Cotidiano

Inconformismo é a palavra de ordem


O povo continua exercendo o seu sagrado direito de aglomerar e, com isso, promover suicídio e homicídio autorizados. De um lado, há um segmento que, por testemunhar diariamente o sofrimento e a morte, se desgasta em apelos para que o ser humano coloque a mão na consciência e se isole. De outro, a parcela da população que nega o perigo e assume a contaminação em nome de uma liberdade insolente e irresponsável.

Tentei, e como tentei, buscar inspiração, bebendo de outras fontes, que em nada tivessem relação com o momento pandêmico que vive o mundo e o Brasil. Talvez esteja mesmo cansado de abordar o tema, um tanto desgastante para quem lê e para quem escreve. Entretanto, caro amigo, andei em círculos e acabei por aportar no inconformismo e na revolta que me assolam quando o desdém pelo perigo denota um grau de estupidez pouco ou nada comparável a qualquer outro na história.

Fico, pois, indignado com o fato de estar novamente aqui, diante desta atraente folha branca, para despejar nela toda a minha angústia de não ter conseguido fugir do tema e de não ter mais estômago para assistir à rebeldia de um povo que se considera, por natureza, imune à doença. Procuro, inclusive, evitar os noticiários, que abordam constantemente a questão. Mas a curiosidade é traiçoeira e não me concede o direito de me furtar de saber a quantas andam as peregrinações de uma gente que não pode ouvir a palavra feriado, que já carrega de tralhas o carro, coloca a família dentro e mete o pé na estrada. Mas o feriadão veio somente para manter tudo fechado e o povo em casa! Pelo menos, era essa a ideia.

Algumas cidades litorâneas fecharam suas praias para conter os ânimos dos mentalmente desajustados, que finalmente buscaram o aconchego de lugares mais distantes. E lá desobedeceram o isolamento, arrumaram muita confusão por se recusarem a usar máscara em supermercados, promoveram arruaças... Claro que toda essa arrogância só dura até o momento da agonia, em que o leito não encontrado da UTI, determina o seu fim. Não raro, vemos negacionistas de toda parte do País, ofegantes, buscando o ar que não chega, suplicando por ajuda às pessoas que testemunham o sofrimento sem que nada possam fazer.

Tem sido comum, inclusive, o testemunho de gente que negou o mal, adoeceu e, num leito de hospital, veio a público dizer que a coisa é séria, que não é brincadeira. A partir daí, a constatação escancarada à luz dos fatos, nos revela que é preciso sentir o tinhoso corroer suas entranhas para que o indivíduo admita o erro. Ou que alguém muito querido seu venha a sucumbir diante do mal para que a soberba lhe caia aos pés.

Mas, indiferentes à tragédia ora em curso, os frequentadores de carteirinha das festas clandestinas, outro exemplo, continuam a celebrar a vida, mesmo sabendo que a aglomeração, que fazem questão de promover, tende a gerar aglomerações nos hospitais, que não sabem mais o que fazer com tantos doentes e com a falta de insumos básicos para tratá-los. Talvez desconheçam ainda o fato de que o sistema funerário também começa a entrar em colapso por causa das aglomerações de cadáveres à espera de uma cova para o merecido descanso. Destaque para o fato de que também já não há mais carros em número suficiente para transportá-los. Trágica realidade a escarrar em nossas caras a que ponto chegamos.

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