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Parque Capuava dividido em dois

André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Camila Brunelli
Do Diário do Grande ABC

09/05/2011 | 07:54


 

São apenas dois quilômetros quadrados e quase 20 mil habitantes. O que pode parecer uma agitação interminável é, na verdade, um bairro tranquilo e basicamente residencial, cujo sossego só é interrompido pelas explosões ouvidas à noite pelos moradores das redondezas do Parque Capuava, em Santo André. Trata-se da liberação de gás que as empresas do Polo Petroquímico realizam esporadicamente.

 

"Moro há 25 anos aqui e até hoje me assusto", disse Fábio Luís Michelino de Oliveira, enquanto lavava seu fusca azul calmamente na calçada de casa. "Quando ouço o estouro, de noite, acordo assustado e já olho para os lados da Petroquímica. Fora que faz um clarão por aqui, que até dispensa a iluminação na rua."

 

O líder de produção Agnaldo Matias de Jesus e a família nem se assustam mais com o barulho. Até os filhos pequenos já se acostumaram. "Acho que tudo é questão de hábito. As crianças da (favela no Rio) Rocinha também já devem ter se acostumado com o barulho do tiroteio", ironizou.

 

A sujeira pela qual a empresa vizinha é responsável é o que mais incomoda a comunidade. A poluição e uma borra preta que se acumula nos telhados das casas vira uma água muito suja que corre para os quintais quando chove.

 

Essa, aliás, é mais uma das características peculiares do Parque Capuava. De um lado, a imagem do desenvolvimento em forma de Polo Petroquímico. Do outro, um bairro pacato, onde as casas térreas e sobrados são maioria frente aos edifícios que cada vez mais tomam as outras localidades.Duas grandes avenidas são os principais centros comerciais: a Evangelista de Souza e das Nações.

 

No entanto, quem mora há mais de dez anos no Capuava conta que nem sempre o sossego reinou. O índice de criminalidade caiu muito, mas a segurança ainda é uma reivindicação dos moradores. Ninguém sabe ao certo o motivo, mas "antes não dava para ficar na porta de casa depois das 22h", contam os moradores mais antigos.

"Esse é o melhor bairro no qual eu já morei", disse o técnico químico Douglas Dias, que estava saindo com a bicileta.

 

Loja de calotas é referência do bairro na Av. dos Estados

Quem vai de Santo André a Mauá pela Avenida dos Estados certamente já viu ou ouviu alguém falar da loja de calotas que virou referência na via expressa. Como a numeração da via é confusa, os motoristas costumam utilizar algumas referências às margens da avenida. A referência da altura do Parque Capuava é justamente a loja que exibe cerca de duas mil calotas penduradas.

O dono do comércio, João Tomé de Lima, 50 anos, é um maranhense simpático e de riso fácil que mora no bairro há 13 anos. Há apenas sete à frente da loja que começou como borracharia, Lima ficou conhecido pelos vizinhos como João Borracheiro. Com o tempo resolveu se enveredar por um novo ramo: o das calotas.

Como a venda de calotas novas e originais é proibida, Lima costuma oferecer um desconto aos compradores que quiserem dar suas calotas velhas - e arranhadas - na troca por novas, que ele mesmo reforma. A partir daí, começa o trabalho artesanal.

"Como a gente faz quando sobra um tempo, acaba demorando mais. Mas se eu pegar para reformar dois conjuntos com quatro calotas, acho que dá para fazer em dois dias", calculou. "O problema é que depois de lavar e lixar vão três mãos de tinta. Para cada uma, tenho que esperar duas horas para a secagem." Consegue vender um conjunto com quatro calotas reformadas por um valor entre R$ 40 e R$ 80. Original, ele diz, pode chegar a custar R$ 120 cada calota, dependendo do modelo do carro.

Atualmente, o borracheiro conta coma ajuda de um filho, um sobrinho e um vizinho para tomar conta do ponto no cruzamento entre a Avenida dos Estados e a Avenida Ayrton Senna da Silva, aberto todos os dias da semana, sem descanso.

