Confidencial

Gratidão eterna, mestre Jurandir


Nas últimas semanas, aqui neste espaço, falei sobre a delicada situação na qual se encontrava o amigo e colega Jurandir Martins. Na semana passada, uma pneumonia agravou ainda mais o já sério quadro de saúde do radialista que, na madrugada de ontem, não resistiu e morreu, no Hospital de Clínicas de São Bernardo. Internado há um mês, Jura estava prestes a completar 76 anos e vinha lutando contra câncer de rins e próstata, que desde quando foram diagnosticados, no ano passado, o fizeram perder 40 kg. Uma foto recente, dentro da unidade hospitalar são-bernardense, o mostrou bastante abatido, com olhar distante, mas em pé, ao lado da mulher, Dirce, sua fiel escudeira. No mesmo dia em que me enviaram essa imagem (quinta-feira passada), recebi uma mensagem de uma familiar de Jurandir, na qual ele solicitava a visita de companheiros das empreitadas jornalísticas e esportivas. Pensei comigo mesmo: vou deixar para ir na semana que vem. Infelizmente, não deu tempo. Mais uma das lições da vida, que me acompanharão junto a todos os ensinamentos que o amigo fez questão de passar.

Jura é uma daquelas pessoas que sem dúvida vai se perpetuar, por tudo aquilo que fez pelo Grande ABC, sobretudo nos esportes. Apesar de ser mais ligado ao futebol, foi um incentivador das demais modalidades, do atletismo ao vôlei. Apesar de ser gaúcho de nascimento, passou a defender nossa região com unhas e dentes desde que veio morar por estas bandas. Não deixou para trás a paixão pelo Inter de Porto Alegre, agregou o Santos como um de seus amores e os representantes das sete cidades eram seus xodós. Tanto que nas redes sociais, os cinco principais times em atividade (Santo André, São Bernardo FC, EC São Bernardo – no qual foi dirigente por 20 anos –, São Caetano e Água Santa) publicaram mensagem homenageando Jurandir. Ramalhão e Cachorrão, inclusive, enviaram coroas de flores para a cerimônia do último adeus, no cemitério da Vila Euclides – não pude ir justamente porque estava na cobertura de São Bernardo FC e Juventus, na Rua Javari, onde certamente o encontraria pelos bastidores e nas cabines em condições normais.

Curiosamente, o local de sua sepultura fica a poucos metros de onde por tantas vezes tive aulas de futebol com Jurandir Martins. Foi no Estádio 1º de Maio onde o conheci, onde por diversas vezes dividi cabine e o escutei contar suas histórias, relembrar grandes times – fossem do Grande ABC, de São Paulo, do Brasil ou até seleções – e até mesmo cornetar alguns jogadores. Perdi as contas de quantas vezes Jura disse que determinado atleta não servia para as equipes daqui, sempre comparando com algum outro que vestiu a camisa com muito mais importância e habilidade. Era sempre ele quem fazia a pergunta mais difícil das coletivas, colocando dirigentes, técnicos e outros personagens na berlinda – sabia muito bem como tirar o entrevistado da zona de conforto e, obviamente, me aproveitava daquilo tanto para colher um material mais interessante quanto aprender.

Nas redes sociais, muitos colegas se manifestaram e fiquei realmente feliz em ver o quanto Jurandir Martins fez pelo jornalismo local e como era querido. Mais do que isso, era importante. O amigo Léo Lucas, que atualmente trabalha na Prefeitura de Santo André, publicou que “a enciclopédia do futebol da nossa região ganha o nome do seu guardião”, e ele tem total razão. A memória do gaúcho era invejável. E sua paciência era uma virtude. Dezenas – para não dizer centenas – de jovens jornalistas, como eu, tiveram a oportunidade de cruzar seu caminho. E com muita educação e elegância, não distinguia idade, cor, sexo ou classe social. Pelo contrário. Orientava. E ainda no Facebook pude ler relatos de colegas de profissão que receberam algum tipo de dica do Jura desde os tempos em que trabalhou na extinta Rádio Diário do Grande ABC. Ele passou ainda por diversos veículos, foi diretor regional da Aceesp (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo) e nas últimas décadas atuou na Rádio ABC e nas webrádios STI Esporte, Paraty FM e Master Esporte, mantendo suas análises e críticas no ar.

Me identifico com esse estilo ‘defensor do Grande ABC’ de Jurandir Martins. E enquanto for possível, seguirei fazendo isso. É uma promessa, amigo. Muito grato por tudo nestes 12 anos de cabines e coletivas pelo Estado. Agradeço também por todo o carinho que demonstrou por mim. Descanse em paz, Jura. Muita força à Dona Dirce, demais familiares e amigos.

ELEFANTES DO JORNALISMO
Colunista deste Diário, o premiado e competente colega e jornalista Ademir Médici, outro que ostenta memória privilegiada, me enviou uma mensagem que faço questão de publicar, em homenagem: “Perde o jornalismo - e não apenas o esportivo - um baluarte. Jurandir se destacou cobrindo as atividades esportivas - e não só futebol . Foi também o principal repórter das várias editorias da Rádio Diário do Grande ABC, da Geral (seria o Setecidades) à Política, da Economia à Cultura e Lazer, e assim por diante. Sua última aparição pública foi no Pacaembu, numa das reuniões do Memofut, dentro do Museu do Futebol. Ele se deslocou de São Bernardo para prestigiar a minha palestra. Ano passado. Tenho foto. Sua carreira está documentada no livro Programa de Auditório, que lancei em 2000. Ganhou uma página inteira. Nos 33 anos da página Memória, Jurandir foi grande colaborador. Chegou a ganhar uma semana toda sua, a ‘Semana Jurandir Martins’, com direito a selo produzido pelo colega Agostinho Fratini.” 

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