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Joao Paulo II é o papa que mais pediu perdao


Do Diário do Grande ABC

11/03/2000 | 19:25


O papa Joao Paulo II celebrará neste domingo, na Basílica de Sao Pedro, em Roma, o Dia do Perdao. Acompanhado por sete cardeais, entre os quais o brasileiro d. Lucas Moreira Neves, ele pedirá perdao pelos pecados cometidos pelos cristaos no passado e fará uma exortaçao à "purificaçao da memória".

Para o papa, essa é uma das cerimônias mais significativas e esperadas entre todas as que foram programadas para o Jubileu do Ano 2000. Afinal, desde que subiu ao trono de Sao Pedro, há 21 anos, ele vem promovendo uma revisao das atividades da Igreja no passado e fazendo pedidos de perdao. Em 2 mil anos de história da Igreja Católica, nao se sabe de nenhum outro papa que tenha empregado tantas vezes a expressao "eu peço perdao".

O papa polonês já fez mea-culpa pelas guerras religiosas, especialmente as cruzadas, na Idade Média. Falou com clareza dos "erros" da Inquisiçao, rejeitando os "métodos de intolerância ou até mesmo de violência" que a caracterizaram. Em encontros que manteve com povos indígenas, reconheceu as injustiças históricas cometidas contra eles em nome da evangelizaçao. Também manifestou pesar pelo fato de o mundo cristao ter apoiado o tráfico de escravos. "A esses homens nós nao cessamos de pedir perdao", disse o pontífice, referindo-se aos índios e aos negros, em 1992, durante as comemoraçoes dos 500 anos da chegada dos europeus à América.

Temas espinhosos - A lista é longa. Joao Paulo II tem falado com freqüência de temas espinhosos para os católicos, tais como divisoes entre igrejas, intolerância religiosa, racismo, omissoes e conivências com ditaduras. Numa pesquisa concluída em 1997 e publicada no livro Quando o Papa Pede Perdao (Editora Paulinas, R$ 16,60), o vaticanista italiano Luigi Accattoli reuniu 94 textos nos quais o papa polonês reconheceu culpas históricas da Igreja ou pediu perdao. De lá para cá a lista cresceu bastante, em razao das comemoraçoes do Jubileu, época própria para o perdao, segundo a tradiçao bíblica.

Na maior parte das vezes, os mea-culpa sao elogiados dentro e fora da Igreja. Mas também há manifestaçoes contrárias a essa revisao, provocadas quase sempre pelo receio de que elas comprometem a continuidade e a identidade histórica da Igreja.

Também existe o temor de que os pedidos de perdao acabem servindo mais aos detratores da Igreja do que aos seus seguidores. Fala-se ainda que poderiam ofuscar uma história rica de méritos nos campos da caridade e da cultura.

Um dos críticos dessa revisao histórica, o bispo italiano Alessandro Maggiolini, disse que ela "dá a impressao de que, ao converter-se ao catolicismo, as pessoas entram numa quadrilha de velhacos". Outro italiano, o cardeal Biffi, disse que as "auto-acusaçoes" poderiam confundir o "povo fiel, que nao sabe fazer muitas distinçoes teológicas".

Documento - Diante de reaçoes tao diversas, a cúpula da Igreja achou necessário divulgar um documento oficial sobre o assunto. Discutido durante dois anos pela Comissao Teológica Internacional, presidida pelo cardeal alemao Joseph Ratzinger, o texto esclarece e reforça as posiçoes do pontífice, segundo o qual a verdade é uma forma de glorificar a Deus e de ajudar os povos a se reconciliarem.

O documento, que acaba de ser publicado no Brasil com o título Memória e Reconciliaçao (Editora Loyola, R$ 4,50), também lembra que em nenhum momento foram colocadas em dúvida a santidade e a infalibidade da Igreja. De fato, em seus pronunciamentos o papa nunca se afasta da doutrina católica de que a instituiçao transcende qualquer aspecto histórico. Os pecados que admite nao foram cometidos pela Igreja, que nunca peca, mas por indivíduos que faziam parte dela. Em 1985, numa visita a Camaroes, na Africa, ele disse: "No curso da história, seres humanos pertencentes a naçoes cristas infelizmente nem sempre se comportaram como cristaos e, por isso, nós pedimos perdao aos nossos irmaos africanos que tanto sofreram, por exemplo, com o tráfico de escravos."

Revisao - É bem provável que, no futuro, os historiadores apontem a revisao do passado da instituiçao como um dos principais legados do pontificado do polonês Wojtyla. Afinal, quase sempre houve resistência dos papas a qualquer tipo de autocrítica. Por outro lado, é difícil prever o impacto que isso terá entre os católicos e os que nao fazem parte da Igreja.

Ao mesmo tempo que alguns grupos consideram Joao Paulo II exageradamente audacioso, outros afirmam que a autocrítica ainda é timida demais. Entre esses últimos encontram-se as feministas, insatisfeitas com o fato de as mulheres ainda serem relegadas a uma posiçao secundária nas instituiçoes católicas.

O que está muito claro nestas manifestaçoes de Joao Paulo II é que a Igreja caminha - apesar de sua lentidao, provocada pelo peso da história e de seu gigantismo e pela necessidade de manter-se coesa. Diante disso, pode-se esperar que no futuro sejam revistas posiçoes que hoje parecem intocáveis, como o celibato dos padres e a presença das mulheres nos altares. Afinal, já houve um tempo em que os representantes da instituiçao consideravam a escravidao um direito natural, e as mulheres, seres inferiores.



