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Globo pode levar 'O Auto da Compadecida' para o cinema


Do Diário do Grande ABC

24/01/1999 | 15:06


A melhor notícia televisiva de 1999: surpresa com o sucesso arrebatador (por que nao unânime?) da microssérie O Auto da Compadecida, dirigida por Guel Arraes, a direçao da Globo encomendou à Globo Filmes (o braço cinematográfico da empresa) um estudo de viabilidade para lançar no cinema uma versao editada em 105 minutos - a obra original tem 160 minutos. Se for para o cinema, em seguida sairá também em vídeo. Mesmo que nao chegue às telas, certamente estará disponível em vídeo.

A versao editada já está pronta e foi feita pelo próprio diretor. O resultado do estudo sai em poucos dias. "Guel fez o grande clássico contemporâneo da dramaturgia audiovisual", elogia Luís Gleiser, diretor-executivo da Globo Filmes, a quem caberá decidir os desdobramentos que a série terá daqui pra frente.

Guel ficou em estado de graça. Recuperou a auto-estima, em baixa desde que a série A Comédia da Vida Privada, que dirigiu e ajudou a adaptar da obra de Luis Fernando Verissimo, começou a perder audiência diante da concorrência com a bizarrice de outros canais e acabou saindo do ar. O diretor chegou a dizer que estava deprimido com a concorrência desleal.

Audiência, bem se sabe, nao mede a qualidade de uma produçao, mas faz encher os olhos dos departamentos comerciais das TVs. Talento numa TV aberta é equilibrar audiência e qualidade. Guel conseguiu. A série, exibida às 22h30, estreou com 36 pontos no ibope e dia após dia cresceu para 37 e 39. Para comparar: a novela das 6, Pecado Capital, no mesmo dia, registrou 29 pontos. A novela das 8, "Suave Veneno", estreou na semana passada com 37 pontos de audiência na Grande Sao Paulo. Outro dado: a minissérie Chiquinha Gonzaga, que substituiu o Auto, tem ficado entre 28 e 30 pontos.

Com a realizaçao do Auto, o diretor revela ter resolvido várias contradiçoes artísticas e pessoais que o incomodavam havia tempo. Armaçao Ilimitada, TV Pirata, A Comédia da Vida Privada, só para citar alguns de seus êxitos na TV eram, para resumir, urbanos, bem- humorados e ambientados no Sul. "Tinha um complexo de nao fazer nada ligado à minha infância, ao meu passado", conta.

Pela primeira vez, Guel levou um pouco de drama para a TV e quem assistiu ao último capítulo do Auto percebeu isso. Pensava também se nao seria capaz de escrever nada original. "O Auto nao é originalmente meu, mas apropriei-me tanto que ficou também um trabalho pessoal", diz. A longa viagem que fez atrás de locaçoes pelo Nordeste o fez recuperar a infância esquecida no sertao. A educaçao religiosa, que também andava esquecida, reapareceu quando os personagens sao julgados por Jesus (Maurício Gonçalves) a partir da acusaçao do diabo (Luís Mello) e da defesa de Nossa Senhora (Fernanda Montenegro).

Seca - Cabaceiras, a cidade escolhida para as locaçoes, distante 230 quilômetros de Joao Pessoa, fica próxima de Taperoá, onde se passa a história original de Suassuna. As cenas da série foram feitas na cidade mais seca do País, um pedaço esquecido do agreste. "Aqui é o melhor lugar para se viver porque aqui todo mundo é igual, é pobre", bem definiu uma moradora da regiao.

Joao Grilo, o protagonista da história, interpretado por Matheus Nachtergaele, poderia mesmo ter nascido em cabaceiras. Ao lado de Chicó (Selton Mello), Grilo é o retrato do brasileiro miserável, oprimido pelo rico, mas hábil para safar-se das situaçoes mais complicadas e tocar a vida ao lado dos demais personagens: o padeiro (Diogo Vilela), sua mulher (Denise Fraga) , o padre (Rogério Cardoso), o bispo (Lima Duarte) e o cangaceiro (Marco Nanini). Guel desejava adaptar a obra mais conhecida do pernambucano Ariano Suassuna havia sete anos e quando ela foi ao ar, em quatro capítulos, da terça, dia 5, a sexta, dia 8, ele nao pôde medir a sucesso de seu trabalho entre o telespectador: estava em férias na tranqüila praia de Porto de Galinhas, no litoral pernambucano, em companhia da mulher, Virgínia, e do casal Joao e Adriana Falcao. "Diferentemente do teatro e do cinema, na TV a repercussao vai chegando aos poucos", diz o diretor.

