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A Covid-19 sorteia mortes e sequelas




Embora a maioria dos acometidos pela Covid-19 evolua com pouca ou nenhuma sintomatologia, estima-se que 20% possui quadro com gravidade suficiente para indicar cuidados médicos em ambiente hospitalar. Covid longa, persistente ou prolongada, assim como síndrome pós-Covid, são termos utilizados para descrever a persistência dos efeitos da Covid-19, em casos sintomáticos, por mais que quatro semanas após o diagnóstico. Estudo britânico apontou que fadiga (58%), dor de cabeça (44%), dificuldade de atenção (27%), perda de cabelo (25%) e dificuldade para respirar (24%) foram queixas mais frequentemente mantidas e por volta de 80% dos que desenvolveram a doença apresentavam ao menos algum sintoma após duas semanas da eliminação do vírus.

Outra pesquisa da Grã-Bretanha demonstrou que a síndrome pós-Covid afeta cerca de 10% dos jovens de 18 a 49 anos e 22% das pessoas com mais de 70, para anotar os percentuais mais expressivos. Porém, quando a avaliação foi dirigida apenas a sobreviventes da Covid-19 que necessitaram de internação, sete em cada dez deles não haviam se recuperado totalmente cinco meses após a alta, e um, em cada cinco, foi considerado como portador de uma nova patologia. Sequelas pulmonares, musculoesqueléticas, renais e neuropsíquicas foram muito frequentes em sobreviventes que estiveram por longo tempo submetidos a ventilação mecânica, com 80% desenvolvendo ao menos um desses comprometimentos, com recuperação variável. Contudo, estas graves complicações são eventualmente verificadas naqueles internados com doenças menos agressivas. Mas, o estudo publicado pela prestigiosa Revista Nature, nesta última quinta-feira, 22 de abril, suscita intrigantes possibilidades evolutivas para pacientes que desenvolveram a Covid-19 sem necessidade de internação.

Os autores do artigo intitulado ‘High-dimensional characterization of post-acute sequalae of Covid-19’ (Caracterização de alta dimensão de sequelas pós-agudas de Covid-19) avaliaram registros médicos de 73.435 pacientes do sistema de saúde do United States Department of Veterans Affairs (Departamento dos Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos) infectados pelo novo Coronavírus, que sobreviveram após 30 dias do diagnóstico, sem necessidade de internação. A comparação foi feita com os registros médicos de 4.990.835 pacientes, colhidos do mesmo sistema de saúde, os quais não tiveram Covid-19 e tampouco estiveram internados. Os resultados da pesquisa foram bastante surpreendentes, revelando que entre um e seis meses após a infecção, esses pacientes possuíam um risco 60% maior de morte, na comparação com aqueles que não haviam sido infectados com o vírus.

O mesmo estudo também revelou que para o mesmo período os sobreviventes não hospitalizados com Covid-19 tinham chance 20% maior de precisar de cuidados médicos ambulatoriais, quando comparados com aqueles que não foram infectados. Estes pacientes, mesmo tendo apresentado forma menos severa da doença, passaram a apresentar grande número de patologias que não possuíam, com similaridade àquelas anotadas na síndrome pós-Covid para os sobreviventes que estiveram internados, assim como, distúrbios do sono, deficits cognitivos, doenças autoimunes, diabetes e hipertensão. Estas abordagens sugerem que todos os serviços de saúde, tal qual se desenha na saúde pública de Santo André, possua ambulatórios para os cuidados de pacientes com síndrome pós-Covid. Mas estes estudos também deixam claro que a vacina é o melhor caminho para a imunização, pois, até mesmo os bem-aventurados que desenvolveram a forma branda da infecção, participavam, sem saber, de um outro sorteio do vírus, para imposição de sequelas!

Antonio Carlos do Nascimento é doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da USP e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

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