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Na região, 125 orelhões
são depredados por dia
Por Bruna Gonçalves
Do Diário do Grande ABC
03/05/2010 | 07:00
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Por dia, são depredados 125 telefones públicos no Grande ABC. Há 13 anos, o número de aparelhos que apresentavam defeitos diariamente era 53. O vandalismo é o principal problema entre os orelhões da região.

Em 1997, havia 11.025 telefones públicos em operação nas sete cidades. Cerca de 14% deles eram depredados todos os meses, segundo dados fornecidos na época pela extinta CTBC (Companhia Telefônica da Borda do Campo).

Hoje, a proporção aumentou para 25%: dos 15 mil orelhões que a região tem, 3.750 apresentam defeitos por mês.

O Diário testou, ao todo, 50 orelhões nas cidades de Santo André, São Caetano, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra nas últimas duas semanas. Dos 50 aparelhos, 20 apresentavam desde pichações até coberturas perfuradas.

Em Santo André, um dos telefones da Estação Rodoviária estava tomado por adesivos. "As condições dos orelhões estão cada vez piores. As pessoas não têm consciência de que é um bem público e acabam deteriorando", disse Raimundo Julião da Silva, 42, do Jardim Santo André, que tem celular, mas usa o orelhão para conversar com os familiares na Paraíba, no Nordeste. A ligação chega ser 45% mais barata do que de celular pré-pago, informou a Telefônica.

A situação é pior em Mauá, onde a reportagem constatou que, na Avenida Itapark , no bairro Jardim Itapark, um dos seis orelhões tinha, além das pichações, um buraco na cobertura. "Como muitos têm celular, não se importam em preservar o telefone público. Por isso, estão sujos, pichados e destruídos como esse da avenida", disse o técnico em eletrônica Renan Matos de Souza, 31. Segundo Maria Inês Dolci, coordenadora institucional do Pro Teste, houve redução na capacidade de manutenção. "Terceirizaram as empresas que fazem isso. Assim, os orelhões ficam quebrados, às vezes, por longo período", afirmou. A Telefônica informou que trabalha constantemente para reduzir os atos de vandalismo contra os telefones públicos.

Insuficiente - Além do vandalismo, mesmo com o aumento de aparelhos na região, alguns bairros afastados sofrem com a escassez de orelhões e seus moradores reclamam que muitos ficam mudos.

"Moro afastada do Centro, não tenho telefone fixo e o orelhão que fica quase em frente à minha casa vive quebrado. Os demais, que são outros dois, estão a mais de 15 minutos de caminhada. Se tenho uma emergência, como faço?",questionou a dona de casa Maria dos Santos Fernandes, 41, moradora do bairro Pedreira, em Rio Grande da Serra.

A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) exige um orelhão para cada 100 habitantes e, no mínimo, 2% deles adequados a deficientes.

Pesquisa aponta falta de conservação dos aparelhos públicos
O Instituto Pro Teste analisou 853 telefones públicos em três capitais - São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre - em 2008, e apontou que apenas 5% dos aparelhos estavam limpos e funcionando. O principal problema é o vandalismo, como pichações e depredações.

O teste foi passado para a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) e para a empresa concessionária de telefonia para indicarem que melhorias vão fazer. Pode ser feito um novo teste neste ano. Segundo Maria Inês Dolci, coordenadora institucional do Pro Teste, o orelhão é um bem de utilidade pública. "As empresas são obrigadas a mantê-los, principalmente, para a população de baixa renda, que não tem telefone fixo e acaba indo para o (celular) pré-pago." (Tiago Dantas)

Fone quebrado e obstrução do leitor são recordes de queixas
Fone quebrado e obstrução da leitora de cartão telefônico são as principais reclamações recebidas pela Telefônica, que representam 30% das visitas técnicas da empresa aos locais. Ribeirão Pires foi a única cidade em que a reportagem encontrou esses dois problemas.

Ao testar um orelhão localizado na Rua Professor Antonio Nunes, no bairro Santa Luzia, a reportagem levou um choque. O motivo seria que o aparelho não tinha a tampa de proteção do fone e, por isso, os fios estavam desencapados e pendurados.

A proprietária de uma bomboniere que não quis se identificar contou que, em menos de duas semanas, ouviu gritos de duas mulheres que também levaram choque. "Uma delas estava grávida de nove meses e veio me perguntar se estava sabendo do problema. Em seguida coloquei um papel informando para que ninguém usasse, mas tiraram".

O proprietário de uma lanchonete na Avenida Capitão José Gallo, no Centro, disse que colocaram uma chave de roda na obstrução do cartão telefônico. "Há muitas pessoas que gostam de deteriorar os serviços públicos. Entrei em contato com a Telefônica, mas demoraram para arrumar. O ideal seria que o aparelho fosse colocado dentro do comércio, assim teria como preservá-lo", disse Marcelino Raimundo de Souza, 47.

Conserto - A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) exige que a prestadora mantenha o serviço disponível 24 horas nos sete dias da semana. Os consertos não devem ultrapassar mais que 24 horas. Nos casos de reparos detectados por sistemas de supervisão, o atendimento deve ser feito em até oito horas, contadas a partir da solicitação. A agência ainda diz que, para cada 100 orelhões, não deve haver mais do que oito pedidos de reparo em um mês. Caso isso ocorra, a empresa é obrigada a realizar manutenção preventiva. Quem quiser fazer alguma denúncia para a agência pode ligar para o número 133.

Especialistas afirmam que orelhão não vai deixar de existir
Especialistas afirmam que o uso do orelhão caiu, mas garantem que isso não é suficiente para que a população deixe de usar o aparelho. "Acredito que tenha caído cerca de 40% o uso do telefone público. Isso se dá pela melhora na condição econômica e também ao objeto de desejo que se tornou o celular. Hoje temos aparelhos acessíveis a todos os bolsos", disse o professor de engenharia elétrica da FEI Antonio Carlos Gianoto.

Segundo a Anatel, em média, há um celular por habitante na Grande São Paulo. "Com o advento da telefonia celular, os orelhões ficaram para a parcela da população que não quis aderir à tecnologia. O aparelho ainda é útil em situações de emergência, em regiões onde o celular não tem sinal", explicou Ivo Reis Fontes, professor aposentado do curso de Engenharia Elétrica da Unifesp de Bauru. (Tiago Dantas)




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