Setecidades

Salve a bandeira


Bandeira é, por definição, uma flâmula criada para representar um país, uma escuderia, um time de futebol, os ideais de um povo... Na verdade, não passa de um conjunto de estampas com cores, tudo ajeitado num pedaço de pano comum, cujos desenhos servem para fixar na memória e no íntimo das pessoas a ideia de veneração. Funcionam mesmo como tatuagens mentais que fazem com que elas reverenciem com muito sentimento um pavilhão que normalmente só serve para ditar os rumos de suas vidas que, quase sempre, não atendem aos seus anseios.

Até um dia é consagrado a ela. Pelo menos aqui neste belo rincão de muitas bandeiras que tremulam nas mentes, indicando onde está o melhor hambúrguer, a bolsa mais cobiçada, o carro mais sonhado, o posto com a melhor e mais barata gasolina, e eu poderia me estender aqui até preencher folhas e folhas que por certo sabotariam a paciência do leitor com alguma disposição para alcançar o final do texto.

São símbolos, afinal, essas bandeiras que seduzem e que, vez ou outra, também se escondem nos lugares mais insuspeitados, passando de fininho bem diante dos olhos distraídos. São úteis quando informam, inúteis quando carregam apelos comerciais, religiosos, políticos, os mais variados.

Claro que não exercem esse poder só aqui debaixo desta gigantesca lona. Por aí fenômeno semelhante também distorce a compreensão do ser humano suscetível aos mesmos engodos, que lhe indicam o caminho a seguir, apontado sempre pelo dedo meticuloso de um sistema que se utiliza desse expediente para faturar alto e dominar as massas.
Estátuas e fotografias espalhadas pela velha Mesopotâmia, no tempo em que o ditador era soberano naquelas paragens, mostram o extremo da manipulação. Para todo o canto em que se olhasse, lá estava ele com seu garboso bigode, dono de tudo e protetor de todos.

Lá na Ásia há um país onde monumentos e fotos em tamanho gigante do mandatário e de seus antecessores servem para manter a atenção do povo voltada para um só foco. Trata-se de um recurso sabiamente arquitetado para criar cérebros obedientes que jamais contestam. São símbolos que, como bandeiras, são estampados em cabeças que desconhecem a existência de outro universo que não seja o seu, uma vez que toda a informação de que dispõem vem da TV estatal, que desempenha bem o seu papel na arte de ludibriar.

Situação não tão diferente, por mais tresloucadas que possam parecer estas palavras, vive-se na maior democracia do mundo. Alguns aspectos parecidos com o que vimos em parágrafos anteriores apontam para uma liberdade passível de questionamento também naquele país. E é o cinema que nos revela isso quando o olhar atento percebe a intenção por trás da ação. Falo de produções caras que correm o mundo, levando consigo mensagens variadas, tendo sempre como protagonista a bandeira azul e vermelha com aquele listrado excepcionalmente familiar aos nossos olhos, habituados a vê-la associada à bravura e ao poderio econômico.

É o fascínio do império exibido nas telas do planeta e do próprio quintal. É possível até que esse brilho tenha feito daquele povo refém de um nacionalismo feroz e irracional, potencializado ainda pela presença de ex-combatentes carregados de orgulho por terem servido à pátria. Mesmo que lhes falte uma perna ou metade do cérebro, é esse o sentimento predominante. Por vezes, só uma medalha na estante enche de honra a família, para quem só restou a memória do filho morto. E, tal qual uma bandeira, esses soldados são símbolos que o cinema transformou em cultura, saturando a mente das pessoas com retratos de poder de um país que é ator na luta de mentirinha pela democracia no mundo.

Mas claro que nem todas as bandeiras do mundo gozam do mesmo prestígio que a de Tio Sam. Um exemplo é a nossa, que fora tragada pelo lado obscuro da vida e transformada em mero adereço. 

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