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Mãe Nossa de Cada Dia: Amor pela persistência




Claudia Theóphilo Del Monte, 56 anos, sempre sonhou em ser mãe. Já casada, no último ano da faculdade de psicologia seu desejo era tão intenso que a ideia de tentar ter filhos e não conseguir a enchia de medo. Teve primeiro Sarita, hoje com 34, biomédica e jornalista. Quando a mais velha tinha pouco mais de 1 ano, o casal decidiu ter outro filho. Samara, hoje com 32, teve anóxia (ausência de oxigênio) durante o nascimento. Aos 7 meses, foi diagnosticada com paralisia cerebral, que viria a afetar sua capacidade de falar e se movimentar. Com acesso a especialistas e terapeutas, Samara conseguiu se formar em jornalismo e atuar na área. Graças ao apoio e empenho familiar, sobretudo, de sua mãe.

A psicóloga relata que mesmo já convivendo com outras crianças com a mesma deficiência neuromotora que Samara, seja pela sua formação profissional ou por suas relações sociais, saber o diagnóstico da filha foi um grande impacto. “Não tinha ideia de como seria ao longo dos anos, mas sabia que tudo o que pudesse proporcionar para a minha filha mais velha também faria pela mais nova”, pontua. “Samara sempre participou de todas as atividades familiares, festas e eventos”, completa.

Até os 13 anos, Samara frequentou escolas especiais, onde aprendeu a se comunicar por meio de uma prancha de comunicação alternativa. Foi alfabetizada, pois, apesar da deficiência neuromotora, a sua capacidade intelectual foi preservada. “Aos 14, a colocamos em uma escola regular, de inclusão, porque era um desejo dela. Ir para uma escola igual à da irmã. Tinha muito medo, mas se ela tinha essa disposição, não poderia impedir”, relembra a mãe.

Todo o empenho da família, que mora em São Bernardo, em buscar assistência para a filha, aliado ao contexto socioeconômico favorável, fez com que Samara chegasse muito mais longe do que a mãe imaginava. “Para mim, se ela conseguisse concluir o ensino médio, já estaria de bom tamanho. Mas ela também quis a faculdade. E aí a irmã mais velha, que sempre foi muito próxima e companheira, a acompanhou e também se formou no mesmo curso, com um semestre de diferença”, pontua. Atualmente, Samara cursa filosofia, por incentivo da mãe. “Estou sempre a motivando a continuar estudando, a estar se desenvolvendo”, afirma.

Quando a jovem ainda era adolescente, os pais a ajudaram a criar uma revista anual, a Mais Deficiente, que já está na 17ª edição. Depois de formada, ela trabalhou em um site no Grande ABC e atualmente é colaboradora da Revista Reação, publicação especializada sobre e para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. Cláudia e Samara escreveram um livro sobre a história da jovem (Samara, Apaixonada pela Vida: a Paralisia Cerebral Não me Impediu de Ser Protagonista da Minha Própria História, 216 páginas, R$ 50) e as duas dão palestras e participam de eventos sobre inclusão.

A psicóloga avalia que há 32 anos, quando Samara nasceu, jamais imaginava que tantas coisas poderiam acontecer e que ela se desenvolveria como se desenvolveu. “Quando ela nasceu, pouco se falava sobre inclusão. As pessoas com deficiência não eram vistas na sociedade”, lembra. “Era tudo muito mais limitado”, conclui. “Olhando para trás, vejo que minha trajetória como mãe tem muitos erros, claro, mas todos foram necessários. É assim que a gente aprende e vai evoluindo”, afirma.

"A Samara me trouxe uma paz muito grande. Nas horas mais difíceis, ela me mostrava que não precisava ser assim tão difícil. Como mãe, minha maior felicidade são as realizações delas. Quando a gente se torna mãe, entendemos que nada mais é sobre nós, é tudo sobre eles”, pontua. “É tão imenso, que a gente não consegue definir o que é ser mãe em poucas palavras”, finaliza Claudia.

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