Brickmann

Batam, critiquem. Mas pensem




Os caros leitores que me perdoem, mas assim não dá. Ninguém quer saber se o voto eletrônico com impressão simultânea é bom ou não: o bolsonarista diz que é bom, o antibolsonarista diz que é ruim. Ou, como diz Bolsonaro, a direita toma cloroquina, a esquerda toma tubaína. Eu prefiro tomar vacina. Mas, de qualquer forma, deste jeito não dá para achar uma saída.

Voltemos ao tempo dos bons políticos: a solução é conversar. Bolsonaro é autoritário? É. E, se souber que, perdendo o poder, vão tentar botá-lo na cadeia, junto com os filhos, a tentação do autoritarismo será muito mais forte. E não se pode esquecer que uma boa parcela da população o apoia – talvez não o suficiente para reelegê-lo, mas o bastante para provocar confusão. É preciso conversar, buscar os aliados dos principais candidatos, montar um pacto que não envolva vinganças. Nos Estados Unidos, Nixon renunciou, e a primeira medida de seu substituto Gerald Ford foi conceder-lhe perdão por irregularidades cometidas durante seu governo. No Brasil, o preço a pagar pela transição pacífica da ditadura à democracia foi a Lei da Anistia.

As inimizades se mantiveram, o ex-presidente Figueiredo manifestou seu desgosto saindo pela porta dos fundos do palácio, e a vida continuou. Punir crimes é importante; mas isso deve ser feito depois, pela Justiça, sem que a vingança recaia sobre quem perder. A linguagem de campanha, de que o adversário é comunista ou fascista, não faz parte do dia a dia normal do País.

O caso Lula
O ex-presidente Lula, de novo candidato, e forte, pode ser um exemplo. Seu caso levou anos sendo examinado e julgado; e, não fosse a militância vingativa que atuou nos julgamentos, as condenações poderiam afastá-lo da disputa. A evidência de que houve parcialidade levou a questão de novo ao ponto de partida. Ou seja, não funcionou a longo prazo. No caso Bolsonaro, a questão se repete: ele terá extrema dificuldade em tolerar uma derrota, mas se souber que além da derrota terá de enfrentar um julgamento internacional em Haia, depois de ter afrontado, infantil e inutilmente, tantos outros países, o tornará mais agressivo e potencialmente mais perigoso. Boa parte dos mais fiéis bolsonaristas está disposta a acreditar em qualquer coisa que ele diga, e a aceitar qualquer conclamação que ele faça. É preciso, num País que já foi amplamente castigado pela Covid, que se evite o risco de correr mais sangue.

Em tempo
Este colunista jamais votou ou votará em Lula ou Bolsonaro. Preferiria um candidato de centro, que liderasse o que o Brasil tem de melhor, a maioria silenciosa. Mas, de qualquer jeito, é conversando que as gentes se entendem.

Dúvida
A função do vice-presidente da República é substituir o presidente quando necessário. Mas, se não conversa com o presidente, se não é admitido nas reuniões do ministério, como pode assumir em caso de urgência, sem ter ideia do que está acontecendo? Além disso, vice desocupado é um perigo.

Sinta o cheirinho
A história é esquisitíssima: documentos oficiais do Itamaraty, aos quais o jornal O Estado de S.Paulo conseguiu acesso, informam que a Covaxin, a vacina indiana contra a Covid, custava em fevereiro US$ 1,34 a dose. O Ministério das Relações Exteriores dizia, em dezembro: a Covaxin custaria “menos que uma garrafa d’água”. Em fevereiro, o Brasil topou pagar US$ 15 por dose, 1.000% a mais. Das seis vacinas que compramos, foi de longe a mais cara (a segunda colocada no ranking é a da Pfizer, a US$ 10 a dose). E tem mais: todas as vacinas, menos a indiana, foram compradas diretamente dos laboratórios. A Covaxin foi comprada de uma empresa brasileira, que se apresenta como representante dos indianos (e nega ter recebido comissão pela venda). Trabalhará pro bono, pelo prazer de atender à população? Detalhe: a vacina ainda não foi aprovada pela Anvisa.

Algum palpite?
Cada laboratório cobra quanto quiser por seus produtos. Mas não deixa de ser curioso que o produtor indiano, menos conhecido do que Astrazeneca ou Pfizer, cobre mais do que eles. Nem que o preço tenha subido de maneira tão rápida. Nem que seja o único caso de venda por representante, não pelo produtor. Nem que esse representante não tenha comissão e, portanto, esteja trabalhando de graça. Bem, há coisas que parecem óbvias e não são, não é?

Opção pelo bem
Neste ano, é tudo virtual. A Parada Gay foi lembrada, mas não realizada; e um de seus principais eventos, a doação de alimentos a pessoas carentes, com ou sem Aids, não pôde ser presencial. Mas ainda há uma chance: vá ao link até sexta-feira, 25, e faça sua doação (em dinheiro, que fica mais fácil). Qualquer problema, envie a doação a Roseli Tardelli, tradicional militante contra a Aids, que faz um trabalho bonito e correto, sempre muito elogiado, em www.agenciaaids.com.br 

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