‘Fui o primeiro a construir barraco', diz morador da favela

Quando, há 22 anos, Inaldo Antero dos Santos chegou à favela do Capuava, a região não possuía comércios. Conforme seus relatos, nem mesmo moradias de alvenaria ele achou por ali. "Eu fui o primeiro a construir. Por aqui só tinha barraquinho de madeira."

Atualmente com 44 anos, Santos saiu de Pernambuco aos 17 anos para tentar a vida no Sudeste, assim como tantos nordestinos. Morou um tempo no bairro Príncipe de Gales, quando achou um terreno para comprar. "Eu queria me livrar do aluguel."

Devidamente instalado, o pernambucano montou sua mercearia, a Mik Tudo. O motivo do nome? "É porque tem de tudo um pouco."

De tudo mesmo: desde de DVDs dos mais diversos artistas, garrafa de cerveja, utilidades domésticas, produtos de limpeza, tapetes e brinquedos.

Se tornou conhecido e hoje é vice-presidente da Associação dos Moradores da Favela do Capuava. Em 2004, tentou ir mais longe: queria ser representante do bairro, mas na Câmara Municipal de Santo André. Saiu, então, candidato a vereador. Teve 425 votos.

Não foi daquela vez.

 

Vila Zebu' se transforma em Polo Petroquímico

Ademir Medici

 

No século 19 e início do século 20, Capuava integrava a Fazenda Oratório, das maiores da região, que extrapolava as áreas de Santo André e Mauá e atingia setores da Zona Leste de São Paulo. Esta fazenda pertenceu aos Cardoso Franco, da família do coronel Saladino Cardoso Franco, que foi prefeito do antigo município de São Bernardo entre 1913 e 1930.

O nome Capuava é de origem indígena, por corruptela de ‘Caa-Poaba', que significa ‘abrigo na roça'. A denominação já era empregada na região no período imperial. E quando foi inaugurada a primeira parada de trens no local, em 1920, o nome Capuava já foi empregado para denominar a semente da atual estação, uma das poucas a preservar cancelas (ou porteiras) neste 2011.

O primeiro loteamento urbano ocorre na década de 1940, no hoje município de Mauá; o Parque Capuava, de 1957, já no território de Santo André, é uma sequência do Capuava original. Sua divisão inicial teve 1.492 lotes, com a média de 400 m2 cada um. Nos dois casos, entre os proprietários/loteadores, aparece a família paulistana dos Alcântara Machado.

Capuava, do lado de Mauá, era apelidada de ‘Vila Zebu', conforme depoimento que colhemos na década de 1970 de Emília Silvia Guimarães, uma das primeiras moradoras: "Da estação de Capuava a gente via a casa do Nico, de noite, iluminada. Parecia um zebu. Eu ficava louca da vida quando diziam vila zebu."

Outro pioneiro, Paschoal Marqueori, chegou a Capuava em 1941, convidado por um cunhado, feitor de José Alcântara Machado. A parte baixa do bairro, na várzea do Tamanduateí, era um brejo. Animais e suas carroças tinham dificuldade para passar. Afundavam no lodo.

O atual Polo Petroquímico abrange os dois Capuavas. A origem é a Refinaria União, privada no início - 1954 - e hoje integrante do sistema Petrobras. A unidade seguinte foi a Petroquímica União, projetada em 1968 e com operação inicial em 1972: 70% de suas áreas localizam-se em Santo André, 30 em Mauá.

Neste novo milênio, a Capuava dos caboclos do século 19 se transforma num misto: urbanismo e desenvolvimentismo. O aglomerado reúne 14 indústrias e empresas de médio e grande porte. A população, organizada, lutou, em décadas passadas, contra a poluição ambiental; a indústria investiu em equipamentos antipoluição. Hoje o polo mostra relevada importância para a economia de Santo André e Mauá, com reflexos em todo o Estado.



