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Morte por Covid põe região em evidência


Se o Grande ABC fosse um Estado do Brasil, estaria na sétima colocação do ranking nacional de taxa de mortalidade relativa ao novo coronavírus. Levantamento feito pelo Diário mostra que as sete cidades somam 13,74% na equação entre vítimas fatais e população a cada 1.000 habitantes, à frente, por exemplo, de São Paulo (11,68%), Rio Grande do Sul (1,42%) e Minas Gerais (0,84%) – veja a tabela ao lado.

Já se a região fosse país independente, ocuparia a 11ª colocação entre as 20 nações que registram mais fatalidades. Dados compilados e comparados, além de informações e opiniões de especialistas, apontam as sete cidades – que até quinta-feira contabilizavam 452 perdas entre os quase 2,8 milhões de habitantes –, têm características que contribuem para números tão expressivos.

Quando comparado a países, o Grande ABC aparece na impressionante 11ª colocação, à frente dos índices de mortalidade registrados no Canadá (16,30%), na Alemanha (9,78%) e no próprio Brasil (8,87%). A liderança do ranking é ocupada pela Bélgica, com expressiva marca de 79,26%.

Segundo a epidemiologista e professora do curso de medicina da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Sonia Regina Pereira de Souza, são muitas as considerações a serem levadas em conta ao se traçar comparativos, mas o Grande ABC tem particularidades que ajudaram a alcançar os dados atuais, sendo duas das principais a densidade demográfica e a proximidade com a Capital, onde foram registradas 3.238 mortes e 41.451 casos confirmados até quinta.
“O epicentro da epidemia é São Paulo. E a Região Metropolitana é como se fosse uma área só. Não tem como não ter o contato (entre pessoas), porque tem o trânsito e a interligação de municípios é muito grande”, aponta. “Não tem separação (entre o Grande ABC e a Capital), não tem vazios como no Interior, é região contígua. Então não consegue separar a população”, emenda.

“A densidade populacional é importante. Quanto maior, mais probabilidade de contato entre pessoa suscetível e indivíduo infectado”, continua Sonia Regina. “Região adensada e com moradia mais precária pode favorecer a propagação, porque fica difícil fazer isolamento ali”, completa.

A especialista ainda salienta a necessidade de um sistema de saúde bem preparado para dar conta da demanda. “É importante saber qual é a rede de saúde instalada no município. Aquele que tem condições, equipe de profissionais suficiente para diagnósticos, tratar, esperar e ter evolução com melhor prognóstico. Em município de recurso mais limitado, acaba dependente de outro. A pessoa vai conseguir ter diagnóstico no início? Ou vai procurar só quando tiver com sintomas mais graves. Isso tudo afeta”, diz ela, que elogia o trabalho feito em São Caetano. “É referência em modelo de como lidar com o paciente, com bom programa de proteção ao paciente mais vulnerável”, cita.

Os números mostram que o Grande ABC, sozinho, tem mais óbitos do que as regiões Sul (392, somando os três Estados) ou Centro-Oeste (206, nos três Estados mais o Distrito Federal). Isso, de acordo com a epidemiologista, pode ter dois motivos: ou a Covid-19 ainda está em fase inicial da transmissão comunitária ou foram adotadas medidas prévias para controlar a proliferação. “A mortalidade vai depender de que momento da pandemia o lugar está. Se fizer contenção a tempo, a doença não vai se propagar. Tudo depende do momento das intervenções. Tem de diminuir a oferta de suscetíveis e a quantidade de pessoas infectadas circulando. Quanto maiores forem estes números, mais ativa a epidemia”, observa.

Especialistas divergem sobre situação

O índice de mortalidade do Grande ABC é interpretado de diferentes formas pelos especialistas. Segundo o gestor do curso de arquitetura e urbanismo da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Enio Moro Júnior, em comparação com outros Estados e países, a condição da região “é dramática”. Por outro lado, a epidemiologista e professora de medicina da instituição de ensino são-caetanense Sonia Regina Pereira de Souza enxerga que as sete cidades têm a situação sob controle.

“Estamos em condição boa em termos de controle da pandemia, porque estamos controlando muito bem. Enquanto não tiver cura e vacina, o que vai fazer diferença é o controle e o comprometimento da população. A doença vai se propagar quanto mais contato tiver. Enquanto tiver número grande de infectados, enquanto não tiver cuidado consigo e com o outro, não tem como controlar a pandemia”, aponta a professora.

Enio Moro Júnior, por sua vez, sugere três alternativas a serem adotadas: lockdown (bloqueio total), policentralidade e informações georreferenciadas. “O enfrentamento dessa situação, comprovada de alto risco, passa por três momentos que não podem mais estar ausentes do debate público: a paralisação compulsória por pelo menos 15 dias da região, com fechamento de todas as atividades que não estejam relacionadas com abastecimento, saúde e segurança; valorização dos centros de bairros, porque hoje as cidades do Grande ABC são monocêntricas, ou seja, os centros das cidades possuem uma enorme profusão de atividades comerciais e de serviços; e informações georreferenciadas, porque, apesar de não concordar com um controle ainda maior do Estado sobre o cidadão, está na hora de lançarmos aplicativo público que identifique a condição de saúde diariamente de todos os cidadãos, mapeie áreas de maior concentração de pessoas e, ainda, regiões que possuam maiores números de infectados”, argumenta o gestor.

“Enquanto não enfrentarmos esta questão com a devida seriedade, os dados mostrarão que poderemos nos transformar, como Grande ABC, em uma das áreas de maior descontrole no mundo”, encerra o especialista.

Brasil já é 2º em casos confirmados

O Brasil registrou ontem 20.803 novos casos de Covid-19, recorde para um único dia desde o início da pandemia, e, consequentemente, assumiu o segundo lugar no ranking mundial de infectados. De acordo com boletim divulgado pelo Ministério da Saúde, o País alcançou 330.890 positivados, deixando para trás a Rússia, que soma 326.448. O primeiro lugar absoluto na listagem, de acordo com informações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e outros órgãos internacionais, segue com os Estados Unidos, que já confirmaram 1.600.481 pessoas com a doença. No mundo, já são 5.205.900 casos.

Além disso, o Brasil – que anunciou 135.430 recuperados – totaliza 21.048 mortes, 1.001 a mais do que na véspera. Do montante geral, 5.773 das vítimas fatais foram somente no Estado de São Paulo, que registra 76.871 casos confirmados do novo coronavírus.

GRANDE ABC
A região registrou somente ontem 1.737 novos suspeitos que aguardam exames para saber se estão ou estiveram com a Covid-19. Destas, 1.050 foram divulgadas somente por Santo André. A justificativa do município é o aumento no número de testagens e, consequentemente, de laboratórios avaliando as amostras andreenses. O total de pacientes aguardando é de 10.787.

Já na questão de casos confirmados, o Grande ABC apresentou 181 infectados a mais nos boletins epidemiológicos de ontem, com relação aos da véspera. No total, são 4.832: 1.523, em Santo André; 1.247, em São Bernardo; 879, em São Caetano; 677, em Diadema; 308, em Mauá; 146, em Ribeirão Pires; e 52, em Rio Grande da Serra.

Em número de mortes, as sete cidades registraram 464 vítimas fatais. São Bernardo segue como município que reúne mais perdas, com 173. Santo André aparece na sequência, com 122; seguido por Diadema, com 71; Mauá, com 49; São Caetano, com 33; Ribeirão Pires, com 11; e Rio Grande da Serra, com cinco. Por fim, o Grande ABC registra 1.950 recuperados.

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