Cotidiano

A vacina do governador


Assistindo pela TV a um show da Maria Bethânia, esqueci-me, por um momento, do assombro dos dias de hoje. Uma voz belíssima cantando e declamando, enchendo de poesia a minha casa e a minha alma, fez-me ver com um bocadinho mais de esperança o horizonte que ora se descortina. A arte, aliás, exerce esse poder sobre os amantes da arte. E a música na noite quente veio mesmo para reafirmar no meu espírito a excitação que invadiu o âmago de cada um ao ver a primeira pessoa vacinada lá na velha Bretanha. Dia memorável em que o mundo assistiu ao que pode ser o início de um novo tempo.

E, embevecido, pensando na rica cultura brasileira, me pus a pensar no quanto seria difícil ter de deixar esta terra, meu berço, para buscar outras paragens como forma de encontrar vida descente, lá onde ela fez morada. Não, definitivamente não posso me render à nefasta intenção do mal em me fazer pessimista, descrente da chegada de uma nova era, também neste País de contrastes, concebido exclusivamente a quem pode pagar para nele viver. Apesar de que, convenhamos, a salvação do nosso coro depende da vontade política de quem governa esta pobre República. E isso desanima.

Mesmo assim, enchi-me de poesia ao ver tão magnífico espetáculo, em que a estrela mais uma vez brilhou. Foi um desfile de músicas de todos os tempos. Cheguei a perder, ainda que por um instante, o ranço por esta vida repleta de doença, miséria e morte. Triste, inclusive, constatar que a pobreza mental nos presenteou com situação deveras penosa, e ainda assegura que dela não possamos sair tão cedo. Mas ainda temos a arte. E sempre que me deparo com uma manifestação artística, seja lá de qual gênero for, renovo-me como ser humano.

Entretanto, a apresentação da cantora acabou e, de súbito, vi-me novamente imerso na dura realidade que nos cerca.

E o canal de notícias diz que o governador, só para variar, trava intensa queda de braço com o Planalto Central, lá onde reside o poder. O assunto que azedou o clima desta vez não é outro senão a busca, pelo primeiro, da tecnologia oriental para se produzir a vacina, tão sonhada vacina.

Aflige pensar que enquanto países com populações menores já correm atrás do produto para garantir a saúde dos seus, aqui neste imenso e atrasado sertão gente muito bem paga cochila em suas mesas, em suntuosas salas, em suntuosos palácios. Esperam, por certo, que milhões de doses de um imunizante que possa ser conservado até debaixo da cama caiam do céu, já com as respectivas seringas e agulhas. Se possível na quantidade certa para cada região. Tão simples como deve ser.

Devaneios à parte, contudo, é preciso pensar num laboratório que nos forneça vacina para uma megapopulação, sem que necessitemos adquirir aquela que se produz no requintado solo paulista. É preciso dar as costas a ela, tendo em vista a birra que o chefão tem com o governador e, de sobra, com o país de origem da coisa. Façamos assim: se houver demanda, nós compraremos, tá?

Mas as estatísticas não permitem que se durma no ponto. Os números, cada dia maiores, revelam o lado dramático de quem não pode esperar. Revelam que há demanda de sobra, a despeito das contendas políticas e das pessoas pouco afeitas à vida que deixam para depois decisões que exigem um imediatismo retumbante. Claro que zerar o imposto para importação de armas é medida que haverá de acalmar um povo que não está conseguindo levar para a mesa o bom e velho arroz com feijão.

A mente pusilânime que reina intocada em solo Tupinambá, afinal, rasteja nas sombras para assinar medidas que visam desviar o olhar vesgo do povo para coisas de menor importância ou importância nenhuma. Um olhar que já não enxerga muito bem e que acaba mais míope ainda. 

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