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Família Setti e Braga é história do transporte no ABC


Célio Franco e Walter Wiegratz
Da Redaçao

12/06/1999 | 17:17


Do rústico tílburi puxado a cavalos à inédita tecnologia do ônibus elétrico sem fios, a família Setti e Braga vai escrevendo a história do transporte coletivo no Grande ABC, com pioneirismo, audácia e muita paixao. Foram esses sentimentos que levaram essa família a desbravar os caminhos da Sao Bernardo do início do século XX, época em que a cidade ganhava as rodas das jardineiras e ramonas.

Eles atravessaram o século e, agora, estao prestes a romper o milênio enfrentando todas as desafios que os novos tempos exigem dos verdadeiros empreendedores. Para isso, guardam a sete chaves o projeto de um veículo nao poluente movido a energia elétrica e sem fios.

Para contar a saga dessa família de empreendedores, o Diário reuniu a dona Maria Myrthes Setti Braga e seus dois filhos, Joao Antônio e Maria Beatriz. Em cinco horas de boa e descontraída conversa, interrompida somente para um delicioso almoço na casa da família, no Centro de Sao Bernardo, ela contou a história de seu pai, Joao Setti, e do marido, José Fernando Medina Braga.

Quatro rodas - O preâmbulo dessa verdadeira saga começa, na verdade, no século passado, nos idos de 1878, com a vinda da família Setti da Itália para o Brasil. Os Setti habitavam o norte da Itália, mais precisamente a regiao do Pochio Rusco, próxima à cidade de Mantova e às margens do rio Pó. De tradiçao agrícola, eles resolveram abandonar o lugar em 1877, depois de quatro anos de sucessivas enchentes que maltrataram suas plantaçoes.

As notícias de um país que ficava além do oceano Atlântico, na América do Sul, e que oferecia muita terra boa para plantar e a possibilidade de um recomeço foi o grande motivador para a vinda da família ao Brasil. Assim, Giuseppe e Benvenita Setti, juntamente com os filhos Adelelmo, Italo e Pedro, embarcaram para o Brasil em uma longa viagem de navio, começada em dezembro de 1877 e que durou seis meses até o desembarque no Porto de Santos. "Ao desembarcar em Santos, eles nao quiseram ficar na cidade porque as ondas do mar arrebentando na praia traziam a triste lembrança das enchentes do rio Pó", conta a bisneta Maria Myrthes Setti Braga.

Foi entao que os imigrantes subiram a Serra do Mar até chegar à pacata Sao Bernardo, onde ganharam do governo paulista um terreno de 3,4 mil m² na rua Américo Brasiliense, onde ainda hoje mora parte de seus descendentes.

Seguindo a tradiçao de agricultores, eles utilizavam a terra para o plantio de cebola e batata, mas nao sabiam que o destino da família seria marcado por quatro rodas que abririam sulcos profundos na história do Grande ABC.

Viajando de tílburi - Adelelmo Setti casou-se com Maria Setti e teve seis filhos: Joao, Dante, Mário, Ernesto, Adelelmo e Josefina. Joao Setti nasceu em 1898 e era o mais velho dos seis netos brasileiros do seu Giuseppe. Dez anos depois, quando já estava alfabetizado, o pequeno Joao recebeu do pai, Adelelmo, a incumbência de trabalhar para auxiliar no sustento da família.

Naquela época, o negócio dos Setti consistia em fornecer combustíveis (da marca Shell) para poucos automóveis que faziam o percurso entre Sao Paulo e Santos e que tinham em Sao Bernardo um ponto de parada obrigatória.

"Por volta de 1908, meu pai comprou dois cavalos e um tílburi (espécie de carruagem coberta de lona) e começou a fazer viagens para Sao Bernardo. O ponto final era a estaçao ferroviária que ficava na Vila de Sao Bernardo, atual cidade de Santo André", conta a neta, dona Myrthes. O trajeto era feito pela avenida Pereira Barreto, que, na época, era tao-somente uma picada, só percorrida por cavalos e carroças.

Eram tempos outros, marcados por um clima ainda mais adverso que o atual. "Meu pai ia para o pasto por volta das 4h da manha para atrelar os cavalos. Como havia muito orvalho na grama e ele tinha um único par de botas, que nao poderia ser molhado, fazia tudo isso descalço, para depois ir trabalhar", relata dona Myrthes. A viagem durava cerca de duas horas, só a ida, e o tílburi do pequeno Joao transportava quatro passageiros em média.

O negócio se mostrou promissor e, tempos depois, já homem, Joao compraria uma jardineira, muito semelhante aos bondes, com abertura dos lados e lonas que cobriam em caso de chuva. O ano era 1920. Antes disso, em 1917, Joao Setti tirava sua carteira de motorista, que o credenciava oficialmente a transportar pessoas. Em 1921, o transporte coletivo já era feito por um Ford Ramona. Quando os ingleses vieram para a regiao, em 1922, a fim de construir a usina hidrelétrica Henry Borden, em Santos, o negócio do seu Joao começou a andar depressa.