Joao, dramaturgo em ascensao, a quem os maiores atores do País começam a encomendar espetáculos, caso de Marco Nanini com Uma Noite na Lua, sucesso no Rio, é o responsável pela trilha sonora do Auto, feita a partir da pesquisa de ritmos do folclore nordestino. Adriana assina com Guel a adaptaçao da obra escrita em 1953 e encenada centenas de vezes por grupos de teatro de todos os cantos do País. Guel Arraes tem uma explicaçao para o sucesso do Auto: "A série mostrou a sintonia entre o povo e o seu país, onde as pessoas se encontram", afirma. Ele prefere definir-se nao como diretor (ou mais um entre tantos), mas como um "congregador de talentos" e emenda o nome de profissionais sem os quais nao teria realizado o Auto, como a cenógrafa Lia Renha e o o maquiador Cao Albuquerque.

A relaçao de trabalho do diretor com sua equipe segue o que se pregava nos anos 70, em que o ideal era ter um teatro de grupo. "Conseguimos ser um grupo afinado dentro de uma TV, o que é muito difícil", afirma, voltando a citar Joao Falcao, seu "irmao profissional".

O diretor vai mais longe e acha que o Auto elevou a auto-estima do telespectador brasileiro e um dos motivos é o fato de a história passar-se no Nordeste. "O Nordeste é o ponto de referência do Brasil", analisa o quarto dos dez filhos do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes.

Em alta também ficaram os profissionais da área, acredita o diretor. "Em 98 meteram muito o pau na TV, chamando-a de popularesca, dizendo que a concorrência havia baixado o nível e o Auto provou que a TV pode ser usada para oferecer bons programas", afirma.

Universal - Bom termômetro foi a avaliaçao de Suassuna a Guel. "Gostei muito", respondeu o dramaturgo e ex-secretário da Cultura de Pernambuco. O diretor nao acredita que a tao falada globalizaçao deva afastar um povo de sua cultura. "Nada mais globalizado que a cultura popular, regional", acredita. "O Auto é universal porque é baseado em histórias universais", explica.

Suassuna nunca escondeu ter escrito o Auto a partir da colagem de folhetos da cultura popular nordestina, por sua vez baseados em histórias da Idade Média francesa, italiana. O diretor nao tem dúvidas de que se a série for exibida na França, por exemplo, o telespectador vai identificar-se.

Guel chegou a ser criticado durante as filmagens por lançar mao de seu ritmo ágil, quase frenético, numa produçao feita com qualidade de cinema. "Achavam muito rápido fazer uma cena em uma hora, mas nao era uma hora porque eu já havia trabalhado naquela cena pelo menos durante cinco horas antes", explica.

Um dos trunfos de Guel era conhecer o trabalho em todas as suas fases. Ele é autor do projeto e conterrâneo de Suassuna, cuja obra conhece desde a infância. Em companhia da cenógrafa Lia Renha, Guel rodou 38 cidades da zona dos Cariris Velhos, no sertao paraibano, à procura da melhor locaçao para o Auto. Foi ele quem adaptou, ensaiou cena a cena com o elenco e depois foi a campo dirigir. "Tinha segurança total do que estava fazendo", afirma.

O diretor nao acha que a linguagem de cinema deve invadir a TV. Ao contrário, e foi o que fez na série, prefere impor seus cortes secos com uma câmera de cinema. "Preparei-me muito antes de filmar porque os custos estouram justamente na demora no set de filmagem", lembra. "Acho que esse método é necessário ao cinema brasileiro." Ou seja: o cinema precisa aprender com a TV.



