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Professora de Diadema leva aula à casa de aluno




A pandemia da Covid-19 trouxe, entre tantos desafios, as aulas remotas para a realidade de crianças, jovens e adultos. Porém, os pequenos que estão em período de alfabetização, ou até mesmo aqueles que têm alguma dificuldade de aprendizado, se viram em situações complicadas com o ensino a distância. Caso esse do pequeno Davi Marin Pereira, que aos 9 anos ainda não conseguiu se alfabetizar e, sem as aulas presenciais, confessa que “conhecer as letrinhas” não foi tarefa fácil.

Morador do morro do Samba, no Serraria, em Diadema, o pequeno está matriculado na Emeb (Escola Municipal de Educação Básica) Doutor Mário Santalúcia, no bairro vizinho à sua casa, o Jardim Ruyce. Para sua sorte, a escola em que estuda tem amplo projeto de educação humanizada, onde professores e funcionários realizam diariamente, além das aulas on-line, a busca ativa de alunos que estejam se ausentando e projetos de auxílio aos que têm dificuldades de aprendizagem.

Neste ano, Davi, que está no 4º ano do ensino fundamental, conheceu a professora Terezinha da Rocha, 56, que leciona no município desde 2012. Pedagoga há 33 anos, a docente revela que, com as aulas somente on-line, estava se sentindo “inútil” ao ver a dificuldade do novo aluno, e de outros seis, motivo pelo qual decidiu adotar espécie de ensino delivery. “Tomei a decisão de, a cada 15 dias, ir na casa de cada um destes alunos que têm mais dificuldade em acompanhar as aulas remotas. Levo para eles atividades específicas e, depois de uma semana, faço a correção individual com cada um por aula on-line. Volto na casa deles para buscar os cadernos e aproveito para auxiliar nesse processo de aprendizagem de perto”, conta Terezinha.

No caso do Davi, ela explica que ficou preocupada ao ver que ele ainda não conhecia as letras e números. “Embora ele faça acompanhamento com psicólogo (o profissional foi indicado para estudar se o menino apresenta alguma dificuldade de aprendizado por questões psicoemocionais), eu me preocupei com esse atraso dele na alfabetização. Então, todos os dias, às 12h, entro em aula individual com ele por ligação de Whatsapp. Depois, das 13h às 18h, sigo o período letivo com os demais alunos”, relatou, contando que Davi não conseguia acompanhar as aulas com os colegas.

No entanto, a vontade de Davi em entender a língua portuguesa é tanta que ele mesmo liga para a professora antes de iniciar a aula com medo de perder a hora e, não bastasse a responsabilidade, coloca até o uniforme escolar para sentir que está verdadeiramente em aula, como ele mesmo relatou. “Eu amo ir para escola e sinto muita saudade de estar presencial. Com o uniforme, parece mesmo que estou na aula”, garantiu o menino, assumindo que, entre todas as disciplinas, o que mais gosta de estudar é o “abecedário”.

Para chegar na unidade educacional Davi tem de fazer boa caminhada, mas isso não é problema para ele, já que, segundo sua mãe, Luana Pereira, 27, ele pede para ir com ela toda semana até a instituição, mesmo que seja apenas “para buscar um papel”.

Luana é ajudante de cozinha e seu marido, Diego, é feirante. Ambos trabalham o dia todo e deixam o pequeno Davi e seu irmão mais novo, Miguel, 5, com a avó. “Quando dá meio-dia, o Davi desce para nossa casa e entra na aula por conta própria. Nunca falta. Ele tem muita vontade de aprender”, disse a mãe, orgulhosa.

Davi revela que quer aprender a ler e a escrever para poder usar o computador, e também entender as placas. “Quero saber onde estou e ler as coisas que estão à minha volta”, confessa Davi, que soletrou para equipe do Diário seu nome, feliz pelo avanço. “Antes eu não conseguia pensar assim nas letras”, comemorou.

Luana garante que a professora Terezinha foi “um anjo” na vida do filho. “Ela está sendo maravilhosa. Ele ama a escola, estudar e, agora, a professora. Ver que ele está se desenvolvendo graças à dedicação da Terezinha é muito gratificante”, comemora Luana, que incentiva o filho a contar e a identificar letras e números ao longo do dia.

Especialista aponta prejuízo na alfabetização

Embora boa parte das escolas tenha se adaptado ao modelo de aula remota e disponibilizado recursos para manter o aprendizado, a pedagoga, mestre em educação, coordenadora e formadora da Comunidade Educativa Cedac, Fátima Fonseca destaca que, mesmo assim, a pandemia trouxe prejuízos para crianças em fase de alfabetização.

“Não há dúvidas que a pandemia surtiu impacto ainda maior para aquelas que estão sendo alfabetizadas. Nesse período, as crianças têm menos autonomia para o desenvolvimento de atividades e isso dificulta muito o trabalho remoto com elas”, explicou a especialista.

Fátima comenta que o período de alfabetização infantil requer mais intervenção dos professores para que possam avançar na leitura e na escrita, além disso, pesa a falta de convivência com colegas, aspecto que estimula o pensar. “Essas são reclamações dos pais das crianças que estão em alfabetização neste período de pandemia, porque eles, muitas vezes, não sabem como intervir. E nem teriam mesmo como saber, porque não são profissionais da área”, pontua a pedagoga.

A profissional destaca a atuação da professora de Diadema Terezinha da Rocha, 56 anos, que optou por visitar os alunos que demonstram mais dificuldade no aprendizado, de forma que, mesmo que rapidamente, consegue entregar atividades e explicar de maneira presencial, e posteriormente individual, os exercícios.

“Essa profissional está garantindo essa intervenção a quem mais precisa. Acho isso muito bacana. Com a pandemia é importante que aqueles alunos que estão mantendo somente o modelo remoto tenham atividades síncronas com os professores, ou seja, momento, mesmo que seja pelo Whatsapp, onde possam pensar e refletir sobre a escrita”, frisou Fátima, destacando que a alfabetização não se trata de memorização e, sim, refletir sobre a situação.

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