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O que é que tem ali?

Em meio a correria do cotidiano, o retorno para casa e o bate-papo...


Carlos Ferrari

15/12/2015 | 07:00


Em meio a correria do cotidiano, o retorno para casa e o bate-papo sem pressa de Paula e Cristina tornavam leve os mais de 30 minutos de caminhada entre a grande fábrica de peças automotivas onde as duas trabalhavam e o bairro tido por muitos como distante, porém, para as amigas, o mais perto possível daquilo que muitos chamam de aconchego do lar. Após tomar uma água de coco na barraca do Zeca, as duas ganharam fôlego e seguiram a passos largos, continuando a conversa iniciada ainda no trabalho sobre o futuro dos filhos, vez ou outra sendo interrompidas por cenas e promoções que saltavam aos olhos mesmo que não quisessem.

Paula contava que a filha Ana poderia seguir carreira na Saúde, pois ela própria sempre sonhou com o mundo da enfermagem. Cristina queria ver o filho estudando, não importava o que fosse. Ela repetia sempre que esse seria o único caminho para que o moleque pudesse ter uma vida melhor e mais tranquila que a dela e do marido. Depois de cruzar o calçadão repleto de lojas com atrativos, que a todo tempo se transformavam em pequenas paradas das amigas para especular os preços, Paula e Cristina viraram à direita e seguiram rumo à Avenida Loas. Tratava-se de uma grande via, com subida difícil de vencer, mas que valia a pena ser percorrida, pois levava até a Praça da Cidadania, um espaço arejado, repleto de árvores, pássaros e pessoas que reconheciam naquele lugar o melhor ponto de encontro da comunidade.

Na altura do número 1.993, Cristina mostrou para a amiga um prédio laranja com várias crianças, jovens e familiares chegando e saindo. “Olha lá, o Scolari vem sempre aí.” Por mais que fosse comum, Paula sempre ficava incomodada quando ouvia o nome do afilhado, preferia chamar o guri pelo apelido de Larinho, para evitar ainda mais bulling e constrangimentos. A mãe e o pai apaixonados por futebol decidiram homenagear o técnico da seleção brasileira campeã de 2002, ano em que o garoto nasceu. Como Luis Felipe ficaria muito óbvio, segundo Paula, o maridão Augusto decidiu inovar. Foi então que optaram por Scolari, mas aproveitaram para também reverenciar o Fenômeno: Scolari Ronaldo de Souza – uma pena não terem previsto os 7 a 1, 12 anos depois.

“O que que tem ali Cristina?”

“O nome é serviço de convivência e fortalecimento de vínculos! Nossa, demorei para guardar isso menina, e foi o povo lá do Cras que recomendou no dia que fui lá para conversar sobre o Larinho”. Cristina continuou: “Depois que ele começou a vir aí, também já fiz essa pergunta algumas vezes e cada vez é uma resposta.” Paula, surpresa, questionou: “Eita, como assim?”

Cristina respondeu: “Pois é. Quando perguntei pela primeira vez, ele disse que era respeito, pois estavam fazendo uma conversa sobre os nomes de cada menina e menino.”

“Nossa, como assim?” perguntou Paula. “Pois é, conversaram entre eles, saíram para assuntar nos comércios da região, foram até na igreja e no centro do Pai Lorival. O Scolari disse que mesmo reconhecendo que era diferente, todo mundo passou a respeitar o nome dele.”

“Uai Cristina, ainda não entendi o que realmente ele vai fazer lá, fica só falando de nome? “

“Imagina, diz ele que lá também tem desenvolvimento da autonomia. Você acredita que eles vão conversar com os vereadores, já foram na associação comercial, e estão fazendo com a gente, das famílias, umas conversas bacanas sobre nossos direitos. Os meninos estão ensinando a gente, comadre!”

Cristina de repente parou de caminhar, olhou reflexiva para o prédio laranja, que a essas alturas já havia ficado um pouco para trás, e falou, um pouco mais baixo, “Acho que agora eu já sei o que é que tem ali!”

