Confidencial

Todo mundo tem um pouco de Ferreirão


Uma semana depois de dar adeus a um ícone dos microfones, ontem o Grande ABC teve de contornar com a partida de um profissional de imensurável importância para o futebol daqui. Aos 68 anos, Luiz Carlos Ferreira, o Ferreirão, Rei do Acesso, virou estrelinha – como diria minha filha, Fernanda, que está prestes a completar 3 anos. Considerado por muitos torcedores como o maior treinador da história do Santo André, no qual colecionou duas subidas de divisão (nas inesquecíveis campanhas da A-2 de 2001 e da Série C de 2003), um título (a Copa Estado de 2003) e a montagem do elenco campeão da Copa do Brasil (durante a qual saiu seduzido por proposta financeiramente mais atrativa do Sport-PE), teve ainda importância fundamental para o crescimento do São Caetano, com duas promoções primordiais em 1998: no título da Série A-3 do Paulista e no vice da Série C do Brasileiro.

Conversei com uma dezena de pessoas ontem sobre Ferreira e li nas redes sociais mensagens, relatos e histórias de outras tantas e ficou claro o quanto o técnico, com seu jeito peculiar de ser, foi importante para o surgimento e desenvolvimento de jogadores, ou para a alegria de torcedores. Até mesmo colegas jornalistas tinham grande consideração pela forma como eram tratados, como o amigo e ex-editor de Esportes do Diário, Angelo Verotti, ou a repórter Analy Cristofani, ambos que por muitos anos foram setoristas do Ramalhão e recordaram a simplicidade de Ferreirão. Eu mesmo, nas vezes que o entrevistei, pude perceber que era um verdadeiro entendedor da bola, por vezes teimoso – com todo aquele sotaque caipira – mas, ao mesmo tempo, dono de grande sensibilidade.

Nunca me esquecerei de uma conversa no gramado da Rua Javari. Ele, então técnico do Juventus, havia acabado de enfrentar o Santo André, em um jogo treino que acabou sendo encurtado para apenas um tempo e, consequentemente, não proporcionou ao treinador ver no gol adversário seu filho, Gustavo. Mas foi começar a falar no herdeiro – atualmente integrante da comissão técnica da base do Cruzeiro-MG – para Ferreirão mudar até o tom de voz e, de repente, levar a mão ao rosto para enxugar uma lágrima. Afinal, só ele e Gustavo sabiam quantas vezes não foram questionados pelo fato de o pai defender a contratação ou utilização do filho, independentemente da ligação familiar, entre diversas outras situações.

Atual editor de Setecidades do Diário, o amigo Anderson Fattori foi assessor de imprensa do Santo André em algumas das passagens do treinador pelo clube e relembrou algumas passagens e particularidades. “Uma pessoa digna de todas as homenagens. Era um cara ímpar. Tinha histórias que nunca mais vamos ver no futebol. Lembro de uma vez que me passou o nome dos 11 que iniciariam a partida e, entre os escolhidos, estava um jogador que nem do coletivo participou, treinou separado na véspera, atrás do gol. Lembro que me espantei e perguntei se estava correto, quando ele me respondeu: ‘Sim, sonhei que ele vai fazer um grande jogo’. Como explicaria aquilo para a imprensa?”, recordou Fattori. “Ele tinha muita superstição, tinha uma planta ‘comigo-ninguém-pode’ na frente da porta do vestiário que ninguém podia mexer, dizia ainda que as paredes do Bruno Daniel conversavam com ele. Por mais ‘louco’ que parecesse, era adorado pelos jogadores, deu oportunidade para muitos. Tem muita coisa sobre o Ferreira. Daria um livro só de lembranças dele.”

Diretor de futebol do Ramalhão por duas décadas, Sérgio do Prado foi cirúrgico ao descrever o treinador. “O Ferreira era um misto de santo com diabinho. Numa só pessoa tinha os dois. No futebol isso faz a diferença. Era treinador do futebol de grama, da bola de couro, de couro de boi. Ao contrário de hoje, quando muitos são adeptos da planilha de Excel, ele era treinador de verdade, da essência do futebol”, me contou ontem, em breve telefonema. “Era extremamente tático. Reconhecido até por jogadores. Mas a principal virtude dele era o enfrentamento para conseguir as coisas. Não aceitava o não como resposta, fosse de diretoria, atletas ou comissão técnica. Queria sempre o melhor, então enfrentava. Era um tanto quanto explosivo, mas por um lado bom, não pelo lado encrenqueiro. Não se omitia, era autêntico. Uma grande perda para o futebol.”

Psiquiatra, professor e escritor brasileiro, Augusto Cury diz que “de gênio e louco todo mundo tem um pouco”. Então, todos carregam consigo um pouco do que era Ferreirão. Vá em paz, Rei.

JUSTAS CAMPANHAS
Alguns colegas da mídia esportiva do Grande ABC sugeriram pleitear junto à Prefeitura de São Bernardo que o Estádio 1º de Maio seja rebatizado, podendo até mesmo manter a nomenclatura original, mas acrescentando Jornalista Jurandir Martins ao nome, como forma de eternizar na praça esportiva são-bernardense o legado deixado por Jura, que morreu na semana passada e era um ferrenho defensor do esporte da região – principalmente no município. Entretanto, talvez os companheiros de microfone e teclado não saibam, mas existe simultaneamente uma vontade para que o local homenageie outra figura do futebol da cidade, caso do ex-presidente do EC São Bernardo e ex-deputado federal Felipe Cheidde, que partiu em setembro do ano passado. Difícil decidir por um ou por outro. E também não sou contrário ao atual nome, tão significativo e alusivo às lutas sindicais das décadas passadas. Assim, seja como for, fará jus ao estádio. 

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