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Globo pode levar 'O Auto da Compadecida' para o cinema

Do Diário do Grande ABC

24/01/1999 | 15:06


A melhor notícia televisiva de 1999: surpresa com o sucesso arrebatador (por que nao unânime?) da microssérie O Auto da Compadecida, dirigida por Guel Arraes, a direçao da Globo encomendou à Globo Filmes (o braço cinematográfico da empresa) um estudo de viabilidade para lançar no cinema uma versao editada em 105 minutos - a obra original tem 160 minutos. Se for para o cinema, em seguida sairá também em vídeo. Mesmo que nao chegue às telas, certamente estará disponível em vídeo.

A versao editada já está pronta e foi feita pelo próprio diretor. O resultado do estudo sai em poucos dias. "Guel fez o grande clássico contemporâneo da dramaturgia audiovisual", elogia Luís Gleiser, diretor-executivo da Globo Filmes, a quem caberá decidir os desdobramentos que a série terá daqui pra frente.

Guel ficou em estado de graça. Recuperou a auto-estima, em baixa desde que a série A Comédia da Vida Privada, que dirigiu e ajudou a adaptar da obra de Luis Fernando Verissimo, começou a perder audiência diante da concorrência com a bizarrice de outros canais e acabou saindo do ar. O diretor chegou a dizer que estava deprimido com a concorrência desleal.

Audiência, bem se sabe, nao mede a qualidade de uma produçao, mas faz encher os olhos dos departamentos comerciais das TVs. Talento numa TV aberta é equilibrar audiência e qualidade. Guel conseguiu. A série, exibida às 22h30, estreou com 36 pontos no ibope e dia após dia cresceu para 37 e 39. Para comparar: a novela das 6, Pecado Capital, no mesmo dia, registrou 29 pontos. A novela das 8, "Suave Veneno", estreou na semana passada com 37 pontos de audiência na Grande Sao Paulo. Outro dado: a minissérie Chiquinha Gonzaga, que substituiu o Auto, tem ficado entre 28 e 30 pontos.

Com a realizaçao do Auto, o diretor revela ter resolvido várias contradiçoes artísticas e pessoais que o incomodavam havia tempo. Armaçao Ilimitada, TV Pirata, A Comédia da Vida Privada, só para citar alguns de seus êxitos na TV eram, para resumir, urbanos, bem- humorados e ambientados no Sul. "Tinha um complexo de nao fazer nada ligado à minha infância, ao meu passado", conta.

Pela primeira vez, Guel levou um pouco de drama para a TV e quem assistiu ao último capítulo do Auto percebeu isso. Pensava também se nao seria capaz de escrever nada original. "O Auto nao é originalmente meu, mas apropriei-me tanto que ficou também um trabalho pessoal", diz. A longa viagem que fez atrás de locaçoes pelo Nordeste o fez recuperar a infância esquecida no sertao. A educaçao religiosa, que também andava esquecida, reapareceu quando os personagens sao julgados por Jesus (Maurício Gonçalves) a partir da acusaçao do diabo (Luís Mello) e da defesa de Nossa Senhora (Fernanda Montenegro).

Seca - Cabaceiras, a cidade escolhida para as locaçoes, distante 230 quilômetros de Joao Pessoa, fica próxima de Taperoá, onde se passa a história original de Suassuna. As cenas da série foram feitas na cidade mais seca do País, um pedaço esquecido do agreste. "Aqui é o melhor lugar para se viver porque aqui todo mundo é igual, é pobre", bem definiu uma moradora da regiao.

Joao Grilo, o protagonista da história, interpretado por Matheus Nachtergaele, poderia mesmo ter nascido em cabaceiras. Ao lado de Chicó (Selton Mello), Grilo é o retrato do brasileiro miserável, oprimido pelo rico, mas hábil para safar-se das situaçoes mais complicadas e tocar a vida ao lado dos demais personagens: o padeiro (Diogo Vilela), sua mulher (Denise Fraga) , o padre (Rogério Cardoso), o bispo (Lima Duarte) e o cangaceiro (Marco Nanini). Guel desejava adaptar a obra mais conhecida do pernambucano Ariano Suassuna havia sete anos e quando ela foi ao ar, em quatro capítulos, da terça, dia 5, a sexta, dia 8, ele nao pôde medir a sucesso de seu trabalho entre o telespectador: estava em férias na tranqüila praia de Porto de Galinhas, no litoral pernambucano, em companhia da mulher, Virgínia, e do casal Joao e Adriana Falcao. "Diferentemente do teatro e do cinema, na TV a repercussao vai chegando aos poucos", diz o diretor.