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Parque Capuava dividido em dois

Camila Brunelli
Do Diário do Grande ABC

09/05/2011 | 07:54


 

São apenas dois quilômetros quadrados e quase 20 mil habitantes. O que pode parecer uma agitação interminável é, na verdade, um bairro tranquilo e basicamente residencial, cujo sossego só é interrompido pelas explosões ouvidas à noite pelos moradores das redondezas do Parque Capuava, em Santo André. Trata-se da liberação de gás que as empresas do Polo Petroquímico realizam esporadicamente.

 

"Moro há 25 anos aqui e até hoje me assusto", disse Fábio Luís Michelino de Oliveira, enquanto lavava seu fusca azul calmamente na calçada de casa. "Quando ouço o estouro, de noite, acordo assustado e já olho para os lados da Petroquímica. Fora que faz um clarão por aqui, que até dispensa a iluminação na rua."

 

O líder de produção Agnaldo Matias de Jesus e a família nem se assustam mais com o barulho. Até os filhos pequenos já se acostumaram. "Acho que tudo é questão de hábito. As crianças da (favela no Rio) Rocinha também já devem ter se acostumado com o barulho do tiroteio", ironizou.

 

A sujeira pela qual a empresa vizinha é responsável é o que mais incomoda a comunidade. A poluição e uma borra preta que se acumula nos telhados das casas vira uma água muito suja que corre para os quintais quando chove.

 

Essa, aliás, é mais uma das características peculiares do Parque Capuava. De um lado, a imagem do desenvolvimento em forma de Polo Petroquímico. Do outro, um bairro pacato, onde as casas térreas e sobrados são maioria frente aos edifícios que cada vez mais tomam as outras localidades.Duas grandes avenidas são os principais centros comerciais: a Evangelista de Souza e das Nações.

 

No entanto, quem mora há mais de dez anos no Capuava conta que nem sempre o sossego reinou. O índice de criminalidade caiu muito, mas a segurança ainda é uma reivindicação dos moradores. Ninguém sabe ao certo o motivo, mas "antes não dava para ficar na porta de casa depois das 22h", contam os moradores mais antigos.

"Esse é o melhor bairro no qual eu já morei", disse o técnico químico Douglas Dias, que estava saindo com a bicileta.

 

Loja de calotas é referência do bairro na Av. dos Estados

Quem vai de Santo André a Mauá pela Avenida dos Estados certamente já viu ou ouviu alguém falar da loja de calotas que virou referência na via expressa. Como a numeração da via é confusa, os motoristas costumam utilizar algumas referências às margens da avenida. A referência da altura do Parque Capuava é justamente a loja que exibe cerca de duas mil calotas penduradas.

O dono do comércio, João Tomé de Lima, 50 anos, é um maranhense simpático e de riso fácil que mora no bairro há 13 anos. Há apenas sete à frente da loja que começou como borracharia, Lima ficou conhecido pelos vizinhos como João Borracheiro. Com o tempo resolveu se enveredar por um novo ramo: o das calotas.

Como a venda de calotas novas e originais é proibida, Lima costuma oferecer um desconto aos compradores que quiserem dar suas calotas velhas - e arranhadas - na troca por novas, que ele mesmo reforma. A partir daí, começa o trabalho artesanal.

"Como a gente faz quando sobra um tempo, acaba demorando mais. Mas se eu pegar para reformar dois conjuntos com quatro calotas, acho que dá para fazer em dois dias", calculou. "O problema é que depois de lavar e lixar vão três mãos de tinta. Para cada uma, tenho que esperar duas horas para a secagem." Consegue vender um conjunto com quatro calotas reformadas por um valor entre R$ 40 e R$ 80. Original, ele diz, pode chegar a custar R$ 120 cada calota, dependendo do modelo do carro.

Atualmente, o borracheiro conta coma ajuda de um filho, um sobrinho e um vizinho para tomar conta do ponto no cruzamento entre a Avenida dos Estados e a Avenida Ayrton Senna da Silva, aberto todos os dias da semana, sem descanso.

