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Jair Bolsonaro e a guerra ao vírus


Respondendo a pressões norte-americanas contra incêndios na Amazônia e no Pantanal, no fim do ano passado, Bolsonaro disse que quando as palavras acabam chega a hora da pólvora. Pois agora, cansado das palavras contra a Covid, parece ter decidido ir à guerra contra os coronavírus: destinou 20% do orçamento oficial para as Forças Armadas. Serão destruídos a bala! Além disso, para estimular os combatentes, decidiu que os militares serão os únicos servidores a ter reajuste neste ano. A nutrida tropa (nutrida com 700 mil kg de picanha, 80 mil litros de cerveja, boa parte importada, uísque do bom e enorme estoque de leite condensado) terá armas à vontade. Tremei, vírus!

Não é brincadeira, é sério. O problema do Brasil, ensina o orçamento, não são os quase 300 mil mortos: a verba da saúde é a mesma de 2020 e os profissionais da saúde não terão aumento nenhum. Já os militares poderão, sem problema de recursos, tocar o projeto do submarino nuclear e construir os convencionais, comprar blindados, caças, desenvolver o cargueiro tático. O vírus não terá como fugir, perseguido com poderosas armas de fogo no ar, na terra e no mar! E, sugere este colunista, não vamos esquecer que o general Pazuello, que acaba de deixar a Saúde, pode liderar a guerra ao vírus.

O orçamento deve ser votado por estes dias. Já não há grandes recursos para investimentos, mas, de cada R$ 5 que sobraram, um é dos militares. Curioso é que o Centrão não reclamou. E, afinal, sobra menos para eles.

Organizações Tabajara
O caro leitor reparou que Israel e Nova Zelândia liberaram o uso de um spray nasal israelense contra o coronavírus? Lembra que, há alguns dias, uma delegação brasileira de dez pessoas foi a Israel comprar um spray nasal israelense contra o coronavírus?

Pois é: mas negociaram o errado. A fabricante do spray que foi liberado, a Sanotize, informou à CNN que seu produto nada tem a ver com o EXO-CD-24, que entusiasmou o presidente Bolsonaro. Efetivamente, o EXO-CD-24 está só agora iniciando a primeira fase de testes, enquanto o produto da Sanotize já está liberado e à venda. Disse a assessoria da Sanotize:

“O governo brasileiro está negociando o spray errado. Sanotize é diferente, com desenvolvimento mais avançado e resultados mais fortes que o EXO-CD-24.” Claro que a empresa tende a apresentar seu produto como melhor que o eventual concorrente, só que no caso o concorrente ainda está em teste.

Mas tudo certo: se o governo brasileiro levou sete meses para comprar a vacina da Pfizer, para os responsáveis pelo combate à Covid esperar um remédio ser testado enquanto outro já está na praça deve parecer normal.

Acelerando
Um grupo de empresários, liderado por Luciano Hang, da Havan, e Carlos Wizard, da Sforza, quer importar vacinas por sua conta, mas mudando um pouco as regras do jogo: hoje, poderiam importar as vacinas por sua conta, mas doando todas ao SUS até que todos os grupos prioritários tivessem sido atendidos. Eles pretendem imunizar seus funcionários e famílias, e lembram que as pessoas que vacinassem sairiam da fila do SUS. Há, no grupo, alguns que concordariam em doar parte das vacinas ao SUS (fala-se em metade) e utilizar a outra metade para imunizar seus funcionários. Hang, muito ligado a Bolsonaro, e Wizard, também bolsonarista, querem conversar ainda nesta semana com o presidente da República.

Por que não?
Na opinião deste colunista (que não conversou com especialistas, pode estar totalmente enganado, mas só usa o bom senso), o pedido de ambos não tem nada de estranho: é melhor vacinar os funcionários do que fechar as empresas por longo tempo. E qual o mal? De qualquer forma, o SUS ganha, ou com mais vacinas ou com menos gente a vacinar. Seria interessante um bom debate sobre o tema. E, se eles conseguem importar vacinas, por que o governo não consegue? Sem ter qualquer ligação com vacinas, soube que uma trading company oferece vacinas russas Sputnik V ao Brasil, a partir de 500 mil doses. São sérios? Não sei; mas pessoal de importação levanta a ficha da firma, discute contratos, datas de entrega – e, se o endereço caiu nas mãos de um leigo, certamente terá chegado a quem é do ramo.

Em nome das doações
Alô, governador João Doria: está em suas mãos – e esperamos que o vete – o PL 507/2015. O projeto obriga as distribuidoras de eletricidade a detalhar minuciosamente os dados referentes a consumo e a encargos setoriais. Até aí, ótimo: mas é comum que os consumidores autorizem a cobrança, na conta, de doações para entidades assistenciais ou filantrópicas, tipo santa casa. Diz o projeto que está nas mãos do governador que estas doações precisam ter códigos de barras separados. Se alguém autoriza doações a uma ou duas filantrópicas, mais o pagamento de seu seguro, a conta vai ficar com tantos códigos de barras que os caixas das instituições certamente se confundirão.  

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