Cotidiano

Um barraco chamado Brasil


tempos foi neste chão que botei os pés, foi este ar que respirei, foi desta água que bebi, foi a gente daqui que me fez sorrir, celebrando a minha chegada... Foi este fascinante idioma, afinal, que me serviu de ferramenta para entender e me fazer compreender. E eu amei a palavra desde o início. Nascia ali uma cumplicidade que haveria de durar sabe-se lá até quando. Claro que, no começo, só a reconhecia por causa da pronúncia. Mas não tardou para que também me embebesse de sua magia ao vê-la escrita.

Sou brasileiro e sinto orgulho do meu País por seu gigantismo, pela sua riqueza natural e, sobretudo, pela sua cultura, ainda que dela se estenda um braço que depõe sobremaneira contra a sua beleza. Trata-se da malandragem, desde sempre, cantada em prosa e em verso por poetas e demais artistas. Falo de um fenômeno que acabou por convencer uma parcela da população de que é a melhor na rasteira, e que o mundo deve se render à sua esperteza. Isso está no cerne dessa gente, não há como negar.

E é preciso levar em conta que para se alcançar nível técnico tão alto no quesito pilantragem é preciso que se sirva de uma boa dose de desrespeito com o semelhante, com as regras e com as leis. É necessário, pois, que se atropele tudo isso para se consagrar o melhor, o rei da picaretagem, aquele que só pensa em levar vantagem, como dizia o velho comercial.

E é nesse embalo que a malandragem brasileira se vê imbuída do desejo compulsivo de passar a perna no outro em qualquer canto, aqui ou acolá. E, em momento em que o medo está no comando, a coisa assume um aspecto ainda mais nefasto, em que a pessoa simples, mais vulnerável, está sujeita a cair facilmente na conversa fiada, que não perdoa.

A violência implícita no ato de se enganar o próximo passa, pois, despercebida por causa da sua normalidade. Diga-se de passagem, as atitudes mais perversas nessa questão são aceitas como algo muito natural, que faz parte da cultura popular.

Exemplo recente disso é a expressão que ganhou as manchetes: até há pouco tempo, fura-fila era um tipo de veículo que esteve nos planos de um político para galgar o poder. Hoje, contudo, o termo tem relação com o indivíduo que usa de mecanismos a ele concedidos pela posição que o privilegia dentro da sociedade, para tomar a vez do outro, prioritário, na luta pela imunidade. Aquele que é nomeado médico no serviço público só para se beneficiar da vacina, sem nunca ter entrado numa UTI, onde o bicho pega de verdade, é só um exemplo. Aliás, por falar em bicho, veterinários também foram vacinados, assim como dentistas, gente de qualquer profissão, desde que amiga de políticos influentes. São pessoas que abusam do poder junto ao poder, e que tomam a frente do outro, mesmo sabendo que não há imunizante para todos. E aquele que concede a permissão para que seu protegido fure a fila, só o faz porque tem consciência de que vivemos no paraíso da impunidade, terra sem lei, em que o mal dá as cartas.

Não obstante o absurdo de se ver uma menina de 20 e poucos anos vacinada antes dos mais velhos, o País se depara também com mais uma maracutaia sem precedentes, que está dando muito o que falar. Alguns gatunos de plantão, cujo trabalho é aplicar a vacina nos velhinhos, estão aplicando golpe ao invés de imunizante. Vale seringas vazias e vale enfiar a agulha sem empurrar o êmbolo, guardando o conteúdo para depois utilizá-lo segundo seus interesses. Seria esta, afinal, mais uma variante do jeitinho brasileiro de passar a perna no outro? Certamente.
E pode apostar: outras cepas virão. 

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