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Cigarro: suicídio
em câmera lenta


Marcela Munhoz
Do Diário do Grande ABC

29/05/2011 | 07:00


Muito se fala em maconha, crack e cocaína, mas a chave da porta de entrada para essas e outras drogas vem em forma de garrafas de bebidas e caixinhas de cigarro, vendidos livremente por aí. O álcool e o tabaco são a primeira e a segunda droga, respectivamente, mais consumidas no mundo e, consequentemente, as que mais matam.

Falando especificamente do cigarro, estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelam que a cada ano a droga é responsável pela morte de 5 milhões de pessoas, muito mais do que as guerras e epidemias. Calcula-se que em 2030 serão 8 milhões de vítimas.

O assustador é que muita gente acredita que fumar de vez em quando não dá em nada. Aí está o perigo. "Parcela da população tem gene que facilita a dependência desde que usa pela primeira vez. E isso acontece na adolescência e até na infância", explica Adriano Guazzelli, pneumologista e coordenador do Ambulatório de Combate ao Tabagismo da Faculdade de Medicina do ABC.

Os números comprovam: 90% dos fumantes começaram antes dos 18 anos. Ainda, segundo a OMS, um em cada quatro fumantes de 13 a 15 anos experimentou antes dos 10 anos! "Quanto mais cedo começa, mais cedo as consequências aparecem", alerta a psicóloga Silvia Cury Ismael, coordenadora dos Programas de Controle do Fumo do H-COR Hospital do Coração.

CURIOSIDADE

Mas por que uma coisa tão ruim é tão comum? Primeiro porque somos curiosos por natureza, segundo porque é muito fácil conseguir cigarro. Foi para saciar a curiosidade e por que o cigarro do pai estava em cima da mesa que Renato*, 16 anos, tragou pela primeira vez aos 14. "Queria imitá-lo. Na primeira vez, não gostei, mas fui me acostumando", conta o menino, que fuma cerca de dez cigarros por dia.

Recente pesquisa feita pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) apontou os motivos que levam a galera a dar a primeira tragada: as meninas consomem mais em festas e baladas; os meninos são mais influenciados por amigos ou são levados a fumar por um trauma, como a morte dos pais; o exemplo de pais fumantes influencia ambos os sexos. Foi na balada que Tainá*, 18, começou a fumar. "Queria parecer mais adulta e fazer parte da galera. Não consegui mais parar."

 

Chaminé ambulante - Para quem fuma, o papo é chato pra caramba, afinal, ninguém gosta de assumir que está fazendo mal a si mesmo conscientemente. Mas antes de virar a página, é melhor encarar o fato: fumante é, sim, viciado.

"O adolescente acredita que pode parar de fumar a hora que quiser e não vê consequências a curto prazo; por isso, não procura ajuda", afirma o pneumologista Adriano Guazzelli que, em oito anos de atendimento, vez ou outra recebeu adolescentes. "Vieram só uma vez porque os pais obrigaram. Depois nunca mais apareceram."

Mas por que é tão difícil parar de fumar? Após três meses de cigarro, em média, o organismo já está viciado. O culpado disso é a nicotina. Após tragar, a substância é absorvida pelos pulmões e cai na corrente sanguínea. De sete a 20 segundos depois, chega ao cérebro. Lá estimula a produção de substâncias que causam prazer, como serotonina, noradrenalina e dopamina. Com o tempo, o cérebro entende que precisa da nicotina para funcionar adequadamente. Se fica sem, o organismo logo sente.

O bom é que o corpo tem a incrível característica de voltar a ser saudável após um tempo de fumaça, desde que não existam lesões mais sérias. Sempre é hora de parar de fumar, por mais difícil que seja.

 

Com sabor e narguilé fazem mal igual - Partindo do príncipio de que nenhuma fumaça faz bem ao organismo, chega-se à conclusão que cigarros com sabor (em geral, de cravo e menta), narguilé, charuto e cachimbo também prejudicam. "O sabor só disfarça o gosto ruim; e em uma hora de narguilé, aspira-se muito mais fumaça, nicotina, monóxido de carbono e carvão, do que o cigarro", compara o pneumologista Guazzelli.

