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Dieta saudável não engorda e não emagrece!




 As verdades não são adequações, estão em conformidade com os fatos, mas nem sempre agradam e quando abordamos conduta alimentar invadimos searas dogmáticas. Existe muito interesse, de vários setores, que os indivíduos com sobrepeso ou obesidade assumam a responsabilidade por suas condições. Réus e rés confessos, com seus excessos de depósitos gordurosos, passam a visitar com assiduidade serviços de saúde, nos quais invariavelmente recebem aconselhamento para emagrecer. As instituições direcionadas para o atendimento à obesidade e ao sobrepeso ofertam orientações dietéticas com reduções da ingesta calórica e insistentes pedidos para a prática de exercícios, com o que, aparentemente, entendem a missão como cumprida.

Para que a imposição da restrição calórica e a obrigação aos exercícios físicos não sejam contestadas a justificativa apresentada é cartesiana, com a demonstração óbvia de que o acúmulo de peso resulta da maior ingesta calórica e/ou menor consumo energético. Sem dúvida, não há equívoco nestas contas, mas quando aplicamos esta aritmética para o organismo humano, sem outras observações, estamos assegurando que o emagrecimento passa apenas por uma consultoria técnica que encontre o número de calorias que deva ser ingerido e/ou o quanto deve ser gasto pelo indivíduo.

A maioria dos estudos nutricionais limitando calorias, que contemplam sucesso para perda ponderal, demonstram resultados obtidos em oito a 12 semanas de avaliação, enquanto aqueles que perseguem os números por um a cinco anos, encontram a retomada do peso na quase totalidade dos envolvidos. Do outro lado, a prática de exercícios físicos moderados, que sempre demonstra extraordinários benefícios para todos os setores orgânicos, não promove diminuição de peso pelo gasto calórico.

Finalmente, estas deduções trazidas à baila pela ciência criam novos movimentos nas abordagens dietéticas, com correntes de estudos nutricionais que passaram a desenvolver a qualificação da dieta, no contraponto da inexequível quantificação. Em outras palavras, diante da impossibilidade de limitar o consumo calórico, agora a ordem é qualificar a dieta. Isso levará ao emagrecimento? Não, mas podendo ser executada sem qualquer desconforto, poupará o organismo das mudanças induzidas em seu metabolismo por substâncias contidas em grande número de alimentos e outros produtos no mundo contemporâneo.

Esta argumentação tem sido chamada por alguns de “contradieta”, no que seria mais correto apontá-la como contrária às dietas restritivas, movimento que caminha alinhado com a aceitação incrivelmente crescente do tratamento farmacológico e cirúrgico para a obesidade, receptividade relacionada à qualidade dos novos medicamentos emagrecedores e das melhores técnicas cirúrgicas.

“Afora a correta eliminação de carboidratos refinados, gorduras sem qualidade e alimentos processados (com todos os seus aditivos) das dietas, o que temos visto são elucubrações sugerindo o emagrecimento por rearranjos alimentares”, é parágrafo do artigo de minha autoria Dieta Para Quê? Dieta Para Quem? publicado em Veja.com em 20 de novembro de 2017 e resume em algumas linhas o exposto por todo o texto.

É possível que a “contradieta”, bem pontuada desde as primeiras horas do nascimento, evite o acesso de muitas substâncias aos cérebros dos recém-chegados e com isso muito ganho ponderal seja evitado. Mas, restarão muitos elementos químicos modificantes, de inúmeras fontes. Por enquanto, já é de inestimável serventia aceitarmos a verdade sobre as dietas restritivas, elas não resolvem. Por outro lado, alimentações saudáveis não emagrecem, mas nos protegem do ganho de peso.

Antonio Carlos do Nascimento é doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da USP e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

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