A Estrada do Mar, que ligava Sao Bernardo a Santos, era um percurso que levava de sete a oito horas para ser vencido e despertava o espírito aventureiro e a habilidade do jovem Joao, o motorista. "Havia tanta neblina na serra que meu pai tinha de se guiar pelo barulho das cachoeiras. Quando chovia, a coisa complicava, e o ajudante tinha de ir caminhando na frente do caminhaozinho para orientar as manobras do papai. A essa altura, o veículo já tinha perdido os freios e ele tinha de vencer o itinerário apenas controlando as marchas", afirma dona Myrthes.

Embora a velocidade máxima fosse de 25 km/h, o seu Joao sempre se gabou diante dos netos de que era um exímio piloto. "Ele afirmava que os engenheiros ingleses só confiavam nele para fazer o trajeto perigoso, sobretudo debaixo de chuva", conta a neta Maria Beatriz. A grande verdade era a de que o seu Joao conhecia o caminho de olhos fechados.

Setti e Tosi - Em 1925, com o sócio Humberto Maranesi, era fundada a empresa de ônibus que fazia a linha Vila de Sao Bernardo-Estaçao (de trem Sao Paulo Railway). Depois, Etori Tosi substituía Maranesi na sociedade, que passou a se chamar Setti & Tosi. Ambos exerciam a funçao de motorista e mecânico. "Era uma sociedade interessante: eles alternavam o dia da semana para trabalhar, e os ônibus ficavam na casa de cada um deles, que tinham também empregados próprios."

Bondes - Joao Setti casa-se com Luíza em 1927. As estradas continuavam precárias, lentamente os ônibus iam sendo aperfeiçoados, passageiros pegos no meio do caminho nao existiam, mas o volume de usuários crescia, e o negócio prosperava à velocidade lenta das jardineiras. O crescimento imobiliário nas terras da família Pujol, regiao próxima à via Anchieta, trouxe a concorrência dos bondes, enfrentada bravamente por Joao Setti, e o tempo passou...

A Era Braga - Em 1947, Tosi vende sua parte na empresa para o jovem José Fernando Medina Braga, que, meses depois, se casaria com Maria Myrthes, filha de Joao Setti. Antes disso, Braga havia abandonado o curso de Medicina para dar asas ao sonho de ser aviador. No entanto, tal sonho se viu abatido devido à detecçao de um problema na retina. Assim, o rapaz foi trabalhar como vendedor para o laboratório farmacêutico do pai. Pouco tempo depois, Braga conhecia Myrthes e dava início ao namoro.

Foi como noivo que Braga recebeu do sogro o convite para comprar a parte de Tosi na empresa de ônibus e, assim, ingressar no ramo de transporte coletivo. Ele aceitou 25% da sociedade, e a Viaçao Sao Bernardo-Santo André se tornava uma firma familiar, a Setti & Braga. Naquele mesmo ano, 1947, Braga e Myrthes se casaram. No ano seguinte, nasceria o primeiro filho do casal, Joao Antônio, e, em 1952, Maria Beatriz.

Maria Beatriz guarda na lembrança a imagem do pai desaparecendo debaixo dos ônibus para consertá-los. "Ele passava horas reparando os ônibus. Foi assim que aprendeu os segredos da mecânica. Depois, saía todo sujo de graxa, tomava um banho e ia trabalhar, pegando os passageiros na saída do circo e nos principais pontos da cidade", lembra.

Concorrência - Nos anos 50, o negócio começa a sofrer a concorrência da Auto Viaçao Ipiranga, dos irmaos Romano, que começam a explorar os trajetos surgidos com a construçao da via Anchieta. Abatido pelos pequenos resultados econômicos obtidos por décadas de trabalho árduo e as péssimas condiçoes das ruas e avenidas, seu Joao Setti resolve vender em 1954 a empresa, que tinha três ônibus, para o empresário José Romano. A venda foi feita em 24 parcelas. "Meu avô se deu como aposentado. Já o meu pai comprou um posto de gasolina na esquina da XV de Novembro com a General Glicério, em Santo André", relata Joao Antônio. Um ano depois, Braga abria o Auto Posto Saci, também no centro de Santo André.

Concluída a obra da via Anchieta, em 1956, o governo resolve asfaltar a embarreada avenida Pereira Barreto. Tudo isso, para a surpresa e indignaçao do seu Joao Setti. O neto relembra a estupefaçao do avô. "Meu Deus, passei a vida inteira amassando barro e, logo depois de ter vendido a empresa, eles vêm e asfaltam o caminho. Agora é que vai dar para ganhar dinheiro com os ônibus", lamentava.

Se nao fosse uma família visionária, a história dos Setti e Braga teria findado ali, bem diante do novíssimo asfalto da avenida Pereira Barreto. No entanto, os anos de barro amassado pelo caminho e graxa nas maos e de um enregelado despertar nas frias manhas de Sao Bernardo nutriam a família da incrível capacidade de ver o renascimento dos sonhos em um contexto e realidade diferentes.



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