Cotidiano

Povo é gente, não estatística


Estatística pode ser definida, penso eu, como uma tabela caprichosamente elaborada para dar uma ideia, por meio dos números, de uma situação qualquer que envolva toda uma população ou parte dela. Talvez os negócios de uma empresa ou de um grupo. Enfim, uma vasta gama de estudos em que a utilidade da estatística é inquestionável. Para tanto, são utilizados recursos técnicos que fornecem um quadro que dá a ideia da dimensão de um problema ou mesmo de algo que favorece ao invés de desfavorecer, permitindo, assim, a tomada de decisões a respeito do assunto. Acho que ando mesmo viciado em definir coisas.

Números e mais números são considerados, estudados, esmiuçados por gente que tem muita habilidade no trato com eles, e, para quem, só o resultado dos cálculos interessa.

É certo que a mente que faz a análise cuidadosa de tudo isso vê com frieza a coisa em si. É seu papel, afinal. Enxerga, pois, o lado técnico da questão, não lhe cabendo julgar o resultado com o olho da alma, normalmente propenso a dar voz ao sentimento. Só raciocínio lógico é permitido nesta empreitada. E deve ser assim para que funcione a contento.

Mas eu lido com palavras, apesar de ter que admitir que toda a gente do mundo passa a vida fazendo contas. Seja no apontamento dos gastos mensais, na verificação corriqueira do troco, medindo a parede para a compra da nova cortina, na contagem de dias até o próximo feriado, enfim.

Insisto, porém, que a palavra é a minha matéria, e não há como despejar um punhado delas, matematicamente enfileiradas numa folha de papel como esta, sem soprar em suas narinas a vida que certamente tocará o coração leitor. 

Há, pois, um bocado de sentimento contido no cerne de um texto como este que nasceu para falar justamente de uma estatística: a que dá destaque à quantidade de mortos pela peste. Por meio dela é possível agrupar tudo de forma que se possa visualizar a relação do povo com a doença, grau de transmissibilidade em cada lugar e as suas novas tendências.

Muito útil, sem dúvida, esta ferramenta. Entretanto, a minha sensibilidade não me permite absorver tudo isso sem considerar que a cada numerozinho da tabela vem atado um nome, que teve família, pessoas que sobreviveram ao caos, e, para quem é dado o direito de chorar. Somente isso.

Aqui e ali, ouvem-se relatos, os mais trágicos, de quem esteve cara a cara com a morte ou por quem presenciou a vida de um ou mais entes queridos se esvair assim, bestamente. A imprensa até que cumpre o seu papel, mostrando casos e mais casos, além de enriquecer o assunto por meio de valiosas entrevistas com médicos e infectologistas, gente que, a partir da pandemia, tornou-se famosa, uma vez que usam os meios de comunicação para esclarecer, orientar e também deixar registrado o seu protesto quando o Planalto escancara o seu desapreço pela vida. Fato corriqueiro.

E o bicho segue devorando as entranhas das pessoas, que, apesar da luta, sucumbem, por não terem mais o salutar movimento de entra e sai do ar em seus corpos. 

E este cronista não entende a razão de tanto descaso com o povo. E não entende também o desdém desse mesmo povo com a doença, afinal, as festas, os bares, as arruaças e tudo aquilo que permite ao vírus livre circulação, prevalecem.

Vi, ainda hoje, que cientistas e secretários de saúde apelam para o bom senso da população, embora saibam que bom senso é mais escasso nas prateleiras daqui do que vacina. A gente brasileira é assim: dá um jeito para tudo. Por que, então, não haveria de dar um jeito para conter os ímpetos viróticos? Talvez se escondesse as estatísticas...

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