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Reflexão sobre a cultura do cancelamento


As definições de ‘cancelar’ no dicionário abordam explicações como ‘invalidar’, ‘eliminar’, ‘excluir’ e ‘não mais prosseguir com um processo’. Seu significado não é difícil de entender e expandiu horizontes até chegar ao universo da internet. Nos últimos anos, o cancelamento on-line marcou pessoas e marcas que emitiram opinião ou posicionamento que não foi bem aceito pelo público, pronto para demonstrar seu desgosto sobre diversos assuntos nos âmbitos social e moral. Esse poder da web de julgamento provavelmente é mais sério do que parte das pessoas, principalmente os jovens, acredita, com prato cheio para complicações pessoais profundas para os alvos.

Um dos programas televisivos mais assistidos do País, o Big Brother Brasil (Globo) parece estar pautado sobre a relação dos participantes sobre esse tipo de avaliação dos espectadores. Desde o primeiro dia, no fim de janeiro, algumas figuras do elenco demonstraram preocupação sobre como irão ser avaliadas pelo público. O passar do tempo tem revelado a faceta de quem está na edição deste ano do reality show. Falta de empatia e consideração, além de demonstração de atitudes nada positivas, tem feito com que alguns nomes estejam ‘manchados’ nas redes sociais.

Convidada do BBB21, a youtuber Vitória Moraes, a Viih Tube, 20 anos, tem experiência sobre o assunto. Em 2016, ela postou na plataforma Snapchat vídeo onde cuspia na boca de seu gato. A então adolescente de 15 anos foi alvo de xingamentos, ameaças e agressões, inclusive físicas, e pediu desculpas pelo o que chamou de ‘brincadeira’. “É o meu maior trauma da vida, a coisa que mais me magoa, é o meu ponto fraco. Evitei falar disso por cinco anos”, diz em vídeo colocado on-line pouco antes de entrar no programa. “Aquilo me dava muito medo. Mas o mais difícil foi o que eu vivi na vida real. Não conseguia comer, tive muitos problemas psicológicos, não conseguia olhar no olho de alguém.”

O mundo da internet e da televisão brilha ao apresentar uma vida perfeita e personagens amigáveis. Mas também abre espaço para que erros de conduta e pensamentos surjam em alguns momentos. Segundo a psicóloga Célia Siqueira, a utilização excessiva das redes sociais pode gerar mudanças significativas no comportamento físico e mental, tanto para jovens quanto adultos. Lidar com o julgamentos de dezenas, centenas, milhares ou milhões de seguidores pode desencadear o aumento da ansiedade e levar à depressão. “A necessidade excessiva de atenção, expectativa da grande quantidade de curtidas nas fotos e visualizações em vídeos, muitas vezes é resultado de carência afetiva”, avalia. “Algumas pessoas, por não alcançarem seus objetos nas redes ou por receber críticas, podem desencadear fobias bem sérias, como a síndrome do pânico.”

No ano passado, a agência de publicidade Mutato realizou estudo para analisar a cultura do cancelamento e seus impactos. Casos de 35 personalidades julgadas nos últimos quatro anos nas redes sociais foram observados. Os maiores motivos alegados para um cancelamento foram divergência política, homofobia e mau-caratismo. Ainda sobre a pesquisa, foram notados três tipos de formas para se ‘cancelar’: boicote (mais ligado a marcas e muitas vezes temporário), ban e close errado (voltado a famosos e anônimos em casos pontuais e isolados) e linchamento virtual (diversos closes errados desencadeiam um cancelamento maior de influenciadores e celebridades por comportamentos que desviam da norma padrão aceita).

A relação entre cancelador e cancelado é complexa, uma vez que o potencial de um grupo se mostra bem mais potente do que a preparação e afirmação de um alvo. Pensamentos e atitudes geram reações, mas é necessária reflexão sobre esse bullying virtual levado a um nível superior. A análise dos dois lados é bem-vinda, uma vez que não se tem certeza ainda sobre como resolver casos, de que forma lidar com excessos e ou quem está realmente certo, além de ficar em aberto o real impacto dos excessos. Quem não gosta, cancela. Se concorda, elogia. Acredita que um ‘erro’ pode ser relevado, ‘passa pano’. O julgamento está aberto em todas as realidades, com o bom-senso tentado encontrar espaço. 

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