‘Fui o primeiro a construir barraco', diz morador da favela

Quando, há 22 anos, Inaldo Antero dos Santos chegou à favela do Capuava, a região não possuía comércios. Conforme seus relatos, nem mesmo moradias de alvenaria ele achou por ali. "Eu fui o primeiro a construir. Por aqui só tinha barraquinho de madeira."

Atualmente com 44 anos, Santos saiu de Pernambuco aos 17 anos para tentar a vida no Sudeste, assim como tantos nordestinos. Morou um tempo no bairro Príncipe de Gales, quando achou um terreno para comprar. "Eu queria me livrar do aluguel."

Devidamente instalado, o pernambucano montou sua mercearia, a Mik Tudo. O motivo do nome? "É porque tem de tudo um pouco."

De tudo mesmo: desde de DVDs dos mais diversos artistas, garrafa de cerveja, utilidades domésticas, produtos de limpeza, tapetes e brinquedos.

Se tornou conhecido e hoje é vice-presidente da Associação dos Moradores da Favela do Capuava. Em 2004, tentou ir mais longe: queria ser representante do bairro, mas na Câmara Municipal de Santo André. Saiu, então, candidato a vereador. Teve 425 votos.

Não foi daquela vez.

 

Vila Zebu' se transforma em Polo Petroquímico

Ademir Medici

 

No século 19 e início do século 20, Capuava integrava a Fazenda Oratório, das maiores da região, que extrapolava as áreas de Santo André e Mauá e atingia setores da Zona Leste de São Paulo. Esta fazenda pertenceu aos Cardoso Franco, da família do coronel Saladino Cardoso Franco, que foi prefeito do antigo município de São Bernardo entre 1913 e 1930.

O nome Capuava é de origem indígena, por corruptela de ‘Caa-Poaba', que significa ‘abrigo na roça'. A denominação já era empregada na região no período imperial. E quando foi inaugurada a primeira parada de trens no local, em 1920, o nome Capuava já foi empregado para denominar a semente da atual estação, uma das poucas a preservar cancelas (ou porteiras) neste 2011.

O primeiro loteamento urbano ocorre na década de 1940, no hoje município de Mauá; o Parque Capuava, de 1957, já no território de Santo André, é uma sequência do Capuava original. Sua divisão inicial teve 1.492 lotes, com a média de 400 m2 cada um. Nos dois casos, entre os proprietários/loteadores, aparece a família paulistana dos Alcântara Machado.

Capuava, do lado de Mauá, era apelidada de ‘Vila Zebu', conforme depoimento que colhemos na década de 1970 de Emília Silvia Guimarães, uma das primeiras moradoras: "Da estação de Capuava a gente via a casa do Nico, de noite, iluminada. Parecia um zebu. Eu ficava louca da vida quando diziam vila zebu."

Outro pioneiro, Paschoal Marqueori, chegou a Capuava em 1941, convidado por um cunhado, feitor de José Alcântara Machado. A parte baixa do bairro, na várzea do Tamanduateí, era um brejo. Animais e suas carroças tinham dificuldade para passar. Afundavam no lodo.

O atual Polo Petroquímico abrange os dois Capuavas. A origem é a Refinaria União, privada no início - 1954 - e hoje integrante do sistema Petrobras. A unidade seguinte foi a Petroquímica União, projetada em 1968 e com operação inicial em 1972: 70% de suas áreas localizam-se em Santo André, 30 em Mauá.

Neste novo milênio, a Capuava dos caboclos do século 19 se transforma num misto: urbanismo e desenvolvimentismo. O aglomerado reúne 14 indústrias e empresas de médio e grande porte. A população, organizada, lutou, em décadas passadas, contra a poluição ambiental; a indústria investiu em equipamentos antipoluição. Hoje o polo mostra relevada importância para a economia de Santo André e Mauá, com reflexos em todo o Estado.

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