A oferta é grande. O número de marcas com sabor dobrou nos últimos três anos. Deve ser o resultado de que 45% dos adolescentes entre 13 e 15 anos preferem este tipo, segundo o Inca (Instituto Nacional do Câncer). Assim como é proibido vender cigarro para menores de 18 anos, desde outubro de 2009 menores também não podem comprar narguilé.

No caso do narguilé, há todo um ritual envolvido. "Só fumo quando estou com amigos na casa de alguém ou em um churrasco. Antes da lei que proíbe o uso em lugares fechados, carregava-o comigo", conta Rafael*, 19 anos, que também usa charuto. "É mais por me sentir fazendo parte de um grupo, do que pela necessidade química."

Segundo pesquisa, o que mais complica no uso do narguilé é a quantidade de horas em que é utilizado. Um cigarro, em geral, é consumido em oito minutos, entre oito e 12 baforadas. Em cada sessão de 20 a 80 minutos de narguilé são de 50 a 200 baforadas. Em uma roda com seis pessoas fumando por uma hora, calcula-se que o consumo seja equivalente a 100 cigarros. Diferentemente do que se imagina, a água que circula no aparelho só retém 5% das substâncias.

 

Fumante é deixado de lado - Após a Lei Antifumo - que começou a valer em 2009 em São Paulo e proíbe fumar em ambientes fechados de uso coletivo, como bar, restaurante, casa noturna, entre outros locais -, o fumante tem se desdobrado para manter o vício.

Muitos relatam que estão sendo olhados de maneira diferente e se sentem mais isolados. "É melhor. Não gosto de incomodar os outros. Até eu me sinto mal por cheirar tabaco", diz André*, 23 anos.

Se a lei já valesse quando tinha 12 anos, talvez ele não tivesse experimentado. "Fumei porque queria imitar Anita, da série Presença de Anita (que passou em 2001, na Globo). Peguei o cigarro da minha mãe e experimentei." Logo depois, tornou-se proibida a propaganda do produto no Brasil e seu uso em novelas, séries, filmes e programas de TV.

André conta que voltou a fumar aos 16 anos, porque queria se sentir mais adulto. "Ajudava também a ocupar minha mente, minha rotina. Acabou virando hábito. Desde aquela época, não passei um dia sem colocar um cigarro na boca. Fumo sempre depois de comer", diz.

Após sete anos de fumaça no pulmão, o garoto já sente os efeitos. "Não consigo subir ladeiras e nadar sem ficar ofegante. Até quero diminuir, mas não parar", diz André, que fuma 12 cigarros por dia e quer reduzir para três.

 

E quando é sem querer? - O fumante toma a decisão de colocar o cigarro na boca e as consequências são problema dele, certo? Errado se faz isso perto dos outros. Bárbara*, 15 anos, odeia cigarro. Os pais fumam e ela convive com a fumaça desde que nasceu. "Como tenho problemas respiratórios, não posso chegar perto", conta a menina, que nunca sentiu vontade de experimentar a droga. "Não suporto nem o cheiro."

Bárbara diz que sempre explica as consequências do fumo para os pais e até briga por isso, mas eles não conseguem parar. "Minha mãe até já tentou, mas logo voltou." A estudante vai aproveitar que terça-feira (dia 31) é o Dia Mundial contra o Tabaco para reforçar o pedido.

Calcula-se que 600 mil pessoas morrem por ano em decorrência da inalação da fumaça de cigarros de parentes, amigos ou colegas de trabalho. De acordo com a OMS, respirar a fumaça do cigarro do outro já é o suficiente para desenvolver problemas respiratórios e doenças mais graves, como câncer de pulmão e cerebral. Além de apresentar alergias, ataques de asma e bronquite, irritação nos olhos e nas vias respiratórias.

A inalação da fumaça do cigarro por grávidas é ainda mais perigoso porque aumenta as chances de abortos espontâneos e nascimento de crianças com baixo peso e doenças respiratórias.

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.



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