ABC da Economia

A economia verde e o pós-pandemia





O cenário global continua extremamente incerto, por conta dos efeitos gerados pela maior enfermidade global em pelo menos 100 anos. Apesar das causas exatas da Covid-19 ainda serem desconhecidas, estudos científicos apontam que a degradação de habitats naturais pode trazer novas doenças para as nossas vidas, em circunstâncias semelhantes ao ocorrido com os surtos de ebola, ocorridos na África, a gripe aviária na Ásia e o vírus nipah na Malásia.

Nessa conjuntura, ganham força as propostas que levam em conta os processos de sustentabilidade nos seus três âmbitos: o econômico, o social e o ambiental, e não apenas ao primeiro deles. A chamada economia verde, ou de baixo carbono, é o caminho apontado pela OIT (Organização Internacional do Trabalho), no seu informe Una Recuperación Verde y Justa en América Latina y el Caribe: Una Perspectiva Desde el Mundo del Trabajo, que indica a adoção de medidas dessa natureza como fundamentais para a construção de uma perspectiva duradoura frente aos devastadores efeitos da Covid-19 no mundo do trabalho. A OIT, em conjunto com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), indicou que o potencial de criação de empregos verdes na América Latina é estimado em 15 milhões nos próximos dez anos, pouco menos de um terço daqueles que foram perdidos durante a pandemia global (47 milhões).

A Unir (Universidad Internacional de La Rioja) e o Portal Infoempleo, ambos da Espanha, apresentaram, em janeiro de 2021, a publicação Empleo en Sostenibilidad y Medio Ambiente: 10 Profesiones con Futuro, que traz importantes informações sobre as mudanças que ocorrerão no mercado de trabalho durante esta década. Ele reafirma a perspectiva global de geração de ‘empregos verdes’, mas observa que essa será uma transformação estrutural, que ao mesmo tempo criará e extinguirá postos de trabalho.

A publicação aponta que os setores econômicos europeus mais beneficiados serão as áreas de tratamento e purificação de águas residuais (saneamento); gestão e tratamento de resíduos; energias renováveis; gestão de áreas naturais protegidas e florestais; serviços ambientais a empresas e entidades; educação e informação ambiental; agricultura ecológica e pecuária e ecodesign. O aumento da frota de veículos elétricos e a construção e remodelação de edifícios dotados de maior eficiência energética também irão colaborar para essa transição. Esses setores, segundo dados da Irena (Agência Internacional de Energias Renováveis), de 2019, empregavam 11,5 milhões de pessoas em todo o mundo.

Apesar de a perspectiva apresentada ser positiva, a criação desses postos de trabalho e a consolidação de horizonte que posicione o desenvolvimento sustentável como paradigma dependem do comprometimento institucional de governos e empresas e definição de regras de funcionamento e investimentos nesses setores, que promovam a consolidação dessa agenda.

A América Latina e o Brasil ainda estão muito distantes do cenário europeu, tanto política como economicamente. A região ainda se encontra na fase das declarações de boas intenções e compromissos essencialmente políticos. O nosso País, caso já estivesse mais ativo na implantação desses compromissos, poderia alcançar resultados bastante positivos, segundo a publicação Uma Nova Economia Para uma Nova Era: Elementos Para a Construção de uma Economia Mais Eficiente e Resiliente Para o Brasil, de 2019 pelo Instituto WRI Brasil. Ela estimou que medidas adotadas para a implantação de uma economia de baixo carbono resultariam em um aumento acumulado adicional do PIB (Produto Interno Bruno) brasileiro de R$ 2,8 trilhões até 2030, o equivalente a um ano do PIB da Bélgica ou da Argentina, gerando cerca de 2 milhões de empregos, número comparável a quatro vezes mais do que os ofertados atualmente pelo setor de petróleo e gás no País.

Alguns países e governos locais já vêm trabalhando de maneira mais consistente, porém, isolada, com o tema. Deve-se reconhecer o atraso regional na tomada de decisões e implantação de medidas relacionadas com o desenvolvimento econômico sustentável. Provavelmente trará prejuízos para toda a região. É urgente a adoção de medidas estruturantes que valorizem essa agenda como padrão de crescimento econômico e social, com responsabilidade ambiental, que apresente perspectivas positivas de progresso e prosperidade.

* Doutorando em políticas públicas pela UFABC, coordenador no Brasil do CRECES (Centro Regional para Cooperação em Educação Superior) e pesquisador do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS. 

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