Confidencial

O futebol brasileiro e sua desorganização


O Campeonato Brasileiro teve no fim de semana sua primeira rodada e foi suficiente para escancarar que o futebol nacional não está exatamente preparado para este retorno pós-auge da pandemia do novo coronavírus no País. As cenas protagonizadas em Goiânia, que terminaram com o adiamento de Goiás x São Paulo, evidenciam o quão longe estamos de um cenário favorável para o reinício das competições de maior porte, que têm diversas brechas no protocolo e exigem grandes deslocamentos em um território de tamanho continental, colocando as delegações em situações que necessitam muito cuidado, zelo, atenção.

Para quem não leu, viu ou ouviu, o Goiás recebeu às 8h30 do domingo, menos de oito horas antes de a bola rolar para sua estreia no torneio, o resultado dos exames feitos por seus jogadores. E dez deles testaram positivo para a Covid-19, sendo oito titulares. Pronta e compreensivelmente, o Esmeraldino entrou com pedido de adiamento da partida junto ao STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), que apenas aceitou a solicitação em cima da hora do apito inicial, quando jogadores do São Paulo já estavam em campo, juntamente do trio de arbitragem, e depois de uma força-tarefa do Goiás para reunir atletas suficientes para compor o banco de reservas – o terceiro goleiro, por exemplo, estava de folga, celebrando o Dia dos Pais, no Interior do Estado, e teve de viajar às pressas para a capital goiana, enquanto outros aspirantes foram inscritos em caráter de urgência para poderem atuar. Verdadeiro absurdo!

É altamente compreensível que tanto CBF quanto mídia, patrocinadores e os próprios clubes anseiem pelo regresso do Brasileirão. Afinal, futebol parado é prejuízo para todas estas partes. Mas se é para fazer a competição de uma maneira que permite alguma vulnerabilidade, sobretudo às delegações e aos profissionais da arbitragem, o melhor teria sido realizar novo conselho técnico entre os participantes e propor uma mudança extraordinária no regulamento, seguindo exemplos que vêm apresentando eficiência neste combate à Covid-19 no mundo, como a NBA (Liga Norte-Americana de Basquete), que centralizou as partidas em um local único para poder manter sua temporada em curso.

Agora é tarde, mas penso que se ao invés de o Campeonato Brasileiro ter sido retomado com turno e returno, terminando somente em fevereiro de 2021, ele fosse realizado em uma primeira fase em que todas as equipes se enfrentassem e as oito melhores avançassem para um mata-mata ou quadrangulares, com jogos disputados em estádios específicos, sem deixar que os times tivessem de pegar aviões e se mantivessem concentrados durante quatro ou cinco meses, seria uma forma menos arriscada à saúde de todos, mais ou menos como ocorreu na reta final do Paulistão, com partidas concentradas e até simultâneas em mesma cidade, já que não há presença de público. Seria inclusive alternativa mais barata à organização, porque não precisaria que os times fossem testados de duas a três vezes por semana – cada testagem custaria aproximadamente R$ 120 mil, imagina isso multiplicado por 20 equipes (sem contar a mesma quantia na Série B), e não teria também os custos de transporte. Obviamente que jogadores, comissões técnicas e demais envolvidos ficariam com saudades das famílias em razão do confinamento. Mas acredito que seria alternativa justamente para o bem-estar de todos.

Voltando ao Goiás, o time do Centro-Oeste tem pela frente amanhã o Athletico-PR, às 19h15, em Curitiba, e submeteu todos os jogadores a uma retestagem. Se ainda não puder contar com aqueles oito titulares, o prejuízo técnico será gigantesco para o time – sem desmerecer reservas, não relacionados e aspirantes. E os demais colegas de grupo, que estiveram concentrados junto dos infectados antes de saberem dos resultados, correm risco agora de também estarem infectados. Ou seja, os goianos podem ter uma situação ainda mais adversa, que pode resultar em uma derrota para o Furacão e, consequentemente, lá na frente, tem possibilidade de fazer falta na luta pelo título, por classificação (Libertadores ou Sul-Americana) ou até mesmo na briga contra o rebaixamento. Além de abrir precedentes para mais batalhas judiciais – e não me surpreenderia que daqui a alguns meses fosse definido que não haverá queda para a Série B e a elite terá 24 equipes em 2021. É esperar para ver. Mas, enquanto isso, por favor: priorizem a saúde, deixem o espetáculo em segundo plano.

DECISÃO CRIA HERÓIS E VILÕES
Depois do pênalti perdido contra o Brasil nas quartas de final da Copa América de 2019, o paraguaio Gustavo Gómez – ao meu ver – nunca mais foi o mesmo. Voltou para o Palmeiras e parecia não ter a segurança de antes, aquela que logo o fez cair nas graças da torcida alviverde. Sábado, na final do Paulistão, o defensor quase passou de um dos mais queridos a persona non grata ao cometer pênalti sobre Jô aos 50 minutos do segundo tempo, que permitiu ao Corinthians empatar e levar a decisão às penalidades. Ainda bem, para o gringo, que Weverton e Patrick de Paula garantiram o 23º título estadual ao Verdão. Aliás, que personalidade do camisa 5 que, aos 20 anos, foi o responsável por converter a última cobrança. Há dois anos, ele disputava a Taça das Favelas. Agora, será lembrado para sempre como aquele que devolveu o sorriso ao rosto do torcedor palmeirense. 

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