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Serralheiro grava evolução da Vila Sacadura Cabral em documentário

Claudinei Plaza/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Amaro José da Silva vive no local há 39 anos e destaca melhorias estruturais do bairro andreense


Yago Delbuoni
Especial para o Diário

08/08/2015 | 07:00


Um serralheiro aposentado que registra a evolução da Vila Sacadura Cabral, em Santo André, por meio de uma filmadora. Essa é a história de Amaro José da Silva, 68, que mora no local há 39 anos.
Nascido em Gameleira, no Estado de Pernambuco, o serralheiro aposentado resolveu se mudar para São Paulo em 1975, depois de ouvir as experiências de alguns conhecidos que chegaram aqui antes. “Todo pessoal que saía de lá dizia que São Paulo era muito bom e também muito frio. Aí pensei em vir para cá conhecer e, se desse tudo certo, eu ficaria, senão, voltaria na mesma hora.”

Precavido, Silva revela que já tinha o dinheiro para a passagem de volta reservado, mas que, felizmente, não precisou usar. “Cheguei e me acostumei com a água e a garoa de São Paulo. Tanto que estou até hoje aqui. Agora só vou para Gameleira de férias”, brinca.

O lado cinematográfico do aposentado teve início após ter sido presenteado com sua primeira filmadora pela mulher. “Comecei a brincar com ela (filmadora). Chamei outras três pessoas para me ajudar e fomos mostrando a evolução do bairro”. Silva destaca que o hobby chamou atenção da Associação Beneficente Criança Cidadã de Santo André, que convidou os moradores para gravar a infraestrutura que o bairro tinha em 1997. “Mostramos as ruas, que só tinham barracos”, lembra.

Silva lamenta, entretanto, o fato de ter perdido parte das gravações, após ter emprestado para funcionários da FSA (Fundação Santo André). “Só restou uma, mas não é possível assistir pelo fato de não ter adaptador. A fita cassete está guardada, mas o adaptador quebrou e não consigo achar outro.”

Silva já chegou inclusive a participar de documentário do MDDF (Movimento de Defesa dos Direitos de Moradores em Favela), no qual expõe sua visão sobre a evolução do bairro.

Na lente e na retina do morador ficaram registradas as mudanças que a Vila Sacadura Cabral teve nos últimos 39 anos. “Nosso bairro melhorou muito. Os barracos eram de madeira e passaram a ser de alvenaria”. Apesar das transformações na localidade, o aposentado considera necessário haver mudanças de comportamento entre os moradores do espaço. “Acho que as pessoas precisam ter mais contato umas com as outras. Se fazemos reunião no centro comunitário, pouca gente aparece”, exemplifica.

O aposentado ressalta que continua registrando alguns fatos cotidianos, mas apenas durante suas viagens. “Só faço filmagens com a minha câmera digital e quando viajo. Se eu fosse mais novo, gostaria de tentar trabalhar na televisão. Mas hoje é só um hobby.”

Silva considera a vinda dele de Pernambuco para Santo André um “grande aprendizado”. “Cheguei aqui e não saí mais. Considero São Paulo uma universidade. Sair do Nordeste, da fazenda, e vir para a cidade grande é como sair do Brasil e ir para o Exterior. A diferença é que não precisa aprender outro idioma”, observa.

Costureira passou por bons e maus momentos no bairro

A costureira Angelina Nunes de Oliveira, 61 anos, é uma das moradoras que têm muita história para contar sobre a Vila Sacadura Cabral. Afinal de contas, são 42 anos morando no mesmo bairro. A relação de Angelina com o local é de muito amor. “Dedico minha vida ao bairro. Só saio daqui para ir para o Curuçá (cemitério).” brinca.

Apesar de todo o afeto, a costureira revela que não tem apenas boas passagens para contar sobre o local. Isso porque sua filha, de apenas 4 anos e meio de idade, morreu após ter sido estuprada enquanto brincava na casa de uma vizinha. “O que fico mais magoada é que não sinto que foi feita justiça”, diz. A mãe de outros sete filhos se refere ao fato de o assassino ter cumprido pena e já estar em liberdade.

Nem mesmo tamanho sofrimento foi capaz de fazer com que a costureira pensasse em se mudar. “Não quero sair daqui porque o problema te acompanha onde quer que você vá. Isso é algo que não dá para esquecer”, confessa.

Viúva duas vezes, Angelina garante que nunca dependeu do dinheiro dos maridos para sustentar a casa e os filhos. “Já cheguei a trabalhar como empregada doméstica. Tudo para não depender deles.”

Outro fato que dá orgulho à costureira é seu pertencimento à associação de moradores do bairro. “Junto com alguns representantes, lutamos pela urbanização e melhoria da infraestrutura do bairro, que tinha muita sujeira e não tinha luz. Até por ser irregular, a fiação causava a queima de muitos equipamentos”, diz.

Angelina também foi responsável por fundar uma cooperativa de costureiras chamada Olho Vivo. A moradora até chegou a alçar voo na carreira política e chegou a ser candidata a vereadora, na década de 1990. “A cooperativa foi criada em 1999. Pensei até em desistir da campanha porque meu marido estava com câncer e resolvi cuidar dele ao invés de fazer campanha. Não saí do bairro e, mesmo assim, consegui 300 votos. Isto me deixou feliz.”


Dono de bar da região garante não ter brigas em seu estabelecimento

O comerciante Cícero Correa da Graça, 69 anos, mais conhecido como Pita, é outro morador antigo da Vila Sacadura Cabral. Ele é proprietário de um bar tradicional do bairro, onde vive há 47 anos. De trás de seu balcão, ele testemunhou as inúmeras transformações do local.

Apesar de ter um botequim, Pita garante que o local não tem briga. “Estou com o bar há 15 anos. Quando vejo que alguém bebeu um pouco acima da conta, já fico mais atento. Se observo uma discussão, já fico em cima. Não bebo, então facilita identificar quando alguém está acima do tom”, diz.

O morador chama carinhosamente seu bar de ‘Pega – bêbado’, e, de uns tempos para cá, notou que o movimento vem caindo. “As vendas estão menores. A maioria dos clientes vinha e consumia fiado, mas como resolvi não permitir, a consequência foi a redução no movimento”, afirma.

Ao observar o momento econômico do País e, com isso, a queda do poder de consumo da população, o comerciante já pensa em sair do ramo. “Pretendo vender camiseta estampada ou até mesmo abrir uma bicicletaria”, cogita.

Uma das principais lembranças negativas de Pita sobre a Vila Sacadura Cabral está relacionada às enchentes, observadas principalmente no período dos temporais de verão. “Sofremos muito com as cheias. Toda vez que chovia, entrava água em casa. Além disso, rato e esgoto a céu aberto eram comuns”, lamenta.

No entanto, o comerciante também reconhece as evoluções. Com o passar dos anos, os barracos de madeira deram lugar às residências de alvenaria. “Incêndio também era algo muito normal, mas, com a construção das novas casas, a situação está 100% melhor.”

Questionado se já pensou em morar em outra localidade, o comerciante responde prontamente. “Não. Gosto daqui. Fora da Vila Sacadura Cabral me sinto como um peixe fora d’água. Não tem como viver longe”, brincou.



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