam a diferença. É o que constata Bruno Marfinati no recém-lançado título 'Filhos de Sarajevo - Convivendo com os Fantasmas da Guerra' (Mundo Editorial, R$ 25,90, 144 páginas).

O jornalista de São Bernardo documenta, no livro-reportagem, a Guerra da Bósnia, considerada a luta armada mais sangrenta em solo europeu, desde a Segunda Guerra Mundial.

Palco do principal conflito na desintegração da Iugoslávia, o país viveu ações de limpeza étnica a partir de 1992, quando a emancipação foi aprovada em plebiscito por croatas (católicos) e bósnio-mulçumanos, mas recusada pela minoria sérvia (cristã ortodoxa).

O episódio contemporâneo que durou cinco anos e contabilizou 200 mil mortos tem abusos denunciados na publicação, que concede enfoque à capital Sarajevo. "O massacre contra as crianças e a sociedade civil, em geral, é imperdoável, seja em nome do que for: nacionalismo, ambições políticas ou ambições pessoais", frisa Marfinati.

A jornada de dez dias pela Sarajevo do pós-guerra é descrita com detalhes. Em primeira pessoa, no presente do indicativo, a obra convida à uma viagem virtual. "A ideia é que o leitor sinta como se estivesse ao meu lado", afirma.

A narrativa ganha força com histórias de vida. São relatos de adultos que viveram a guerra quando crianças. Lembranças revelam o impacto da violência no desenvolvimento físico e mental de milhares.

Exemplo é o funcionário administrativo Admir. Em 1994, aos 11 anos, teve uma perna amputada depois de atingido por granadas enquanto brincava em frente de casa. "Meu grande sonho é ter de volta a perna esquerda, que perdi durante a guerra", deseja ele, que joga basquete em cadeira de rodas.

Jovens que nasceram no começo ou um pouco antes do combate também tiveram voz no livro. Eles não se lembram com detalhes como foi viver durante o conflito, mas alguns fatos não foram esquecidos.

Caso de Tuzla, nascida em 1991, cujo pai morreu com tiro na cabeça. "Sinto muita falta do meu pai e não tive uma infância normal. Fiquei durante todo o tempo da guerra no porão", confidencia.

Quem nasceu depois do episódio também teve direito de expressão. "Para eles, a guerra é história. Mas nem por isso deixam de sofrer as consequências", aponta Marfinati, cuja proposta é mostrar como pensa a nova geração.

Um problema grave foi observado. "Gerações novas são influenciadas por antigas. É notável quando os pais são separatistas", afirma. Para Marfinati, o país é mais tolerante, embora ainda exista o sentimento nacionalista. "Não vejo solução saudável a curto ou médio prazo", lamenta o escritor, que aponta como imposição o estado vinculado à religiosidade.

Crianças mostram otimismo. Adjin sonha que possam construir um país melhor. "Certamente somos mais criativos e cheios de energia, mas muitas crianças cresceram sob o lema de odiar aqueles que são diferentes", ressalta.

O momento que mais impressionou Marfinati foi a visita a um dos orfanatos. "As crianças são abandonadas pela família. Os pais morreram ou não têm condições psicológicas de cuidar", revela o jornalista. E recorda: "Os pequenos têm crises. Outros não sabem o porquê de estarem lá".

Enquanto alguns se sentem heróis por terem sobrevivido, outros não querem falar sobre o episódio. E a posição destes também foi respeitada. "Preferi perder entrevistas do que deixar pessoas constrangidas diante de mim", aponta Marfinati, que ainda contou com a colaboração de um intérprete, quando os bate-papos não eram feitos em inglês ou italiano.

 



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