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Nas ondas do vozeirão de Simonal

Divulgação  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Após musical, um dos mais populares cantores do
País ganha CD com faixas que inspiraram espetáculo


Vinícius Castelli

02/08/2015 | 07:00


"Um cara que adorava a música e tentou fazer o melhor dele por ela”. É assim que Simoninha quer que o mundo se lembre de seu pai, Wilson Simonal. Negro, pobre, batalhador, marrento – diziam alguns – e corajoso. Na verdade, Wilson Simonal era muito mais do que isso. Cantor que conquistou todo o País nos anos 1960 e 1970 e conseguiu, com a arte, o que muitos outros não tiveram até hoje: fama, prestígio, dinheiro e reconhecimento de seu talento. Fato é que a obra de Simonal segue viva e cada vez mais forte.

Nome que dividiu opinião nos anos 1970, Simonal foi acusado de delator a serviço da ditadura militar e de ter ‘pedido’ que policiais dessem uma ‘dura’ em seu contador na época por achar que estava sendo roubado por ele. A partir disso, caiu no esquecimento nas décadas seguintes e passou maus bocados. Morreu há 15 anos, aos 62, em 25 de junho de 2000, amado por alguns e não visto com ‘bons olhos’ por outros. Mas hoje, tanto tempo depois de sua partida e das tais acusações, que diga-se de passagem, nunca foram provadas, sua imagem e legado finalmente começam a ter o devido merecimento, justiça seja feita.

Parte da obra do cantor volta a tomar conta dos alto-falantes com o álbum S’imbora – A História de Wilson Simonal (Universal Music, R$ 21,90, em média), disco que reúne as faixas do espetáculo musical de mesmo nome que ficou em cartaz em São Paulo até o fim de julho e que teve como protagonista o ator Ícaro Silva, de Santo André.

O álbum conta com 20 composições e ilustra bem o poder da voz do artista carioca. De 1967, o trabalho pincela faixas como Tributo a Martin Luther King, assinada ao lado de Ronaldo Bôscoli, em que canta pela força dos negros a favor da igualdade. Outra que faz parte do repertório, com ‘ar cafajeste’, é Nem Vem Que Não Tem. O cast do disco ainda tem o clássico Carango, em que Simonal solta a voz para cantar “ninguém sabe o duro que dei para ter fon-fon, trabalhei, trabalhei”.

Além do musical e da trilha sonora, o baú de obras a respeito de Simonal conta ainda com o documentário Ninguém Sabe o Duro Que Dei, enriquecido por depoimentos de figuras como Chico Anysio, Miéle, Nelson Motta e Ziraldo, além dos filhos do cantor. Até o contador, com quem Simonal teve problemas, não fica de fora da empreitada. Biografias como Nem Vem que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal também estão entre os itens que contam da vida do artista.

Na década de 1960 e parte da seguinte, não tinha para ninguém. Cheio de simpatia, Simonal cantou ao lado de Sarah Vaughan a música The Shadow Of Your Smile. Foi garoto-propaganda da Shell. Teve até um bonequinho, Mug, que, acreditava-se, dava sorte para as pessoas. A verdade é que Wilson Simonal era dono de voz invejável e louvável. Foi tão popular, ou mais, do que Roberto Carlos. Teve programa de TV, Show em Si... Monal. Cantava, apresentava, fazia rir. Fazia de tudo. Lotou o Maracanãzinho (30 mil pessoas) enquanto a maioria fazia shows em espaços menores.

Mas, se após os anos 1970, a imagem musical de Simonal foi de queda por conta dos boatos de que era delator, hoje, tanto tempo depois, o cenário parece estar mudando. Simoninha acredita que os números mostram que as pessoas, mais uma vez, estão se interessando pela obra de seu pai. “Eu, como artista, vejo que o musical cumpriu o que queria. Foram sete meses em cartaz e 60 mil espectadores” diz. “As pessoas ficavam por cinco minutos, em pé, aplaudindo, antes mesmo de o espetáculo terminar.”

Simoninha conta que sua relação com o pai era muito boa e intensa. “Nos últimos anos eu me afastei um pouco. Não estava feliz pela forma que ele levava a vida. Estava muito abatido, rancoroso e triste. Tinha a bebida também. E eu também estava construindo minha vida”, afirma o artista .

“Convivi muito com meu pai. Tem o lado artista dele, de ter vivido coisas mágicas, vendo-o no palco. Me surpreendo até hoje vendo os vídeos dele. E tem o lado pai, que leva para tomar sorvete, buscava na escola”, diz Simoninha. Desde que nasceram (Simoninha e Max) foram para a estrada, estavam o tempo todo juntos do pai, que sempre apoiou a carreira artística dos filhos. Mas fazia um alerta, para que eles investissem e estudassem, se preparassem.

Muitos diziam – e talvez digam ainda – que a música de Simonal, em plena ditadura, quando poderia dizer algo, não dizia muito, servia para entreter apenas. Verdade é que, quando pôde, fez a crítica que lhe coube, ainda que não à ditadura. Mas cantar frases como “Sou preto, negro, negro, mas por Deus, também sou gente” há de ter algo de suma importância.

A mensagem que fica, para quem mergulha na obra desse artista e permite que suas canções percorram a alma e fervam o sangue, é: no fim, o que importa é a arte. Como disse Simoninha, cada um deve descobrir a arte dele (Simonal) como lhe cabe. “O artista é isso.”



