Setecidades

São Bernardo cancela curso profissionalizante




A Prefeitura de São Bernardo pôs fim ao Peat (Programa de Educação do Adolescente para o Trabalho), que desde 1991 atendia jovens da cidade a partir dos 15 anos e seis meses com formação profissional e encaminhamento para estágio remunerado. Os 111 jovens e suas famílias foram informados entre os dias 5 e 11 de fevereiro sobre a descontinuidade do projeto e a rescisão dos contratos, mesmo de quem teria direito de participar da iniciativa até os 18 anos.

Os meses andando a pé entre o bairro Alvarenga e o Centro da cidade, onde o curso ocorria, e o esforço da mãe de pegar do pouco recurso oriundo do auxílio doença do irmão para pagar a internet e terminar a formação de maneira remota, por causa da pandemia de Covid-19, pareceram compensados quando a adolescente Alícia Maria Tainá de Oliveira, 16 anos, foi chamada para assinar o contrato no Paet. Até os 18 anos, teria renda garantida, que iria auxiliar a família, além da perspectiva de estar bem preparada para outros trabalhos.

Após entregar a documentação e abrir conta no banco, Alícia foi orientada a esperar, que, assim que a situação melhorasse, seria indicada para um posto de trabalho. Seu rendimento, enquanto beneficiária do programa, estava garantido. “Ela foi encaminhada para o curso pelo Cras (Centro de Referência em Assistência Social). Estou desempregada, com problemas de saúde e essa era a nossa única garantia por algum período”, lamentou a mãe, a dona de casa Antonia Xavier de Oliveira, 53. “O sentimento é de pavor”, definiu Alícia.

Mandado para casa também por conta da pandemia, Felipe Lopes Borges da Silva, 17, foi surpreendido ao saber do cancelamento do programa, do qual participava há um ano e nove meses. “Trabalhava no Paço Municipal, organizando prontuários e processos. Estou muito triste, porque com esse dinheiro ajudava minha mãe, comprava minhas coisas”, relatou.

Quem já fez parte do Peat destaca a importância do projeto em ajudar jovens em situação de vulnerabilidade a ter formação e trabalho. Bacharel em direito, mediadora e educadora social, Rosangela Marques, 35, moradora do Areião, participou da formação há 20 anos. “Fez toda a diferença na minha vida. Estagiei na Faculdade de Direito de São Bernardo e pude começar a ver de perto a profissão que sonhava em seguir”, relembrou.

Conselheiros tutelares estão se organizando tanto para questionar a Prefeitura sobre a interrupção do programa quanto para acionar o MP (Ministério Público) e pedir a continuidade do projeto. Sob condição de anonimato, trabalhadores da administração ligados ao projeto afirmaram que as famílias estão em situação de extrema vulnerabilidade e que a interrupção do projeto pode significar o aumento de atividades insalubres.

Advogado especialista em direito da infância e juventude, Ariel de Castro Alves avaliou que, em meio à pandemia, crise econômica, social e humanitária, a área social deveria ser prioridade. “Quando o poder público exclui os jovens, as facções criminosas e o tráfico de drogas acabam incluindo”, afirmou.

A Prefeitura de São Bernardo informou que o programa foi suspenso em março de 2020 e descontinuado devido às dificuldades financeiras impostas pela pandemia da Covid-19.

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