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Drama de Eriksen faz lembrar Serginho




O que aconteceu com o meia dinamarquês Christian Eriksen, sábado, pela Eurocopa, fez o torcedor brasileiro, e mais especificamente o do São Caetano, entrar em uma máquina do tempo. Quando o jogador de 29 anos caiu em campo durante o jogo entre Dinamarca x Finlândia, pela Eurocopa, em razão de uma parada cardiorrespiratória, invariavelmente veio à mente o que aconteceu há quase 17 anos com o zagueiro Serginho, do São Caetano, que teve problema similar em duelo contra o São Paulo, no Morumbi, em outubro de 2004. No entanto, o desfecho das histórias foi diferente. Sem desmerecer o doutor Paulo Forte, que foi quem entrou em campo para prestar o primeiro atendimento ao defensor azulino – que morreu horas depois –, o socorro prestado ao europeu foi mais eficiente e depois de 15 minutos de atendimento ainda dentro de campo, ele deixou o gramado reanimado, respirando com auxílio de oxigênio (sob aplausos de jogadores das duas seleções e do público presente), diretamente para um hospital, onde ainda permanece, em estado estável. 

A medicina evoluiu muito desde a fatalidade com Serginho e o ocorrido com Eriksen. Os protocolos evoluíram, os profissionais estão mais bem treinados e contam com mais experiências e bibliografias para tentar proceder em caso como este. Quando o médico dinamarquês chegou até o meio-campista, ele estava desacordado, mas ainda respirando. Porém, segundo o próprio profissional de saúde da seleção da Dinamarca, em instantes tudo mudou e foi necessário recorrer à massagem cardíaca, já com auxílio de outros integrantes da comissão técnica e socorristas da ambulância, para “trazer Eriksen de volta”. Os demais jogadores fizeram um semicírculo em volta do atendimento ao companheiro, em misto de oração e fonte de energia positiva. Alguns choraram, outros preferiram ficar de costas, mas todos visivelmente abalados. Também pudera: um dos principais atletas da seleção, eleito quatro vezes o melhor futebolista dinamarquês, passava pelo momento mais delicado da vida. 

O médico do Água Santa, Natan Arnoni, concordou em falar à coluna sobre o socorro prestado a Eriksen e, segundo ele, o procedimento foi acertado. “Pelo que eu vi, aparentemente teve uma síncope, vê que cai do nada no campo. E aparentemente o atendimento foi correto. Não mostraram muito, tanto que cobriram, jogadores ficaram na frente, então não teve acesso ao que foi feito. Mas fizeram as manobras de ressuscitação, tanto que o jogador está bem, estável, recebendo visita. Às vezes não dá para fazer todas as manobras em campo, mas se neste caso teve sucesso, então no geral o atendimento foi adequado”, explicou o profissional. Ainda segundo o médico, constantemente ele e os colegas passam por atualizações de procedimentos para casos como este.  “Na Federação Paulista todo campeonato sempre revisam os protocolos, promovem cursos.”

Revelado no Ajax, da Holanda, Eriksen passou sete temporadas no Tottenham, da Inglaterra, e há três anos se transferiu para a Inter de Milão, da Itália. Em todos os clubes, anualmente passou por check-up completo e foi liberado para desempenhar seu trabalho. Assim, Natan Moroni indica que o que aconteceu com o dinamarquês foi uma “fatalidade”. “É atleta que, pelos relatos, tem exames de rotinas todos ok, não tem história prévia e aconteceu com ele em campo. O mais importante hoje na medicina é a prevenção, tanto de lesão quanto desses eventos cardiorrespiratórios. Os exames de rotina são de suma importância. Fazer exames de rotina cardiorrespiratórios, boa anamnese, conhecer atleta e saber do histórico, fazer avaliação de outras patologias, como hipertensão, diabetes, conhecer histórico familiar, além de exames de sangue, ainda mais nessa fase da Covid-19. Mas infortúnio, infelizmente, acontece. E parece que foi o caso. Mesmo fazendo toda a prevenção, pode acontecer. Então o que fica de lição é talvez fazer investigação ainda mais aprofundada, mas é fatalidade que pode ocorrer”, afirmou o médico do Água Santa, que preferiu não opinar sobre a possibilidade de Eriksen voltar a jogar. “Não tem como garantir que vá ou não acontecer com atleta que já teve histórico”, concluiu.

Sobre isso, aliás, o ex-jogador inglês Fabrice Muamba – que sofreu uma parada cardiorrespiratória em 2012, pela Copa da Inglaterra, e ficou uma hora e 18 minutos desacordado –, falou ao jornal The Times. “É muito cedo para saber sobre sua saúde física, mas posso compartilhar algo sobre a batalha mental que, em muitos aspectos, é a parte mais difícil da jornada que temos pela frente. Meu conselho é dar um passo para trás e levar todo o tempo de que precisar, porque isso definitivamente o afetará mentalmente e sua família. Essa preocupação passa pela sua cabeça, independentemente do que os médicos digam. Não é fácil superar”, aconselhou o ex-meia do Bolton, hoje com 33 anos, que optou então por encerrar sua carreira.

Depois de toda aquela carga emocional vivida por todos os presentes no Estádio Parken, em Copenhague, a única situação que ficou malvista foi a volta da partida, duas horas depois, terminando com vitória dos finlandeses, por 1 a 0. Na minha opinião, faltou bom senso. Por mais que Eriksen tenha deixado o local falando – até para tranquilizar os colegas –, não havia mais clima para a bola rolar. “Havia muitos jogadores que não poderiam jogar esta partida. Estávamos em outro lugar (mentalmente). Mas, sim, tomamos a decisão menos ruim”, disse o atacante Braithwaite, do Barcelona, admitindo que os próprios dinamarqueses concordaram com o regresso ao campo. 

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