D+ Titulo

Garotas boas de bola

23/05/2010 | 07:22
Compartilhar notícia
 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Em vez de sapatilha, chuteira. Colant? Não, camisa e calção! No lugar da meia-calça, o meião. Dribles tomam conta e substituem os rodopios. O show é em campo ou na quadra, nunca no palco. Cada vez mais, meninas escolhem o futebol em vez do balé.
A barreira está sendo quebrada. Exemplos de habilidade como o da Marta, da Seleção Brasileira, motivam craques a mostrar que também manjam muito do esporte.

"Sonho com a carreira profissional. Sei que é difícil, mas não vou desistir. Só quem gosta sabe o que é", diz Pamela Siva, 16 anos, atleta da escolinha do Cesar Sampaio, em Diadema, onde é meio-campista. Quando decidiu jogar, já enfrentou preconceito dentro de casa. "Minha mãe não gosta. Acha que futebol é só para garotos."

Antigamente era. Até 1975, o artigo 54 do decreto-lei 3.199 de 1941, estabelecia que ‘às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza'. Em 1965, o Conselho Nacional de Desportos exigiu que as entidades seguissem a norma: ‘Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, pólo, halterofilismo e beisebol'. A desculpa era comprometer a fertilidade devido às jogadas de impacto.

DGABC

O futebol feminino voltou a ser aceito, mas o machismo e o preconceito continuam. "Muitos acham que só porque jogamos futebol somos masculinizadas. A verdade é que os garotos têm medo de nos encarar no campo e perder", ressalta Larissa Albuquerque, 16, do Primeiro de Maio, de Santo André.

Na opinião da colega Natalie Dembowski, 15, o treinamento pode até ser mais leve, mas os meninos não têm a mesma disciplina e compromisso. "Somos mais organizadas." E não é só isso: garantem que aguentam o tranco: "Não ligo se me machuco. Na barreira, é só proteger o peito", avisa Larissa. Para Natalie, a dor para cabecear e matar no peito é coisa do passado. "Quando a gente aprende a fazer direito, não dói mais."

Incentivo maior fora do País

"É bem diferente o futebol feminino fora do Brasil. Lá as meninas são incentivadas pela escola, família e Estado, e fazem carreira", explica Mariana Monteiro de Salles, 20 anos, de Santo André, que disputou um campeonato estadual quando fez intercâmbio, aos 17, nos Estados Unidos.

Adepta do esporte desde a infância, Mariana ficou impressionada com o organização e o comprometimento das meninas gringas. "Todas treinam duro, levam a sério. E a comunidade participa de tudo, fica na torcida. Foi incrível a experiência." A atleta reclama que falta investimento e incentivo no Brasil. "Até as melhores jogadoras, como a Marta, estão fora do País." Outra diferença é que as norte-americanas não enfrentam preconceito. "Pelo contrário, são valorizadas por isso. Entram em campo concentradas e bem-arrumadas, claro."

Vários filmes provam isso. Ataque ou Defesa (1999) traz as gêmeas Mary Kate e Ashley Olsen, uma fera no futebol, a outra não. Em Driblando o Destino (2002), Jesminder Bhamra sonha em seguir o caminho do ídolo David Beckham e virar profissional, mas enfrenta a reprovação da família. Viola (Amanda Bynes) se passa pelo irmão para jogar no time da escola em Ela é o Cara (2006). Já em Garota Boa de Bola (2007), Sara tem de decidir se joga futebol e agrada o pai ou descobre o que quer.

Sem esquecer o batom

Na hora de se preparar para jogar, Luanny Ferreira Ohse, 15, de São Bernardo, não esquece de ajeitar bem o meião, pentear a franja e, claro, passar batom. "Gosto de ficar sempre arrumada. Nunca se sabe quando um menino bonito vai estar na torcida", brinca a garota, que se reveza entre o gol e a posição de fixa do time da Portuguesa de futebol de salão. Luanny joga desde os 9 anos e adora o que faz. Treina duro e acredita que as meninas têm bastante garra. "Sonho com o dia em que o futebol feminino vai ganhar o mesmo reconhecimento que o masculino. Por enquanto, ainda é muito desigual", compara.

Caroline Candido, 16 - que também joga na Portuguesa e no Colégio Etip, time teatracampeão dos Jogos Escolares em Santo André - garante que rola a mesma rivalidade entre os times femininos e que há preocupação com a vaidade. "Fiquei muita brava quando quebrei a unha no jogo, mas não perdi a concentração. Não dá para ficar pensando nisso no meio da partida." A colega de time Thayná Almeida, 14, gostaria, inclusive, que o uniforme fosse mais justinho. "Precisa ser mais feminino."
Outra coisa que pode tirar as atletas do sério são TPM e cólica menstrual, mas nada que as impeça de cumprirem seu papel. "Não falto nunca", jura Luanny.




Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


;