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Obesidade: inatividade física ou erro alimentar


Em todas as oportunidades que abordo exercícios físicos em meus textos, começo anotando as inestimáveis contribuições que sua prática fornece para nossos organismos, pois, inegavelmente todos os nossos sistemas são otimizados funcionalmente, por qualquer ângulo de observação. Mas afirmo categoricamente que fazer exercícios físicos não promove emagrecimento, embora eu queira acreditar que executá-los nos proteja do ganho adicional de peso.

Um estudo publicado em 18 de janeiro deste ano no The Journal of Nutrition, é mais um, entre tantos, que sugere fortemente que eu esteja errado, mas não pelo que afirmo acerca dos fabulosos benefícios que os exercícios nos forneçam, nem tão pouco por sua prática ser inócua como alternativa ao emagrecimento, mas, sim, porque talvez sua falta tenha pouca importância como causa de ganho ponderal.

Com o enorme título ‘Childhood Daily Energy Expenditure Does Not Decrease with Market Integration and Is Not Related to Adiposity in Amazonia’, a pesquisa veiculada na prestigiosa revista supracitada parte da observação que sobrepeso e obesidade infantil apresentam incidências e prevalências crescentes em países de baixa e média renda, com o fenômeno se desenvolvendo à medida que as populações rurais se transferem para o meio urbano e adotam novos estilos de vida. Os pesquisadores anotam que a maioria dos estudos que buscavam explicar o ganho ponderal causado por esta transição se basearam em estimativas imprecisas do gasto energético das crianças, o que fez aceitar erroneamente que a falta de exercícios fosse a causa principal para estes desfechos.

A investigação foi desenvolvida com uma população indígena na Amazônia do Equador conhecida como Shuar, que em suas origens vive principalmente da coleta, caça, pesca e agricultura de subsistência. Várias famílias Shuar se mudaram para o meio urbano e adotaram o clássico modo de vida ocidental, que inclui sedentarismo e o consumo rotineiro de alimentos processados, bebidas calóricas e baixa ingesta de fibras, contexto que permitiu o estudo comparativo.

Os pesquisadores obtiveram permissão de famílias Shuar, tanto rurais quanto urbanas, e mediram com precisão a composição corporal e o gasto de energia de 77 de seus filhos, entre as idades de 4 e 12 anos, enquanto também rastreavam suas atividades e colhiam dados sobre suas ingestas alimentares.

As crianças Shuar urbanas se mostraram mais sedentárias e consideravelmente mais pesadas, com um terço de seus componentes acima do peso ideal, enquanto todas as crianças rurais estiveram na faixa da normalidade durante o período de avaliação. Contudo, todas as crianças, rurais ou urbanas, ativas ou não, queimavam aproximadamente o mesmo número de calorias diariamente.

A conclusão deste estudo corrobora com as de inúmeros outros, constatando uma base algo fixa de gasto calórico independentemente do trabalho mecânico exercido pelo indivíduo. Depreende-se o entendimento que o gasto energético em determinado sistema induz descanso metabólico em outros, de modo que o fator modulador para o ganho ponderal seja quase que totalmente ditado pela ingesta alimentar.

Muito embora os pesquisadores não se estendam para outras observações resultantes da urbanização, relembro que a maior parte dos alimentos processados possui substâncias capazes de modificar nossos sensores de fome e saciedade, enquanto o estresse diário deflagra mecanismos compensatórios para nosso bem-estar que envolvem consumos mais compulsivos que fisiológicos.

Essa publicação não é revolucionária, pois a precisão técnica da mensuração do gasto calórico que a tecnologia atualmente nos permite tem gerado as mesmas deduções em várias outras estratégias de pesquisa. Tornou-se possível demonstrar com números o que parecia devaneio de cientistas.

Por outro prisma, vivemos mais e muito melhor quando somos ativos fisicamente, somos mais vigorosos e tendenciosos a boas práticas alimentares quando nos exercitamos costumeiramente, porém, se pretendemos atacar a principal causa do mundo gordo, precisamos imediatamente modificar nosso perfil alimentar para que os alimentos não nos modifiquem.

Antonio Carlos do Nascimento é doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da USP e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

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