Joao, dramaturgo em ascensao, a quem os maiores atores do País começam a encomendar espetáculos, caso de Marco Nanini com Uma Noite na Lua, sucesso no Rio, é o responsável pela trilha sonora do Auto, feita a partir da pesquisa de ritmos do folclore nordestino. Adriana assina com Guel a adaptaçao da obra escrita em 1953 e encenada centenas de vezes por grupos de teatro de todos os cantos do País. Guel Arraes tem uma explicaçao para o sucesso do Auto: "A série mostrou a sintonia entre o povo e o seu país, onde as pessoas se encontram", afirma. Ele prefere definir-se nao como diretor (ou mais um entre tantos), mas como um "congregador de talentos" e emenda o nome de profissionais sem os quais nao teria realizado o Auto, como a cenógrafa Lia Renha e o o maquiador Cao Albuquerque.

A relaçao de trabalho do diretor com sua equipe segue o que se pregava nos anos 70, em que o ideal era ter um teatro de grupo. "Conseguimos ser um grupo afinado dentro de uma TV, o que é muito difícil", afirma, voltando a citar Joao Falcao, seu "irmao profissional".

O diretor vai mais longe e acha que o Auto elevou a auto-estima do telespectador brasileiro e um dos motivos é o fato de a história passar-se no Nordeste. "O Nordeste é o ponto de referência do Brasil", analisa o quarto dos dez filhos do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes.

Em alta também ficaram os profissionais da área, acredita o diretor. "Em 98 meteram muito o pau na TV, chamando-a de popularesca, dizendo que a concorrência havia baixado o nível e o Auto provou que a TV pode ser usada para oferecer bons programas", afirma.

Universal - Bom termômetro foi a avaliaçao de Suassuna a Guel. "Gostei muito", respondeu o dramaturgo e ex-secretário da Cultura de Pernambuco. O diretor nao acredita que a tao falada globalizaçao deva afastar um povo de sua cultura. "Nada mais globalizado que a cultura popular, regional", acredita. "O Auto é universal porque é baseado em histórias universais", explica.

Suassuna nunca escondeu ter escrito o Auto a partir da colagem de folhetos da cultura popular nordestina, por sua vez baseados em histórias da Idade Média francesa, italiana. O diretor nao tem dúvidas de que se a série for exibida na França, por exemplo, o telespectador vai identificar-se.

Guel chegou a ser criticado durante as filmagens por lançar mao de seu ritmo ágil, quase frenético, numa produçao feita com qualidade de cinema. "Achavam muito rápido fazer uma cena em uma hora, mas nao era uma hora porque eu já havia trabalhado naquela cena pelo menos durante cinco horas antes", explica.

Um dos trunfos de Guel era conhecer o trabalho em todas as suas fases. Ele é autor do projeto e conterrâneo de Suassuna, cuja obra conhece desde a infância. Em companhia da cenógrafa Lia Renha, Guel rodou 38 cidades da zona dos Cariris Velhos, no sertao paraibano, à procura da melhor locaçao para o Auto. Foi ele quem adaptou, ensaiou cena a cena com o elenco e depois foi a campo dirigir. "Tinha segurança total do que estava fazendo", afirma.

O diretor nao acha que a linguagem de cinema deve invadir a TV. Ao contrário, e foi o que fez na série, prefere impor seus cortes secos com uma câmera de cinema. "Preparei-me muito antes de filmar porque os custos estouram justamente na demora no set de filmagem", lembra. "Acho que esse método é necessário ao cinema brasileiro." Ou seja: o cinema precisa aprender com a TV.

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