“Então me diga mulher!”, disse Paula, sorridente, já imaginando procurar o Cras para ver se Ana também poderia começar a frequentar o tal serviço de........, e já não lembrava mais o nome completo.

“Ali tem vida, comadre! Os meninos aprendem jogar bola lá na quadra do clube do bairro, estão começando a tocar instrumento com a banda da igreja, estudam muito na escola e, chegando ali, vivem e aprendem a viver. O bom é que fazem isso tudo com as famílias e a comunidade.”

Paula ficou em silêncio por alguns minutos e quando estavam chegando na praça, decidiram sentar para tomar um ar. A mãe da Ana retomou a conversa, meio afirmando meio perguntando, “Caramba, comadre, que coisa boa se tivesse esse tal serviço no nosso tempo.”

“É verdade, minha amiga, acho que muitos amigos não seriam perdidos por besteira, uns preconceitos sem sentido, brincadeiras maldosas, umas ideias velhas que a turma só ficava repetindo, sem contar os lugares e as pessoas que a gente poderia ter visto com o olhar de criança, sem precisar crescer para chegar até lá. O Scolari, uma vez, disse para o pai que descobriu lá no serviço que a cidade é feita para todos, e que não tem lugar para rico e pobre. Lá no serviço tem meninos de todas as condições sociais, vai até criança com deficiência, é impressionante. Eles foram no teatro e agora estão querendo fazer uma peça.”

Paula levantou e convocou a amiga: “Então vamos seguir para casa. Quero ainda hoje ir lá no Cras para matricular a Aninha nesse lugar. Minha menina merece viver e conviver mais e melhor.”

* Carlos Ferrari é presidente da Avape (Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência), faz parte da diretoria executiva da ONCB (Organização Nacional de Cegos do Brasil) e é atual integrante do CNS (Conselho Nacional de Saúde).
 



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O que é que tem ali?

Em meio a correria do cotidiano, o retorno para casa e o bate-papo...

Carlos Ferrari

15/12/2015 | 07:00


Em meio a correria do cotidiano, o retorno para casa e o bate-papo sem pressa de Paula e Cristina tornavam leve os mais de 30 minutos de caminhada entre a grande fábrica de peças automotivas onde as duas trabalhavam e o bairro tido por muitos como distante, porém, para as amigas, o mais perto possível daquilo que muitos chamam de aconchego do lar. Após tomar uma água de coco na barraca do Zeca, as duas ganharam fôlego e seguiram a passos largos, continuando a conversa iniciada ainda no trabalho sobre o futuro dos filhos, vez ou outra sendo interrompidas por cenas e promoções que saltavam aos olhos mesmo que não quisessem.

Paula contava que a filha Ana poderia seguir carreira na Saúde, pois ela própria sempre sonhou com o mundo da enfermagem. Cristina queria ver o filho estudando, não importava o que fosse. Ela repetia sempre que esse seria o único caminho para que o moleque pudesse ter uma vida melhor e mais tranquila que a dela e do marido. Depois de cruzar o calçadão repleto de lojas com atrativos, que a todo tempo se transformavam em pequenas paradas das amigas para especular os preços, Paula e Cristina viraram à direita e seguiram rumo à Avenida Loas. Tratava-se de uma grande via, com subida difícil de vencer, mas que valia a pena ser percorrida, pois levava até a Praça da Cidadania, um espaço arejado, repleto de árvores, pássaros e pessoas que reconheciam naquele lugar o melhor ponto de encontro da comunidade.

