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Rachas nas barbas das autoridades


Artur Rodrigues
Especial para o Diário

17/10/2004 | 14:04


O farol abre. Um Fusca prata e uma Variant roxa saem cantando os pneus. O Fusca reduz a velocidade para não se chocar com um caminhão. A Variant segue vitoriosa, desacelerando para não ser flagrada pelo radar, 100 m adiante. Num posto de gasolina, dezenas de espectadores aplaudem, gritam e tomam cerveja, enquanto esperam o próximo pega.

A cena aconteceu numa sexta-feira, na avenida dos Estados, em Santo André, ponto de encontro tradicional para os praticantes e admiradores dos rachas. Proibida, a modalidade também é praticada com freqüência na avenida Portugal e na rua Gonçalo Fernandes, no Jardim Bela Vista, na mesma cidade. De acordo com o CTB (Código de Trânsito Brasileiro), quem é flagrado praticando rachas, paga multa gravíssima (valor de 180 Ufirs), multiplicada por três, além de ter o carro apreendido e a carteira de habilitação suspensa ou definitivamente caçada.

O operador de telemarketing, D.A., 22 anos, diz que pratica rachas desde os 18 anos e que estreou na avenida dos Estados. Na última corrida, o motor do Fusca prata 80 não agüentou a velocidade. “Mas é só arrumar e o carro fica pronto para outra”, disse. O medo de ferir a si próprio ou aos outros com as manobras arriscadas nem passa pela cabeça de D.A.. “Se for para acontecer alguma coisa de ruim, acontece até com o carro parado”, acredita.

Na avenida dos Estados, os espectadores costumam ficar enfileirados, na calçada da avenida e em um posto de gasolina. A platéia é parte fundamental para que os pegas aconteçam. “Sem ninguém para ver, não tem racha”, afirmou um dos praticantes, que não quis se identificar.

A presença da polícia parece não impedir que os pegas aconteçam. Durante as duas horas em que a reportagem do Diário ficou na avenida dos Estados, uma base comunitária móvel, da Polícia Militar, estacionada a menos de 50 m da largada das corridas, não abordou nenhum dos motoristas. Os rachas continuaram noite afora.

Portugal – Muda o cenário. No Jardim Bela Vista, a brincadeira é ainda mais perigosa. As corridas começam na avenida Portugal e terminam na rua Gonçalo Fernandes. Como a rua é estreita, cada ultrapassagem obriga que um dos carros trafegue na contramão. A contravenção é praticada sem a menor cerimônia.

Os motoqueiros não ficam de fora da farra: vão e voltam empinando as motocicletas. Alguns motoristas queimam os pneus, acelerando o carro com o freio de mão puxado, dentro dos dois postos de gasolina que ficam no local. No intervalo das corridas, muitos dos praticantes ingerem bebidas alcoólicas.

Os dois postos e as calçadas do local costumam ficar, às sextas e sábados, tomados por jovens. O assunto das conversas, animadas à base de muita cerveja, é quase sempre o mesmo: carros turbinados, aspirados ou nitrados.

Os muros das casas da vizinhança costumam servir de arquibancada para alguns. Dali, a visão é privilegiada: é possível enxergar os carros até o fim da rua Gonçalo Fernandes, onde acabam as corridas.

Atrás de um dos muros, mora a dona de casa Dalva Lunardi, 55 anos. “Ouço o ronco dos motores do meu quarto. É um inferno. Uma vez, um motoqueiro bateu no meu portão”, conta Dalva, que diz já estar cansada de chamar a polícia e não ver seu problema solucionado. “Eles vêm, dão uma volta, todo mundo pára de correr. Depois que a polícia sai, começa tudo novamante”, relata.

Anti-Racha – A polícia admite que tem dificuldades para acompanhar a velocidade dos motoristas que praticam os pegas. “Quando vamos para a avenida Portugal, eles vão para a avenida dos Estados, e vice-versa”, relata o major Carlos Benedito Carvalho Martins, do 10º Batalhão da Polícia Militar. No entanto, o major afirma que a polícia tem feito esforços para coibir esse tipo de ocorrência. “Todas as sextas e sábados, cerca de 20 homens percorrem os locais onde os rachas costumam acontecer”, informou.

Para eliminar definitivamente os rachas em Santo André, a polícia pretende mudar o seu modo de agir. “Vamos usar outro modus operandi. Pretendemos filmar os freqüentadores desse tipo de aglomeração, fazendo um trabalho mais investigativo. E, por outro lado, aumentar o número de homens e viaturas nas operações anti-racha”, afirmou o major.

Apesar de a responsabilidade por esse tipo de ocorrência ser da PM, a EPT (Empresa Pública de Transporte e Trânsito) promete colocar um radar no trecho da avenida dos Estados onde os pegas acontecem. Além disso, a EPT diz que já trabalha em parceria com a PM. “A gente colabora com todo material que a polícia precisa nessas batidas: cones, cavaletes, faixas, por exemplo”, informou o superintendente da EPT, Edilson Factori.



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