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Nas ondas do vozeirão de Simonal

Após musical, um dos mais populares cantores do
País ganha CD com faixas que inspiraram espetáculo

Vinícius Castelli

02/08/2015 | 07:00


"Um cara que adorava a música e tentou fazer o melhor dele por ela”. É assim que Simoninha quer que o mundo se lembre de seu pai, Wilson Simonal. Negro, pobre, batalhador, marrento – diziam alguns – e corajoso. Na verdade, Wilson Simonal era muito mais do que isso. Cantor que conquistou todo o País nos anos 1960 e 1970 e conseguiu, com a arte, o que muitos outros não tiveram até hoje: fama, prestígio, dinheiro e reconhecimento de seu talento. Fato é que a obra de Simonal segue viva e cada vez mais forte.

Nome que dividiu opinião nos anos 1970, Simonal foi acusado de delator a serviço da ditadura militar e de ter ‘pedido’ que policiais dessem uma ‘dura’ em seu contador na época por achar que estava sendo roubado por ele. A partir disso, caiu no esquecimento nas décadas seguintes e passou maus bocados. Morreu há 15 anos, aos 62, em 25 de junho de 2000, amado por alguns e não visto com ‘bons olhos’ por outros. Mas hoje, tanto tempo depois de sua partida e das tais acusações, que diga-se de passagem, nunca foram provadas, sua imagem e legado finalmente começam a ter o devido merecimento, justiça seja feita.

Parte da obra do cantor volta a tomar conta dos alto-falantes com o álbum S’imbora – A História de Wilson Simonal (Universal Music, R$ 21,90, em média), disco que reúne as faixas do espetáculo musical de mesmo nome que ficou em cartaz em São Paulo até o fim de julho e que teve como protagonista o ator Ícaro Silva, de Santo André.

O álbum conta com 20 composições e ilustra bem o poder da voz do artista carioca. De 1967, o trabalho pincela faixas como Tributo a Martin Luther King, assinada ao lado de Ronaldo Bôscoli, em que canta pela força dos negros a favor da igualdade. Outra que faz parte do repertório, com ‘ar cafajeste’, é Nem Vem Que Não Tem. O cast do disco ainda tem o clássico Carango, em que Simonal solta a voz para cantar “ninguém sabe o duro que dei para ter fon-fon, trabalhei, trabalhei”.

Além do musical e da trilha sonora, o baú de obras a respeito de Simonal conta ainda com o documentário Ninguém Sabe o Duro Que Dei, enriquecido por depoimentos de figuras como Chico Anysio, Miéle, Nelson Motta e Ziraldo, além dos filhos do cantor. Até o contador, com quem Simonal teve problemas, não fica de fora da empreitada. Biografias como Nem Vem que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal também estão entre os itens que contam da vida do artista.

Na década de 1960 e parte da seguinte, não tinha para ninguém. Cheio de simpatia, Simonal cantou ao lado de Sarah Vaughan a música The Shadow Of Your Smile. Foi garoto-propaganda da Shell. Teve até um bonequinho, Mug, que, acreditava-se, dava sorte para as pessoas. A verdade é que Wilson Simonal era dono de voz invejável e louvável. Foi tão popular, ou mais, do que Roberto Carlos. Teve programa de TV, Show em Si... Monal. Cantava, apresentava, fazia rir. Fazia de tudo. Lotou o Maracanãzinho (30 mil pessoas) enquanto a maioria fazia shows em espaços menores.

Mas, se após os anos 1970, a imagem musical de Simonal foi de queda por conta dos boatos de que era delator, hoje, tanto tempo depois, o cenário parece estar mudando. Simoninha acredita que os números mostram que as pessoas, mais uma vez, estão se interessando pela obra de seu pai. “Eu, como artista, vejo que o musical cumpriu o que queria. Foram sete meses em cartaz e 60 mil espectadores” diz. “As pessoas ficavam por cinco minutos, em pé, aplaudindo, antes mesmo de o espetáculo terminar.”

Simoninha conta que sua relação com o pai era muito boa e intensa. “Nos últimos anos eu me afastei um pouco. Não estava feliz pela forma que ele levava a vida. Estava muito abatido, rancoroso e triste. Tinha a bebida também. E eu também estava construindo minha vida”, afirma o artista .

“Convivi muito com meu pai. Tem o lado artista dele, de ter vivido coisas mágicas, vendo-o no palco. Me surpreendo até hoje vendo os vídeos dele. E tem o lado pai, que leva para tomar sorvete, buscava na escola”, diz Simoninha. Desde que nasceram (Simoninha e Max) foram para a estrada, estavam o tempo todo juntos do pai, que sempre apoiou a carreira artística dos filhos. Mas fazia um alerta, para que eles investissem e estudassem, se preparassem.

Muitos diziam – e talvez digam ainda – que a música de Simonal, em plena ditadura, quando poderia dizer algo, não dizia muito, servia para entreter apenas. Verdade é que, quando pôde, fez a crítica que lhe coube, ainda que não à ditadura. Mas cantar frases como “Sou preto, negro, negro, mas por Deus, também sou gente” há de ter algo de suma importância.

A mensagem que fica, para quem mergulha na obra desse artista e permite que suas canções percorram a alma e fervam o sangue, é: no fim, o que importa é a arte. Como disse Simoninha, cada um deve descobrir a arte dele (Simonal) como lhe cabe. “O artista é isso.”

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