Setecidades

São Caetano é única da região a suspender o auxílio-merenda




A Prefeitura de São Caetano foi a única das sete cidades do Grande ABC que suspendeu o auxílio-merenda, que beneficiava 20.640 alunos da rede municipal. O cartão com R$ 90 mensais por estudante foi entregue às famílias em abril de 2020 e mantido até 30 de junho, quando a administração fez o último depósito após autorizar a retomada das aulas presenciais, iniciadas em julho. No entanto, famílias que vivem em situação de vulnerabilidade social e que optaram por não mandar os filhos para a escola por medo da Covid relatam situação de necessidade com o corte.

Segundo a Prefeitura, o benefício foi suspenso devido à “ótima adesão” às aulas presenciais, além de justificar que os estudantes que frequentam as unidades escolares estão recebendo a alimentação no local. Entretanto, com a pandemia da Covid, a volta ao ambiente estudantil é facultativa e diversas famílias, por medo da contaminação, optaram por manter crianças e jovens em casa com o ensino remoto. Estes, porém, ficaram sem a merenda presencial e também perderam o auxílio.

Esse é o caso da saladeira Maria Selma Leite de Souza, 61 anos, que cria sozinha os quatro netos: Nicolas, 11, Pedro Henrique, 8, Davi, 5, e Lorena, 4. Cada um recebia R$ 90 e, com isso, os R$ 360 mensais “salvaram a vida” da família. “Ganho muito pouco. Pago aluguel e todas as contas de casa, e ainda tenho quatro crianças para sustentar. O auxílio-merenda é o que estava me segurando e ajudava muito na compra do mercado”, reclamou a moradora do bairro São José. “As crianças que vão para aula presencial ainda recebem merenda na escola, e os que ficam em casa? Ficam sem comer? Isso não é justo”, frisou a avó das crianças.

Sem dinheiro para comprar mantimentos e com armários praticamente vazios, Selma relatou que chegou a pedir ajuda ao filho (tio das crianças), para não deixar os netos passarem necessidades. “Tive de ligar para meu filho, que também tem sua família para cuidar, para pedir uma caixa de leite porque estava sem um centavo para comprar”, lamentou, explicando que não está mandando os netos para escola por medo. “Se um deles ficar doente, não sei o que fazer. Sou sozinha com eles. Este prefeito que entrou (Tite Campanella – Cidadania) está difícil. Não gostei dele de jeito nenhum, esse é sem futuro. E nós ficamos esquecidos porque não temos a quem recorrer”, lamentou Selma.

A doméstica Elaine Silva, 60, cuida dos netos Cauã, 12, e Enzo, 7, enquanto a filha Pâmela, 32, que é enfermeira, trabalha. “Graças a Deus não falta nada para eles. Mas tenho pena das crianças que não têm o que comer. Até para nós, que temos o pão na mesa, faziam falta os R$90”, ponderou ela, que mora no mesmo bairro.

A autônoma Valdileide dos Santos Filgueiras, 42, conhecida como Val, também criticou a postura da Prefeitura. A mãe do Cauã, 13, do Caique, 12, e do Yuri, 4 – o menor não frequenta as aulas porque, com a pandemia, não conseguiu matrícula na rede municipal – explicou que, embora não esteja mandando os meninos para a escola, se eles fossem seria em semanas alternadas. “Ou seja, eles teriam merenda em uma semana e na outra, não. E como ficam as crianças que só têm o de comer na escola?”, questionou.

As famílias criticaram ainda a falta de pagamento do auxílio-uniforme. Conforme publicado pelo Diário na terça-feira, a Prefeitura optou por retomar o benefício somente em 2022 e descontinuou, temporariamente, a obrigatoriedade no uso da vestimenta até o fim do ano. “Já começou errado. Retomam as aulas quinzenais, cortam os benefícios e o pior é que no caso do auxílio-merenda eles não avisaram. Soubemos do fim dos depósitos porque simplesmente parou de cair (o valor) e aí algumas mães reclamaram na Seduc (Secretaria de Educação) e no boca a boca se espalhou a notícia”, criticou Val, lamentando a administração de Tite. “Aqui é terra que não mora ninguém. Somos todos esquecidos”, finalizou ela, que também mora no São José.

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