Na altura do número 1.993, Cristina mostrou para a amiga um prédio laranja com várias crianças, jovens e familiares chegando e saindo. “Olha lá, o Scolari vem sempre aí.” Por mais que fosse comum, Paula sempre ficava incomodada quando ouvia o nome do afilhado, preferia chamar o guri pelo apelido de Larinho, para evitar ainda mais bulling e constrangimentos. A mãe e o pai apaixonados por futebol decidiram homenagear o técnico da seleção brasileira campeã de 2002, ano em que o garoto nasceu. Como Luis Felipe ficaria muito óbvio, segundo Paula, o maridão Augusto decidiu inovar. Foi então que optaram por Scolari, mas aproveitaram para também reverenciar o Fenômeno: Scolari Ronaldo de Souza – uma pena não terem previsto os 7 a 1, 12 anos depois.

“O que que tem ali Cristina?”

“O nome é serviço de convivência e fortalecimento de vínculos! Nossa, demorei para guardar isso menina, e foi o povo lá do Cras que recomendou no dia que fui lá para conversar sobre o Larinho”. Cristina continuou: “Depois que ele começou a vir aí, também já fiz essa pergunta algumas vezes e cada vez é uma resposta.” Paula, surpresa, questionou: “Eita, como assim?”

Cristina respondeu: “Pois é. Quando perguntei pela primeira vez, ele disse que era respeito, pois estavam fazendo uma conversa sobre os nomes de cada menina e menino.”

“Nossa, como assim?” perguntou Paula. “Pois é, conversaram entre eles, saíram para assuntar nos comércios da região, foram até na igreja e no centro do Pai Lorival. O Scolari disse que mesmo reconhecendo que era diferente, todo mundo passou a respeitar o nome dele.”

“Uai Cristina, ainda não entendi o que realmente ele vai fazer lá, fica só falando de nome? “

“Imagina, diz ele que lá também tem desenvolvimento da autonomia. Você acredita que eles vão conversar com os vereadores, já foram na associação comercial, e estão fazendo com a gente, das famílias, umas conversas bacanas sobre nossos direitos. Os meninos estão ensinando a gente, comadre!”

Cristina de repente parou de caminhar, olhou reflexiva para o prédio laranja, que a essas alturas já havia ficado um pouco para trás, e falou, um pouco mais baixo, “Acho que agora eu já sei o que é que tem ali!”

“Então me diga mulher!”, disse Paula, sorridente, já imaginando procurar o Cras para ver se Ana também poderia começar a frequentar o tal serviço de........, e já não lembrava mais o nome completo.

“Ali tem vida, comadre! Os meninos aprendem jogar bola lá na quadra do clube do bairro, estão começando a tocar instrumento com a banda da igreja, estudam muito na escola e, chegando ali, vivem e aprendem a viver. O bom é que fazem isso tudo com as famílias e a comunidade.”

Paula ficou em silêncio por alguns minutos e quando estavam chegando na praça, decidiram sentar para tomar um ar. A mãe da Ana retomou a conversa, meio afirmando meio perguntando, “Caramba, comadre, que coisa boa se tivesse esse tal serviço no nosso tempo.”

“É verdade, minha amiga, acho que muitos amigos não seriam perdidos por besteira, uns preconceitos sem sentido, brincadeiras maldosas, umas ideias velhas que a turma só ficava repetindo, sem contar os lugares e as pessoas que a gente poderia ter visto com o olhar de criança, sem precisar crescer para chegar até lá. O Scolari, uma vez, disse para o pai que descobriu lá no serviço que a cidade é feita para todos, e que não tem lugar para rico e pobre. Lá no serviço tem meninos de todas as condições sociais, vai até criança com deficiência, é impressionante. Eles foram no teatro e agora estão querendo fazer uma peça.”

Paula levantou e convocou a amiga: “Então vamos seguir para casa. Quero ainda hoje ir lá no Cras para matricular a Aninha nesse lugar. Minha menina merece viver e conviver mais e melhor.”

* Carlos Ferrari é presidente da Avape (Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência), faz parte da diretoria executiva da ONCB (Organização Nacional de Cegos do Brasil) e é atual integrante do CNS (Conselho Nacional de Saúde).
 

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