Setecidades

Cinco crianças recebem dose da vacina contra Covid por engano em Diadema




Atualizado às 12h24

Cinco crianças de Diadema, com idades entre 7 meses a 4 anos, foram vacinadas com dose da Coronavac, por engano, quando deveriam receber a imunização contra a Influenza (gripe). Todos os menores foram atendidos na UBS (Unidade Básica de Saúde) Jardim das Nações, no Taboão, na quarta-feira, e passaram ontem por avaliação médica no equipamento. O imunizante contra a Covid, desenvolvido pelo laboratório chinês Sinovac, em parceria com o Butantan, ainda não teve todos os testes em crianças concluídos.

O Diário teve acesso aos boletins de ocorrência registrados pelos responsáveis no 3º DP (Taboão), onde relatam ter levado os menores para vacinação contra a gripe, sendo que todos estão na faixa etária correspondente. Os pais afirmam que só souberam do erro depois, sobretudo porque, junto da carteira de vacinação, foi anexado adesivo com imunização contra a Influenza. No entanto, horas depois foram chamados à UBS, onde receberam a notícia de que “por equívoco da enfermeira responsável” as crianças receberam vacina contra a Covid.

Conforme a ocorrência, as crianças passam bem, porém, seguirão em acompanhamento médico pela UBS. Além disso, por hora não poderão receber a imunização da gripe e suas carteiras de vacinação foram assinadas informando a aplicação da Coronavac.

Uma das crianças vacinadas foi Liz Bernardes da Silva, de apenas 7 meses. Segundo o pai, o eletricista Marcos Bernardes da Silva, 30 anos, sua mulher levou a criança dia 14 para vacinação e, no mesmo dia, foi chamada de volta à UBS. "Ela não conseguiu ir à tarde e ontem pela manhã fomos juntos. Uma equipe da unidade nos contou o ocorrido, o que nos deixou bastante preocupados. Deu um sentimento de revolta, minha esposa chorou bastante, um sentimento de impotência, ainda mais com uma criança de sete meses. Estamos apreensivos e nervosos, mas, por enquanto, graças a Deus, está tudo normal com ela", diz. Silva diz que a equipe deu as orientações, as crianças serão acompanhadas e deu telefone de dois médicos, que devem ser acionados em qualquer sinal diferente apresentado por Liz.

A pequena Manuella Almeida Gomes, 4, também foi vacinada por engano com a CoronaVac. Seu pai, o autônomo Eduardo Jackson Gomes, 35, informou que após levar a filha para receber a dose contra a gripe pela manhã, recebeu a ligação da UBS no período da tarde. Inicialmente, disseram que se tratava de um estudo sobre a vacina contra a gripe. "Cheguei a pesquisar na internet sobre esse estudo e não achei nada. Quando cheguei lá, me levaram para uma sala e contaram o que aconteceu", relembrou. Gomes afirmou que sua filha está bem, mas se queixando de coceira no corpo. "Ela já tem dermatite, não sei se tem a ver com a vacina ou se é do quadro de saúde dela", explicou. A criança tem consulta agendada para hoje com um  médico da UBS.

O pai da garotinha questionou a conduta da equipe da UBS e pede que seja dada mais atenção à vacinação. "Um dia antes levei minha mãe para tomar a vacina contra a Covid. Nos atenderam do outro lado da unidade, separado de quem tomava a vacina contra a gripe", detalhou. "O frasco tem o mesmo tamanho, mas o rótulo da Coronavac é verde, enquanto o da vacina contra a gripe é laranja. A gente sabe que todo mundo erra, que isso acontece, mas precisam ter mais cuidado", pediu. O autônomo também disse que a prefeitura tem se colocado à disposição para acompanhar sua filha, inclusive com fornecimento do número de telefone de dois médicos que podem ser acionados a qualquer hora do dia ou da noite.

Infectologista e fundador do IBSP (Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente), José Ribamar Branco destacou que os testes de vacinação contra o novo coronavírus em crianças já foram iniciados, “Não sabemos como a vacina se comporta em crianças em grandes estudos. Provavelmente não tem muito impacto, mas ainda existe pouco estudo”, afirmou.

Em relação ao erro de conduta dos profissionais, Branco destacou que o IBSP trabalha para evitar esses erros. “Muitas vezes o desenho, e como estavam armazenadas essas vacinas, facilitou para que o funcionário pegasse a dose errada e aplicasse”, ponderou, explicando que há diversos protocolos de checagem e armazenamento para evitar erros. “No âmbito geral, as crianças devem ficar em observação, mas a probabilidade de um evento grave devido à vacinação acho pouco provável”, pontuou o infectologista.

Pediatra e professora da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), Denise de Oliveira Schoeps reforçou que, no início da pandemia, acreditava-se que as crianças seriam grupo de risco, o que não ocorreu. “Na verdade não são aplicadas (vacinas contra a Covid) em crianças porque o transcorrer da pandemia mostrou que as crianças têm risco menor de ter Covid grave e de morrer da doença, além de poderem ser assintomáticas e também transmitirem menos”, ressaltou, também pontuando as pesquisas com o imunizante de Oxford. “Não acredito e espero que esse engano não cause nenhum mal a essas crianças. Mas, com toda certeza, serão acompanhadas na UBS onde receberam as vacinas. A Coronavac, que é de vírus morto, os efeitos colaterais são ainda menores”, disse a médica.

A Prefeitura informou que as crianças serão acompanhadas pelos próximos 42 dias e garantiu que processo administrativo para apuração dos fatos foi aberto. Em nota, a administração municipal afirma que afastou as funcionárias envolvidas.

Em nota, o Instituto Butantan disse que "conforme consta em bula, a vacina contra o novo coronavírus é indicada para indivíduos com 18 anos ou mais. Não há conclusões científicas até o momento de segurança ou eficácia da vacina adsorvida Covid-19 (inativada) na população pediátrica ou em gestantes. É importante que, em casos como esse, as vigilâncias municipais acompanhem e coletem informações individuais das crianças e/ou gestantes expostas, solicitando que busquem orientação imediata nos serviços de saúde caso apresentem algum evento adverso. O Butantan fica à disposição por meio de Serviço de Atendimento ao Consumidor e seu setor de Farmacovigilância, mas a investigação e acompanhamento dos casos compete às vigilâncias municipais." Também pedem para que essas pessoas, vacinadas erroneamente com a Coronavac, aguardem por 14 dias antes de receberem a vacina contra a gripe. "Cabe ressaltar que, no caso de crianças e/ou gestantes expostas à vacina de Covid-19, não é indicada a aplicação da segunda dose do imunizante."

NO INTERIOR
Caso semelhante ao de Diadema ocorreu na terça-feira em Itirapina, no Interior, quando 46 pessoas foram vacinadas por engano com a Coronavac, também no lugar da vacina contra a gripe. Entre os vacinados estão 17 adultos, uma gestante, e 28 crianças.

 

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