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Joao Paulo II é o papa que mais pediu perdao

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11/03/2000 | 19:25


O papa Joao Paulo II celebrará neste domingo, na Basílica de Sao Pedro, em Roma, o Dia do Perdao. Acompanhado por sete cardeais, entre os quais o brasileiro d. Lucas Moreira Neves, ele pedirá perdao pelos pecados cometidos pelos cristaos no passado e fará uma exortaçao à "purificaçao da memória".

Para o papa, essa é uma das cerimônias mais significativas e esperadas entre todas as que foram programadas para o Jubileu do Ano 2000. Afinal, desde que subiu ao trono de Sao Pedro, há 21 anos, ele vem promovendo uma revisao das atividades da Igreja no passado e fazendo pedidos de perdao. Em 2 mil anos de história da Igreja Católica, nao se sabe de nenhum outro papa que tenha empregado tantas vezes a expressao "eu peço perdao".

O papa polonês já fez mea-culpa pelas guerras religiosas, especialmente as cruzadas, na Idade Média. Falou com clareza dos "erros" da Inquisiçao, rejeitando os "métodos de intolerância ou até mesmo de violência" que a caracterizaram. Em encontros que manteve com povos indígenas, reconheceu as injustiças históricas cometidas contra eles em nome da evangelizaçao. Também manifestou pesar pelo fato de o mundo cristao ter apoiado o tráfico de escravos. "A esses homens nós nao cessamos de pedir perdao", disse o pontífice, referindo-se aos índios e aos negros, em 1992, durante as comemoraçoes dos 500 anos da chegada dos europeus à América.

Temas espinhosos - A lista é longa. Joao Paulo II tem falado com freqüência de temas espinhosos para os católicos, tais como divisoes entre igrejas, intolerância religiosa, racismo, omissoes e conivências com ditaduras. Numa pesquisa concluída em 1997 e publicada no livro Quando o Papa Pede Perdao (Editora Paulinas, R$ 16,60), o vaticanista italiano Luigi Accattoli reuniu 94 textos nos quais o papa polonês reconheceu culpas históricas da Igreja ou pediu perdao. De lá para cá a lista cresceu bastante, em razao das comemoraçoes do Jubileu, época própria para o perdao, segundo a tradiçao bíblica.

Na maior parte das vezes, os mea-culpa sao elogiados dentro e fora da Igreja. Mas também há manifestaçoes contrárias a essa revisao, provocadas quase sempre pelo receio de que elas comprometem a continuidade e a identidade histórica da Igreja.

Também existe o temor de que os pedidos de perdao acabem servindo mais aos detratores da Igreja do que aos seus seguidores. Fala-se ainda que poderiam ofuscar uma história rica de méritos nos campos da caridade e da cultura.

Um dos críticos dessa revisao histórica, o bispo italiano Alessandro Maggiolini, disse que ela "dá a impressao de que, ao converter-se ao catolicismo, as pessoas entram numa quadrilha de velhacos". Outro italiano, o cardeal Biffi, disse que as "auto-acusaçoes" poderiam confundir o "povo fiel, que nao sabe fazer muitas distinçoes teológicas".

Documento - Diante de reaçoes tao diversas, a cúpula da Igreja achou necessário divulgar um documento oficial sobre o assunto. Discutido durante dois anos pela Comissao Teológica Internacional, presidida pelo cardeal alemao Joseph Ratzinger, o texto esclarece e reforça as posiçoes do pontífice, segundo o qual a verdade é uma forma de glorificar a Deus e de ajudar os povos a se reconciliarem.

O documento, que acaba de ser publicado no Brasil com o título Memória e Reconciliaçao (Editora Loyola, R$ 4,50), também lembra que em nenhum momento foram colocadas em dúvida a santidade e a infalibidade da Igreja. De fato, em seus pronunciamentos o papa nunca se afasta da doutrina católica de que a instituiçao transcende qualquer aspecto histórico. Os pecados que admite nao foram cometidos pela Igreja, que nunca peca, mas por indivíduos que faziam parte dela. Em 1985, numa visita a Camaroes, na Africa, ele disse: "No curso da história, seres humanos pertencentes a naçoes cristas infelizmente nem sempre se comportaram como cristaos e, por isso, nós pedimos perdao aos nossos irmaos africanos que tanto sofreram, por exemplo, com o tráfico de escravos."

Revisao - É bem provável que, no futuro, os historiadores apontem a revisao do passado da instituiçao como um dos principais legados do pontificado do polonês Wojtyla. Afinal, quase sempre houve resistência dos papas a qualquer tipo de autocrítica. Por outro lado, é difícil prever o impacto que isso terá entre os católicos e os que nao fazem parte da Igreja.

Ao mesmo tempo que alguns grupos consideram Joao Paulo II exageradamente audacioso, outros afirmam que a autocrítica ainda é timida demais. Entre esses últimos encontram-se as feministas, insatisfeitas com o fato de as mulheres ainda serem relegadas a uma posiçao secundária nas instituiçoes católicas.

O que está muito claro nestas manifestaçoes de Joao Paulo II é que a Igreja caminha - apesar de sua lentidao, provocada pelo peso da história e de seu gigantismo e pela necessidade de manter-se coesa. Diante disso, pode-se esperar que no futuro sejam revistas posiçoes que hoje parecem intocáveis, como o celibato dos padres e a presença das mulheres nos altares. Afinal, já houve um tempo em que os representantes da instituiçao consideravam a escravidao um direito natural, e as mulheres, seres inferiores.

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