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Museu da Língua Portuguesa é destruído por incêndio

Ricardo Trida/DGABC  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Incidente deixou uma vítima fatal; espaço deve ser
restaurado por meio de parceria com iniciativa privada


Daniel Macário
Do Diário do Grande ABC

22/12/2015 | 07:00


Incêndio de grandes proporções atingiu na tarde de ontem, por volta das 15h30, o Museu da Língua Portuguesa, na Luz, região central da Capital. Um brigadista que trabalhava no local morreu após sofrer parada cardiorrespiratória. Segundo o Corpo de Bombeiros, as causas do incidente ainda são desconhecidas.

O fogo, que foi controlado por volta das 19h, destruiu boa parte do edifício. Sessenta viaturas e 102 bombeiros atuaram no combate ao incêndio.

Segundo o comandante do Corpo de Bombeiros na Capital, Rogério Bernardes Duarte, o local permanecerá interditado por tempo indeterminado. “Tivemos perda quase completa. A estrutura ainda apresenta risco de queda de parte do telhado, mas o prédio em si é muito difícil (cair).”

Única vítima do incidente, o brigadista do museu, Ronaldo Pereira, foi localizado pela equipe de resgate ainda no início dos trabalhos. “Quando ele foi encontrado, já estava em estado de parada cardiorrespiratória. Bombeiros tentaram reanimá-lo, mas ele morreu no hospital”, relatou Duarte.

O museu, que estava fechado para o público ontem, não tinha aval do Corpo de Bombeiros para funcionar. Segundo o comandante da corporação, o prédio estava “em processo para regularização.”

Em nota, a prefeitura de São Paulo informou que o espaço tem pedido de alvará de funcionamento em análise, autuado no dia 6 de agosto. A única pendência é a apresentação da documentação da ID Brasil Cultura Educação e Esporte, responsável pelo uso.

Conforme o secretário de Cultura do Estado, Marcelo Mattos Araújo, o conteúdo histórico foi preservado. “Todo o acervo do museu é digital, portanto, permite que tudo seja refeito após essa tragédia. Agora nosso maior compromisso é a restauração do prédio para que possa ser reaberto o mais breve possível”, disse o chefe da Pasta, que ainda lamentou a morte do funcionário. “Nossa maior tristeza no momento não é com a perda do museu, mas sim com a morte do brigadista Ronaldo Pereira.”

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) esteve no local durante o combate ao incêndio e garantiu ação imediata para reconstrução do museu. “Trata-se de um dos museus mais visitados, que traduz a alma do povo brasileiro, e será reconstruído. Vamos imediatamente tomar todas as providências, unir a iniciativa privada e nossos parceiros para garantir isso.”

O design Edson Jorge, 32 anos, passava pelo local no momento do incêndio e ficou emocionado. “Visitei o museu no fim do ano passado com meus dois filhos, de 5 e 10 anos. É um patrimônio histórico com conteúdo brilhante. É triste ver isso acontecer.”

A administração do local também lamentou o incidente. “Estamos profundamente abalados com o incêndio que atingiu o Museu da Língua Portuguesa. Neste momento, agradecemos a todos os nossos funcionários e equipes do Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, Guarda Civil Metropolitana e Defesa Civil, que não mediram esforços na tentativa de salvaguardar o edifício.” A nota ainda ressalta que o museu cumpria regularmente com todas as rotinas de segurança e contava com seguro contra incêndio (de R$ 45 milhões).

Em decorrência do incidente, a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), fechou a Estação Luz. Os trens das linhas 11-Coral, e 7-Rubi foram afetados. A migração de usuários para o Metrô causou transtornos na Linha 3-Vermelha. “O vagão estava bem mais lotado que um dia normal, principalmente depois que ele parou na Estação Luz”, relatou o bancário de São Caetano Iago Abreu, 27.

Inaugurado no dia 20 de março de 2006, o museu era um dos mais visitados da América Latina, com público anual que ultrapassa 350 mil pessoas. Dedicado à valorização e à difusão do idioma, contava com mais de 4.000 m² distribuído em três andares e estava localizado em edifício do século 19, que remetia ao Big Ben, famoso relógio de Londres.

Especialistas ressaltam dinamismo

No Grande ABC, especialistas destacam a inovação do Museu da Língua Portuguesa, com seu vasto e rico acervo tecnológico. “O espaço não tinha sabor de museu, era uma coisa viva, didática”, falou o poeta e escritor de Santo André Zhô Bertholini. Visitante frequente das exposições abrigadas no local, ele ressalta o prazer de poder interagir com as obras. “Na exposição da Clarice Lispector, por exemplo, era gostoso ver a reação das pessoas. Elas ficavam extasiadas ao abrir as gavetas (onde estavam cartas, manuscritos e cadernos de notas da escritora), como se estivessem adentrando à privacidade dela. Era uma celebração em poder conhecer aquelas coisas”, disse ele.

O mestre em museologia e coordenador e curador da Casa do Olhar Luiz Sacilotto, também no município andreense, Nilo Mattos de Almeida, salientou que o espaço redefiniu a questão de museu. “Trouxe novas tecnologias para uma área museológica, que, na maioria das vezes, é associada à coisa antiga, fora da sociedade. E, de repente, com um conceito novo, a proposta de interação criou empatia com o público e os gestores.”

Com a recuperação predial – já que o conteúdo, por ser virtual, está preservado –, Almeida acredita que o equipamento voltará com ainda mais recursos tecnológicos. “Acho que o sentimento será de retornar com mais vigor.”

A professora Renata Stort, 37 anos, de São Bernardo, visitou o Museu da Língua Portuguesa no domingo. “Não acreditei quando soube do incêndio. A estrutura estava impecável, o que pode ter causado isso?”, indagou. Para ela, o local deveria ser parada obrigatória e integrante do currículo escolar. “Lá tem história sobre a origem, evolução e mudança da língua. É um espaço de arte e cultura, mas também de formação e informação, tanto para alunos como para educadores.”

Casa da Palavra, em Santo André, estava com ação em andamento

Parceria entre a Casa da Palavra Mário Quintana, espaço voltado ao atendimento dos apreciadores e produtores da literatura em Santo André, e o Museu da Língua Portuguesa estava em andamento, segundo a coordenadora de Linguagem da Casa da Palavra, Rosana Banharoli. O propósito seria promover ações de difusão literária e visitas técnicas.

“Tanto a casa quanto o museu tem em seu escopo parcerias entre equipamentos culturais”, disse Rosana, completando. “Já atuamos juntos na divulgação da FliParanapiacaba (Feira Literária de Paranapiacaba), na qual a equipe do museu realizou leituras de poemas de Hilda Hilst nos alto-falantes da Estação Luz, antes de o trem turístico sair”, conta. A ocasião lembrada por ela ocorreu em setembro de 2014, na primeira edição da FliParanapiacaba, que homenageou a poeta brasileira, considerada uma das maiores escritoras em Língua Portuguesa do século 20. (colaborou Vinícius Castelli) 



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